Como a vida de uma refugiada ucraniana terminou em esfaqueamento nos EUA

Iryna Zarutska foi morta em um trem noturno por um homem com histórico criminal, que estava nas ruas; o caso gerou debate sobre segurança pública no país

Elizabeth Wolfe e Jeff Winter, da CNN, TuAnh Dam
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Iryna Zarutska era apenas mais uma passageira quando embarcou em um trem noturno na estação Scaleybark, a poucos quilômetros do centro da cidade de Charlotte, na Carolina do Norte. Ela usava calças cáqui e uma camisa escura. Os cabelos loiros estavam presos sob um chapéu da pizzaria Zepeddie's, onde trabalhava.

Assim como os demais passageiros do vagão, a jovem de 23 anos curvou a cabeça, enquanto o trem prosseguia, focada no celular.

Zarutska, uma refugiada da Ucrânia, tinha escolhido uma fileira vazia e se sentado na frente de um homem de moletom vermelho, sem perceber o iminente perigo.

Apenas quatro minutos depois, Decarlos Brown, o passageiro que estava atrás dela, enfiou a mão na dobra de suas roupas e tirou o que parecia ser uma faca. Por um instante, olhou para trás e, de repente, em um movimento rápido, se levantou, passou o braço por cima do assento e esfaqueou Zarutska fatalmente.

A jovem colocou a mãe no rosto e na garganta, antes de cair no chão.

Zarutska morreu no trem devido aos ferimentos, enquanto os passageiros se ajoelhavam perto dela, tentando ajudar.

Decarlos Brown foi acusado de homicídio em primeiro grau pelo assassinato.

Nos dias seguintes à divulgação do vídeo do ataque, o esfaqueamento e o longo histórico criminal de Brown — incluindo condenações por roubo à mão armada, furto e arrombamento — foram criticados pelo governo Trump e por políticos conservadores como um exemplo do crime violento que, segundo os críticos, assola muitas cidades lideradas por democratas nos Estados Unidos.

O crime se tornou um grito de guerra enquanto o governo busca justificar o envio de tropas federais para Los Angeles e Washington, D.C., mesmo com o presidente Donald Trump ameaçando enviar a Guarda Nacional para Chicago.

"A Carolina do Norte e todos os estados precisam de lei e ordem, e somente os republicanos as cumprirão!", disse Trump na rede social Truth Social. O presidente chamou Brown de "criminoso de carreira".

A prefeita de Charlotte, Vi Lyles, e a família de Brown afirmaram que o assassinato se deve, em parte, às falhas do sistema judicial que permitiu que Brown se reinserisse na comunidade, apesar de um histórico de doença mental e condenações por roubo à mão armada, furto qualificado e invasão de domicílio.

No fim das contas, os caminhos de duas pessoas convergiram fatalmente – uma mulher que escapou da violência apenas para enfrentá-la nos EUA e um homem cujos familiares acreditam que ele foi prejudicado tanto pela justiça criminal quanto pelo sistema de saúde.

Jovem ucraniana abraçou a vida nos EUA

Zarutska tinha um dom. Sua mãe o chamava de "dom de artista". Não era sua habilidade de esculpir ou desenhar roupas — embora adorasse fazer isso. Zarutska, formada em arte e restauração pelo Synergy College, em Kiev, frequentemente presenteava familiares e amigos com sua arte.

O "dom de artista" era o que sua mãe carinhosamente chamava de sua capacidade de dormir por "períodos maravilhosamente longos".

Zarutska era caseira e "ficava mais feliz quando cercada pela família e entes queridos", disse a família no obituário.

A jovem deixou a Ucrânia em agosto de 2022, seis meses após a invasão russa, para escapar da guerra.

Lonnie, um amigo da família, disse à WCNC afiliada da CNN que Zarutska suportou bombardeios diários na Ucrânia e a agonia de não saber "se você vai viver ou respirar mais um dia".

Ela fugiu com a mãe, a irmã e o irmão, encontrou um lar na Carolina do Norte e abraçou a vida em Charlotte. Frequentou o Rowan-Cabarrus Community College e sonhava em se tornar assistente veterinária.

"Ela costumava cuidar dos animais de estimação dos vizinhos, e muitos se lembram com carinho de vê-la passeando com eles pelo bairro, sempre com seu sorriso radiante", disse sua família.

Zarutska trabalhava em uma área movimentada do sul da Carolina do Norte, repleta de cervejarias, condomínios e cafeterias. A inauguração do sistema de VLT em 2007 ajudou a impulsionar o crescimento do bairro.

Disseram que ela estava se aproximando da independência e aprendendo a dirigir. Mas, enquanto isso, pegaria o trem.

"Eu sabia que ele estava lutando", diz mãe de agressor

Dias antes do esfaqueamento, Brown apareceu na casa da mãe. Michelle Dewitt disse que seu filho, que estava em situação de rua e morava em um abrigo local, pediu para passar a noite lá.

Mais tarde naquela manhã, a mãe de Brown o deixou em um abrigo na Avenida Statesville, a poucos quilômetros da estação Scaleybark, onde ocorreu o esfaqueamento. Ela o abraçou e disse ao filho que o amava, antes de ir para a igreja.

Quando descobriu sobre o esfaqueamento e a prisão do filho, Dewitt não conseguia acreditar que era Brown. Ela já o havia expulsado de casa antes por se tornar muito violento, contou à afiliada da CNN, a emissora americana WSOC. Mesmo assim, ela achava que a identificação do filho como suspeito devia ter sido um erro.

Mas Brown, que tinha um histórico de problemas de saúde mental, vinha enfrentando dificuldades nos últimos anos, disse Michelle Dewitt.

A irmã, Tracey Brown, disse que ele havia sido diagnosticado com esquizofrenia e sofria de alucinações e paranoia.

Decarlos Brown passou mais de cinco anos na prisão por roubo com arma perigosa. E quando saiu em 2020, sua irmã disse que sentiu que estava lidando com uma pessoa diferente.

"Ele não parecia ser ele mesmo", disse Tracey Brown. Seu irmão tinha dificuldade para manter conversas simples e não conseguia manter um emprego. Às vezes, ele se tornava agressivo.

Decarlos atacou a irmã em 2022. Ele a mordeu e quebrou as dobradiças de uma porta, mas a irmã disse que decidiu retirar as acusações por preocupação com os problemas de saúde mental dele.

"Eu sabia que ele estava lutando contra alguma coisa", afirmou Tracey Brown. Mas a família teve dificuldades para conseguir ajuda para sua saúde mental.

A mãe deles tentou internar Brown em uma instituição de longa permanência, disse Tracey, mas as tentativas falharam porque ela não era sua tutora. Além disso, Decarlos contou à irmã diversas vezes que o governo havia implantado um chip nele.

No início deste ano, Brown pediu aos policiais que investigassem um material "artificial" que controlava quando ele comia, andava e falava, segundo documentos judiciais.

Os policiais disseram a Brown que "o problema era médico" e que não havia mais nada que pudessem fazer. Chateado, ele ligou para a emergência. Brown foi acusado de uso indevido do chamado, uma infração criminal grave.

Sua libertação estava condicionada à promessa por escrito de que compareceria à próxima audiência, de acordo com o tribunal. A Casa Branca afirmou que sua libertação o deixou "livre para assassinar uma mulher inocente".

Tracey Brown acredita que seu irmão sofreu um colapso mental desastroso naquela noite.

O vídeo do ataque mostra Decarlos inquieto. Ele assentiu com a cabeça e depois a sacudiu. Sentou-se, com o capuz puxado sobre os longos cabelos, abruptamente ereto e, em seguida, curvou-se para a frente para descansar a cabeça no assento à sua frente. Ocasionalmente, balançava para a frente e para trás.

Minutos depois, ele atacou Zarutska, que havia acabado de embarcar no trem. A cidade de Charlotte havia sido seu refúgio da violência no exterior, mas agora Zarutska havia perdido a vida lá.

"É muito, muito repugnante e triste que tenhamos tanta maldade em nossa sociedade hoje", disse Lonnie, o amigo da família.

Decarlos mais tarde contou à irmã que atacou a mulher porque ela estava lendo sua mente.

"Uma pessoa que ouve vozes em sua cabeça e acredita que o mundo está contra ela, vai sucumbir", disse Tracey à CNN.

"E acho que naquela noite ele sucumbiu."

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