Chile supera variante Delta e agora corre para vacinar crianças

Desde fevereiro, quando o Chile começou a imunizar sua população contra a Covid-19, o país tem sido elogiado internacionalmente por sua campanha de vacinação suave e bem-sucedida

Enquanto o número de casos de Covid-19 está subindo novamente na América Central e no Caribe, na última semana o Chile atingiu os menores índices de infecção
Enquanto o número de casos de Covid-19 está subindo novamente na América Central e no Caribe, na última semana o Chile atingiu os menores índices de infecção 05/03/2021 REUTERS/Willy Kurniawan/Arquivo

Daniela Mohor Wda CNN

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Liliana Silva não esperava por isso. Quando seu irmão veio da Alemanha, onde mora, para visitar a família no Chile, ninguém se sentiu vulnerável. Ele tinha completado a quarentena obrigatória de 10 dias em Santiago e não apresentou sintomas de Covid-19.

Porém, menos de uma semana depois, seus pais, suas três filhas e uma tia foram infectados com a variante Delta. Ela e o marido também não escaparam. Logo eles sentiram o mal-estar. Quase todos tiveram sintomas leves que duraram de 2 a 4 dias, com exceção de seu pai e suas filhas.

“Meu pai sofre de leucemia crônica; teve pneumonia, ficou desidratado e foi internado. Se ele não tivesse tomado as doses, teria morrido”, afirmou, referindo-se à vacina contra a Covid-19.

Suas filhas, contudo, eram muito novas para se vacinarem, e sofreram muito com a infecção. “Minhas filhas tiveram febre alta, tosse, vômito e fortes dores de cabeça. Eu queria que elas tivessem se vacinado; eu temia por elas o tempo todo”, contou.

Desde fevereiro, quando o Chile começou a imunizar sua população contra a Covid-19, o país tem sido elogiado internacionalmente por sua campanha de vacinação suave e bem-sucedida. De acordo com os últimos relatórios do Ministério da Saúde, quase 87% da população chilena elegível estão totalmente vacinados.

Esse número coloca o país sul-americano entre as nações com a maior parcela de pessoas imunizadas. O Chile também se destaca em comparação com o restante da América Latina e do Caribe, onde 75% da população regional ainda não havia sido totalmente vacinada em 1º de setembro, de acordo com a Organização Pan-Americana de Saúde.

A alta cobertura vacinal levou à diminuição das taxas de infecção, mas o Chile não planeja reduzir as precauções nem diminuir os esforços de imunização. Na semana passada, o governo anunciou que o Chile se tornaria um dos poucos países do mundo a aprovar a vacina CoronaVac para crianças entre 6 e 11 anos de idade. A aplicação da vacina começou na segunda-feira (13).

“Sabe-se que, em países onde a maioria da população adulta foi imunizada, o coronavírus começa a atacar aqueles que permanecem mais vulneráveis e as crianças acabam se infectando mais, como está acontecendo nos Estados Unidos”, disse a Dra. Lorena Tapia, pediatra e infectologista da Universidade do Chile e membro do comitê consultivo de vacinas para o Ministério da Ciência.

“Precisamos avançar com a imunização dos mais jovens”.

Estratégia precoce

Diferentes elementos explicam o sucesso da vacinação no Chile. As autoridades começaram a planejar uma resposta à pandemia bem cedo. Em maio de 2020, dois meses depois que o país reportou seus primeiros casos de Covid, o Ministério da Ciência começou a negociar contratos com diferentes laboratórios – Pfizer, AstraZeneca, Sinovac (que fabrica a Coronavac), e CanSino – para garantir a compra de doses para todos os chilenos.

Simultaneamente, a instituição trabalhou para que a comunidade científica local participasse dos estudos clínicos da Fase 3, o que daria ao país prioridade no fornecimento de vacinas. Por fim, os acordos comerciais foram fechados rapidamente.

“Desde o início, nossa campanha foi baseada nas vantagens de se ter um portfólio diversificado de vacinas”, disse o Ministro da Ciência Andrés Couve.

“Isso fez com que não dependêssemos da disponibilidade de um só fornecedor, considerando a alta demanda mundial por vacinas contra a Covid-19”, acrescentou.

Essa estratégia, combinada com um sistema de vacinação historicamente bem organizado, a implantação de 1400 novos locais de vacinação e um sistema de agendamento de fácil acesso pelos grupos elegíveis, permitiu que o processo de vacinação do país avançasse com poucas interrupções.

O fato do Chile ter uma população pequena também ajudou. A dívida relativamente baixa e uma política fiscal responsável de longa data também garantiram fundos para a compra de vacinas suficientes. A estabilidade política e econômica do país atraiu até mesmo investimentos chineses: a Sinovac anunciou recentemente que abrirá uma fábrica de vacinas perto de Santiago no próximo ano.

Até agora, o Chile recebeu 36 milhões de doses para uma população de 19 milhões de habitantes, o suficiente para já ter começado a aplicar doses de reforço. A cada semana, um novo grupo de pessoas se torna elegível para as doses extras – nesta semana, o país está aplicando essas doses em pessoas a partir de 55 anos de idade.

“É muito fácil se vacinar no Chile, e as pessoas têm sido muito responsáveis. O movimento anti-vacinação é insignificante”, disse Eduardo Undurraga, ex-pesquisador do Centro de Controle de Doenças dos EUA (CDC) e atual professor da Universidade Católica do Chile.

Os chilenos historicamente confiam em campanhas de imunização, e o ceticismo vacinal não se enraizou no país. Na verdade, o Chile erradicou a varíola 27 anos antes do restante do mundo e foi o terceiro país a controlar a poliomielite. A confiança dos cidadãos nas vacinas também permitiu reduzir significativamente a ocorrência de doenças infantis como sarampo, caxumba e rubéola.

Undurraga fez parte da equipe que coordenou a avaliação da eficácia da vacina inativada contra o SARS-CoV-2, a CoronaVac, utilizando uma coorte prospectiva de aproximadamente 10 milhões de pessoas no Chile. O estudo foi encomendado pelo Ministério da Saúde do país depois da comunidade internacional levantar dúvidas sobre a eficácia da fórmula do fabricante Sinovac, cuja vacina tem sido a espinha dorsal da campanha de imunização no Chile.

Os resultados, divulgados no início de julho, foram tranquilizadores: o estudo concluiu que sua eficácia foi de cerca de 66% para a prevenção da Covid-19, e de cerca de 90% para a prevenção de hospitalização, internação em UTI e morte. No entanto, essa investigação foi feita antes dos primeiros casos de chilenos infectados com a variante Delta terem sido reportados no final de junho

Vigilância constante

Enquanto o número de casos de Covid-19 está subindo novamente na América Central e no Caribe, na última semana o Chile atingiu os menores índices de infecção e número de casos ativos desde março de 2020.

A porcentagem de esfregaços nasais e de garganta com resultados positivos se estabilizou em menos de 1%, o que levou o governo a afrouxar progressivamente as restrições… de certa forma. Um toque de recolher às 22h que está em vigor desde o ano passado, por exemplo, mudou para as 00h – o suficiente para permitir que alguns chilenos sintam que finalmente têm alguma liberdade de novo.

Os imunologistas e epidemiologistas, no entanto, insistem na necessidade de se manter vigilante. Eles estão especialmente preocupados com a variante Delta, que vem circulando há alguns meses.

Entre o fim de fevereiro e o fim de julho, o Chile passou por uma dramática onda de Covid-19, com novas infecções atingindo a marca de até 9 mil por dia. Naquela época, a vacinação tinha acabado de começar, e a cobertura era muito baixa para ter algum impacto.

Mesmo assim, os chilenos se sentiram mais seguros e deixaram de seguir algumas medidas de proteção. Os especialistas também atribuíram o pico de casos de Covid-19 às viagens.

Desde então, a vacinação ampla tem desempenhado um papel fundamental na prevenção de um novo surto, disseram os especialistas, mas isso não é suficiente.

É por isso que o governo nunca retirou completamente as medidas de restrição, ao contrário de outros países que flexibilizaram as regras de distanciamento social após passarem por uma fase de diminuição dos casos confirmados, apenas para virem as taxas de infecção aumentarem. O uso da máscaras ainda é obrigatório, assim como o distanciamento social em locais públicos e escolas. As fronteiras ainda não estão totalmente abertas, e os viajantes enfrentam restrições significativas.

Essas ações permitiram que os chilenos mantivessem a variante Delta sob controle até agora. Mas com a Covid-19, a incerteza sempre prevalece.

“Não podemos dizer que está sob controle”, disse o Dr. Alexis Kalergis, diretor do Instituto Millennium de Imunologia e Imunoterapia de Santiago. “A pandemia não acabou, e se não tivermos cuidado podemos ter um novo surto a qualquer momento”.

Apesar de ser cauteloso em atribuir a diminuição das taxas de infecção totalmente ao processo de imunização, Kalergis disse que expandir ainda mais a vacinação é a melhor maneira de se evitar o surgimento e propagação de novas cepas.

Vacinas para crianças

Nesse contexto, a vacinação dos mais jovens parece ser o próximo passo para que o Chile mantenha sua taxa de sucesso. Com as hospitalizações pediátricas aumentando em alguns países, incluindo nos EUA, o Chile está correndo para fugir desse destino.

A Dra. Catterina Ferreccio, epidemiologista que atua no Comitê Consultivo de Covid-19 para o Ministério da Saúde, explicou a urgência: nesta fase da pandemia, é provável que as crianças se tornem um reservatório de Covid-19, o que é um risco para elas e para o restante da comunidade. Em algum momento, pode surgir uma nova variante que supere suas defesas naturais.

A pediatra Dra. Lorena Tapia compartilha dessa preocupação. Ela também apontou que, no Chile, 52% das crianças em idade escolar estão acima do peso ou são obesas, o que aumenta seu risco de ficar gravemente doente e até mesmo de morrer por Covid. Existe também um número significativo de crianças com doenças respiratórias.

“Pode ser verdade que a maioria das crianças ficará bem se for infectada, mas muitas delas não ficarão tão bem. E hoje, com os dados de segurança que gerenciamos, é algo que podemos evitar”.

Na última segunda-feira (13), Ferreccio participou da reunião do comitê consultivo de Covid-19 para avaliar a aprovação da CoronaVac para crianças entre 6 e 11 anos. Ela contou que a decisão foi tomada com base tanto em dados confiáveis fornecidos pela China, onde mais de 40 milhões de crianças nessa faixa etária foram vacinadas com a CoronaVac, como na longa experiência do próprio Chile com esse tipo de vacina.

“Esta é uma plataforma de vacinas bem conhecida; não estamos fazendo experimentos. É muito segura, e vimos que quando as crianças estão protegidas, todos nós ficamos protegidos contra novas cepas”, acrescentou.

Além disso, a volta às aulas das crianças é uma importante medida de saúde pública em si, afirmou.

“Como avó de 5 crianças, vi como tem sido difícil para elas ficarem em casa, e isso é pior nas famílias com menor renda”, disse a epidemiologista Ferrecio.

“Temos visto os índices de violência doméstica aumentar, e isso está prejudicando muito as crianças. Para muitas delas, a escola é uma proteção. Vaciná-las irá diminuir o medo de pais, professores e epidemiologistas. Não podemos mais esperar”.

(Texto traduzido. Leia o original aqui)

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