Nepal: lama e chuva dificultam buscas por centenas de desaparecidos

Inundações repentinas causaram destruição generalizada; autoridades alertam que o número de vítimas tende a aumentar

Da CNN Brasil
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Equipes de resgate procuram centenas de pessoas que continuam desaparecidas depois que uma parede de lama e rochas desabou em um rio na região fronteiriça do Himalaia entre o Nepal e o Tibete, na China. O deslizamento provocou inundações catastróficas que atingiram cidades e vales montanhosos, deixando mais de 160 mortos do lado nepalês.

Vídeos verificados mostraram dezenas de pessoas sendo arrastadas na região de fronteira com a China. Autoridades dos dois lados alertam que o número de vítimas tende a aumentar diante da destruição em grande escala.

Casas e estradas foram destruídas no Nepal. Já no Tibete, território controlado pela China, autoridades temem “um grande número de vítimas”, com algumas pessoas desaparecidas no condado de Gyirong após um deslizamento de terra atingir um posto de fronteira terrestre.

Um socorrista entrevistado pela emissora estatal chinesa CCTV relatou dificuldades em estabelecer contato com o porto fronteiriço de Gyirong. Todas as estradas que levam ao posto de fronteira foram “completamente destruídas” após uma inspeção preliminar com um drone, acrescentou o socorrista.

Lama e chuva dificultam operações de resgate

A região afetada pela onda de enchentes na fronteira entre o Nepal e a China pode registrar mais chuva nesta quinta-feira (27), com pancadas e tempestades se formando durante a tarde.

Socorristas chineses que tentam chegar ao posto fronteiriço de Gyirong estão sendo impedidos por grandes bloqueios nas estradas que levam à região, mais de 20 horas após a área ser atingida por uma onda de enchentes de grandes proporções.

A lama e os destroços continuam impedindo o acesso ao posto, informou na manhã desta quinta-feira um repórter da imprensa estatal chinesa que está no condado de Gyirong, no Tibete.

“A borda do deslizamento de terra está a cerca de 2,5 quilômetros do posto de Gyirong, e a lama tem quase 1,5 metro de espessura em sua extremidade”, disse o correspondente Wang Qian durante uma transmissão da emissora estatal CCTV. “Isso torna extremamente difíceis os trabalhos de resgate que virão a seguir.”

As equipes de resgate estão em alerta máximo para novos deslizamentos de terra e desmoronamentos de estradas, que podem colocar os socorristas em risco. Os perigos estão sendo avaliados cuidadosamente enquanto as equipes tentam chegar ao posto. A chuva registrada na região durante a noite também dificultou os trabalhos de resgate, informou a imprensa estatal.

O uso de máquinas pesadas e outros equipamentos para ajudar na desobstrução das estradas tem sido uma parte fundamental da resposta até o momento, com várias autoridades enviando equipes de resgate. Mais de 100 socorristas adicionais, principalmente de Pequim e da província de Sichuan, deveriam chegar na manhã desta quinta-feira.

Na noite de quarta-feira, os militares chineses enviaram drones à área do desastre para avaliar a dimensão da destruição, mas também enfrentaram “condições climáticas complexas”, informou a CCTV. Um segundo drone também foi enviado à região para auxiliar nas comunicações de emergência.

Causas da tragédia ainda são investigadas

Relatos iniciais de autoridades do Nepal sugeriram que um terremoto de magnitude 4,4 poderia ter causado o desabamento de parte de uma geleira e desencadeado as enchentes. No entanto, o Serviço Geológico dos Estados Unidos afirmou posteriormente foi o forte deslizamento que provocou o tremor.

Uma análise preliminar de imagens de satélite da Planet Labs indicou que um deslizamento de gelo e rochas provocou uma enchente carregada de detritos no rio Lhende, a cerca de 20 km a nordeste da passagem de fronteira Rasuwagadhi entre o Nepal e a China, informou a Agência Nacional de Redução e Gestão de Riscos de Desastres do Nepal no X.

A região fica em uma rota popular para Kailash Manasarovar, no Tibete, um local visitado anualmente por centenas de peregrinos hindus da Índia e de outros lugares, especialmente nesta época do ano.

Autoridades do Ministério do Turismo do Nepal informaram inicialmente que mais de 400 turistas estavam desaparecidos, sendo cerca de 340 são estrangeiros. De acordo com um porta-voz, 133 eram indianos em peregrinação, 47 eram americanos, 34 australianos, 33 britânicos e 24 canadenses.

O secretário-geral da Organização das Nações Unidas, António Guterres, disse que equipes da ONU e parceiros estavam mobilizando suprimentos e pessoal no Nepal para apoiar as comunidades afetadas pelo desastre.

“Era uma enorme enxurrada de lama vindo direto em nossa direção. À medida que se aproximava, ela subia cada vez mais. Quando a vi invadir nossa casa, tentei segurar a mão da minha esposa e levá-la para o terraço. Mas ela foi arrastada pela lama”, disse Keshav Prasad Baral, um sobrevivente de 68 anos que estava sendo atendido em um pequeno hospital. “Quatro ou cinco horas depois, um helicóptero veio me resgatar. Minha esposa ainda está em algum lugar sob a lama. Ela se foi.”

Outro sobrevivente contou que foi salvo ao se agarrar a uma mangueira enquanto via a casa onde trabalhava desaparecer.

Inundações repentinas deixam rastro de destruição

Imagens de câmeras de segurança captadas no lado chinês da fronteira entre o Nepal e o Tibete mostraram muitas pessoas fugindo antes que uma parede de rochas, lama e água destruísse prédios e arrastasse veículos.

Moradores das áreas afetadas de Nuwakot e Dhading foram vistos se reunindo do lado de fora de um centro de treinamento do Exército do Nepal — a base para as operações de resgate por helicóptero — em busca de informações sobre familiares desaparecidos.

A polícia registrava os nomes dos desaparecidos logo em frente ao portão do quartel, usando as lanternas dos celulares como única fonte de luz, já que a área permanecia sem eletricidade devido a danos na infraestrutura hidrelétrica.

O cenário era de destruição, com casas, árvores e veículos soterrados.

Helicópteros sobrevoaram as áreas atingidas em busca de sobreviventes, mas não conseguiram pousar  no distrito montanhoso de Rasuwa, no Nepal, porque o rio estava transbordando.

“Há devastação por toda parte”, declarou Tula Bahadur BK, profissional de saúde em Rasuwa, à Reuters. “Os assentamentos próximos ao rio foram completamente arrastados. Cinco dos meus próprios parentes estão desaparecidos.”

*Com informações da Reuters e da CNN Internacional