Colômbia é preparada para terremotos, mas dois fatores pioraram tragédia
CNN conversou com especialistas que apontaram os principais motivos pelos quais desabamentos aconteceram
Prédios desabados, varandas caídas, fachadas de igrejas que ruíram em segundos. A Colômbia tem um longo histórico de atividade sísmica, mas o terremoto da segunda-feira (10), apesar de ter sido registrado a uma profundidade de mais de 100 quilômetros, causou muitos danos estruturais.
Alguns fatores intensificaram os danos da tragédia.
Além da região ser amplamente sismicamente ativa, a construção informal, a manutenção inadequada de algumas estruturas e os edifícios vulneráveis construídos antes dos códigos de construção mais recentes para resistência a terremotos estão entre as causas dos danos mais severos, de acordo com especialistas consultados pela CNN.
Mais de 260 pessoas morreram e pelo menos 2.000 ficaram feridas após o terremoto de magnitude 7,4 atingir José del Palmar, Chocó, a oeste de Bogotá, pouco depois das 7h da manhã, horário local, na segunda-feira (10). Os números podem aumentar nos próximos dias, à medida que os esforços de resgate e recuperação continuam.
O problema da construção informal
Além do epicentro no departamento de Chocó, cidades como Cali, Pereira e Manizales, entre outras, foram severamente afetadas pelo terremoto, assim como muitos pequenos municípios ao redor dessas cidades.
O presidente colombiano, Abelardo de la Espriella, informou que 1.136 casas foram destruídas, 48 prédios desabaram, 8.357 casas foram danificadas e 807 escolas também foram danificadas.
“Foi um terremoto bastante profundo, mas dada a quantidade de energia liberada, atingiu a superfície com grande força e afetou grande parte do território nacional”, explicou à CNN o professor Albert Ortiz, engenheiro civil e diretor da Escola de Engenharia Civil e Geomática da Universidade do Valle, em Cali.
Embora este seja um terremoto que os pesquisadores conseguem prever como provável e para o qual a infraestrutura está sendo preparada, explica Ortiz, ainda existem deficiências devido à alta porcentagem de construções informais, especialmente em alguns dos municípios menores ao redor das cidades mais populosas.
Esse fator é crucial, concorda Rafael Camilo Gutiérrez Melgarejo, doutor em Estruturas e professor da Florida International University. Ele afirma que essa é justamente uma das causas dos maiores danos: construções que carecem de supervisão de engenheiros estruturais ou de planejamento adequado.
“Infelizmente, a Colômbia tem uma taxa muito alta de construções informais, em torno de 60%, o que é realmente muito alto”, explicou.
No entanto, especialistas explicam que, geralmente, é uma combinação de vários fatores que desencadeia desabamentos e danos, tornando improvável a identificação de um único indicador independente.
“Atualmente, temos estruturas construídas de acordo com normas de engenharia que deveriam ter resistido ao terremoto, talvez com alguns danos em elementos não estruturais”, diz Ortiz, que também é pesquisador da CEER (Rede Colombiana de Engenharia Sísmica).
No entanto, muitas estruturas ainda permanecem construídas antes do primeiro código oficial de construção resistente a terremotos, criado em 1984, após o devastador terremoto de Popayán, no oeste da Colômbia, em 1983. A atualização mais recente desse código, então chamado de Código Colombiano de Construção Resistente a Terremotos, foi feita em 2010.
Gutiérrez Melgarejo explica que, embora as normas já existissem, elas não eram “legalmente exigíveis” até a reforma constitucional colombiana de 1991. Portanto, muitos edifícios construídos antes desse período são os mais vulneráveis, apresentando maiores deficiências em caso de um terremoto forte como o que ocorreu em Chocó.
“Muitas estruturas são muito antigas e não foram atualizadas de acordo com os códigos atuais. Isso cria um problema porque as estruturas, assim como os veículos, exigem manutenção e avaliações a cada poucos anos para evitar a deterioração tanto da estrutura quanto dos materiais”, afirma Gutiérrez Melgarejo, mestre em Engenharia Civil.
Na atualização de 2010 do código de construção, o Ministério do Meio Ambiente, Habitação e Desenvolvimento Territorial da Colômbia afirmou que as normas de resistência a terremotos em vigor nos últimos anos “cumpriram seu principal objetivo de prevenir o colapso e danos estruturais graves em edifícios” durante terremotos, mas esclareceu que a falta de proteção para elementos não estruturais “e seu potencial perigo para a vida humana” permanecia “notável”.
Deficiências de manutenção e mudanças na construção
Localizada em uma zona sísmica, a Colômbia faz parte de uma região onde as placas tectônicas convergem, tornando esse tipo de evento frequente e esperado.
Especialistas explicam que esse tipo de terremoto de subducção, no qual as placas Sul-Americana e de Nazca se encontram, ocorreu especificamente em uma das zonas sísmicas mais elevadas, onde as condições exigem construções adequadas.
Para um terremoto dessa magnitude, os efeitos são o que os pesquisadores estimam, afirma Ortiz, que fez parte do Modelo Nacional de Risco Sísmico, onde se estuda o que se pode esperar de um terremoto com base em sua intensidade.
"Esperávamos que, para um terremoto dessa magnitude, obviamente teríamos níveis de danos consistentes com o que estamos vendo, infelizmente, porque temos estruturas muito vulneráveis", em parte devido à falta de reparos, destaca ele.
A manutenção predial, diz ele, é relativa a cada cidade ou município.
Muitos prédios que desabaram têm cerca de 30 anos e, por serem residenciais, as pessoas não têm orçamento para reforçá-los, acrescenta o professor da Universidade do Valle. Reforçar um prédio de cinco ou seis andares na Colômbia pode custar cerca de US$ 1 milhão, estima ele.
Gutiérrez Malgrejo, por sua vez, afirma que a manutenção estrutural é um problema que afeta não só a Colômbia, mas também outros países vizinhos da América Latina. Um problema frequente, analisa ele, é que os prédios não são atualizados para atender às normas mais recentes.
Além disso, os prédios mais antigos provavelmente não possuem elementos que a engenharia descobriu nos anos seguintes ao terremoto de 1983, que motivou as primeiras regulamentações nacionais.
“Com essas tragédias, aprendemos a construir colunas, vigas e paredes, a restringir a flexibilidade de um prédio… não é que a estrutura seja mal construída, mas sim que foi construída em uma época com exigências diferentes”, destaca Ortiz. Isso se traduz em danos a elementos de alvenaria e blocos de tijolo, um tipo de construção muito comum no país.
Engenheiros concordam que a Colômbia pode enfrentar meses de recuperação. Avaliações de danos, inspeções de edifícios e estruturas serão apenas os primeiros passos em uma reconstrução que levará tempo.


