Captura de Maduro reacende debate sobre êxodo venezuelano no Brasil
"Esperança cautelosa" é o sentimento que ganha tração entre os imigrantes do país em território brasileiro

A captura de Nicolás Maduro reacendeu expectativas entre venezuelanos que vivem fora do país, mas ainda não altera, no curto prazo, o cenário migratório provocado por mais de duas décadas de crise política, econômica e humanitária na Venezuela.
No Brasil, onde vivem centenas de milhares de venezuelanos, ganha tração o sentimento de esperança cautelosa.
Fernando Morey Perez, venezuelano de 31 anos, com vários anos de atuação na defesa de imigrantes no Brasil, afirma que a reação positiva da comunidade é compartilhada por grande parte de quem deixou o país.
“Eu acho que falo pela grande maioria de venezuelanos no Brasil. Estamos esperançosos e felizes com talvez ver uma luz no fim do túnel. São mais de 20 anos de ditadura. Já esgotamos todos os meios constitucionais, democráticos e pacíficos para uma transição política e não logramos nada nesses anos”, afirmou.
Fernando é líder de uma ONG de apoio humanitário e integração de migrantes venezuelanos no Brasil. Segundo ele, há uma percepção equivocada fora da Venezuela sobre o significado de desejar estabilidade ao país.
“Desejar a paz para a Venezuela é desejar a paz para o povo, e não para os que se autoproclamam líderes do país. Venezuelanos e líderes do regime Maduro não são a mesma coisa”, disse.
Ainda na avaliação dele, a relação do governo venezuelano com a população não pode ser descrita como representativa.
“A relação do governo com os cidadãos não é de líderes que nos representam. É mais de sequestrador, repressor. O povo é vítima dos militares e do Maduro. É triste ver como, a nível internacional, as pessoas não veem isso”, afirmou.
Segundo Fernando, o país vive um contexto de repressão, tortura, cerceamento de direitos e colapso econômico que forçou milhões de pessoas a sair.
“É um país que sofre repressão, tortura, cerceamento e uma economia colapsada pelo governo, além de um êxodo gigante de venezuelanos que foram forçados, pelas circunstâncias do país, a deixar a Venezuela”, afirmou.
Apesar do sentimento de esperança, ele afirma que ainda não há qualquer movimento concreto de retorno.
“Pela primeira vez em 20 anos vemos uma luz no fim do túnel, uma sinalização objetiva de que alguma coisa pode mudar. Mas os migrantes que saem da Venezuela hoje arriscam a própria vida para sair do país, arriscam a vida dos filhos, e têm a percepção de uma vida com dignidade fora da Venezuela”, disse.
Segundo ele, mesmo em um cenário mais favorável, a tendência é de espera. “Com essa luz no fim do túnel, a emigração poderia diminuir. As pessoas querem ver o que acontece nos primeiros meses. Mas ainda não se fala em retorno das pessoas que saíram”, afirmou.
Fernando defende que uma reversão do êxodo depende de mudanças estruturais. “Diminuir significativamente o êxodo e até possíveis retornos à Venezuela dependem, no melhor dos cenários, de uma Venezuela pacífica, livre e democrática. Para ter paz, é preciso lei e consequência”, concluiu.
No Brasil, especialmente em São Paulo, organizações de apoio humanitário — como a Casa Venezuela — acompanham de perto os reflexos do cenário internacional sobre o fluxo migratório, sem qualquer atuação político-partidária.
De acordo com informações divulgadas pelos militares, o movimento de pessoas e veículos na fronteira entre os dois países permanece estável.
O general Roberto Angrizani destacou que o monitoramento da situação está sendo intensificado, mas que até o momento não foram identificadas mudanças significativas que justifiquem o reforço do efetivo militar na região.
"O fluxo de imigrantes vindo da Venezuela para o Brasil, ele se mantém estável. Até tem diminuído realmente nos últimos dias, mesmo com os acontecimentos no dia 3 de janeiro no território venezuelano", afirmou Angrizani durante entrevista coletiva realizada na segunda-feira (5).
Atualmente, 129 militares atuam na região de Pacaraima, cidade fronteiriça onde mais de 80% da população é composta por venezuelanos. Segundo o general, caso haja necessidade, há tropas em Boa Vista prontas para reforçar a segurança na fronteira.
Um fator que pode estar contribuindo para a manutenção do fluxo migratório estável é a dificuldade de circulação dentro do próprio território venezuelano.
Relatos de venezuelanos que cruzam a fronteira indicam que várias rodoviárias e rodovias na Venezuela estão fechadas por militares, o que dificulta o deslocamento de pessoas que eventualmente desejariam vir para o Brasil.
Apesar da aparente normalidade no fluxo migratório, as Forças Armadas brasileiras informaram que intensificaram o monitoramento e o patrulhamento na região fronteiriça, como medida preventiva diante da situação política na Venezuela.
"Obviamente, nós redobramos a nossa atenção aqui nesse local, o monitoramento maior, a presença mais constante aqui da nossa tropa, um patrulhamento mais constante durante o dia", explicou o general Angrizani.


