Comida de ajuda humanitária apodrece na entrada de Gaza, que sofre com fome
CNN Brasil teve acesso ao pátio onde as doações permanecem expostas ao sol, aguardando distribuição
Caixas e mais caixas de alimentos apodrecem em Kerem Shalom, na entrada da Faixa de Gaza, enquanto meio milhão de palestinos sofrem com a fome.
A CNN teve acesso ao pátio onde as doações permanecem expostas ao sol, aguardando distribuição. A visita foi acompanhada pelo Exército de Israel, que restringe o acesso da imprensa ao território palestino.
Israel afirma que mais de 300 caminhões com alimentos e ajuda humanitária entraram em Gaza nos últimos dias. De fato, os veículos atravessam do lado israelense; mas, do lado palestino, os funcionários estão parados.
As mercadorias, doadas por países do mundo inteiro -- Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Filipinas, Programa Mundial de Alimentos da ONU -- deveriam ser levadas para os civis, mas ficam amontoadas ao ar livre.
As doações incluem itens básicos como café, molho de tomate, detergente e leite em pó. Além disso, milhares de sacos de açúcar e alimentos perecíveis como maçãs, laranjas, repolho e bananas apodrecem sob o sol intenso.
Perspectivas divergentes sobre a distribuição
Enquanto as mercadorias são desperdiçadas, a ONU afirma que mais de meio milhão de pessoas passam fome na Faixa de Gaza. E o número deve continuar aumentando: o Monitor Global de Alimentos, apoiado pela ONU, projeta que, até o final do mês, 640 mil pessoas enfrentarão níveis catastróficos de insegurança alimentar em Gaza.
As autoridades israelenses reconhecem que há civis passando fome, mas culpam a Organização das Nações Unidas pelos problemas de distribuição de ajuda.
O porta-voz do Exército israelense, Rafael Rozenszajn, afirma que "Israel não tem responsabilidade de distribuir essa ajuda humanitária para a Faixa de Gaza. A responsabilidade da distribuição é das organizações internacionais, que foram criadas para isso."
"Nós conseguimos ver verduras, legumes, frutas apodrecendo, e isso é uma tristeza muito grande, porque tem pessoas passando fome na Faixa de Gaza", acrescenta o porta-voz.
Por outro lado, a ONU afirma que as autoridades israelenses têm atrasado ou impedido a entrega da ajuda. Mesmo nos casos em que as organizações humanitárias recebem autorização para distribuir os suprimentos, as equipes enfrentam estradas perigosas e, muitas vezes, intransitáveis.
Na busca desesperada por ajuda, dois mil palestinos foram mortos nos últimos meses, conforme dados da ONU.
Israel também acusa o Hamas de desviar a ajuda humanitária destinada aos civis palestinos, usando-a como fonte de renda. "Infelizmente, o Hamas rouba a ajuda humanitária que entra na Faixa de Gaza", afirma o porta-voz do Exército israelense.
A CNN não pôde comprovar as acusações, já que o acesso da imprensa à Faixa de Gaza é restrito pelas autoridades israelenses. Durante a visita ao pátio, Israel mostrou aos jornalistas os alimentos que perecem na fronteira, mas uma grade delimitava o fim do acesso da imprensa internacional ao território palestino.
Desde o início da guerra, em outubro de 2023, pelo menos 221 jornalistas foram mortos em Gaza, segundo a Federação Internacional de Jornalistas. Em agosto, cinco profissionais de diferentes veículos de comunicação foram mortos em um ataque israelense ao hospital Nasser, no sul de Gaza.
Novamente, o porta-voz do Exército culpa o Hamas. "O Hamas utiliza jornalistas como estratégia para se esconder de ataques israelenses. Muitos terroristas eliminados eram jornalistas de manhã e terroristas à noite. Não temos como garantir a segurança de jornalistas em Gaza devido à atuação do Hamas", diz Rozenszajn.
Veículos de mídia de mais de 70 países se juntaram a um protesto contra os ataques à imprensa. A mensagem exibida nos jornais e sites de notícias dizia: "No ritmo em que jornalistas estão sendo mortos em Gaza pelo Exército israelense, em breve não restará ninguém para mantê-los informados".


