Como o Irã pode retaliar caso sofra um ataque dos Estados Unidos?

Fechamento do Estreito de Ormuz é a principal ameaça, o que pode fazer com que o preço do petróleo dispare e cause uma recessão mundial

Mostafa Salem, da CNN
Pessoas caminham por Teerã, no Irã  • 02/01/2026 Majid Asgaripour/WANA (West Asia News Agency) via REUTERS
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Por quase meio século, o Irã se preparou para uma guerra com os Estados Unidos. Incapaz de igualar o poderio militar americano, Teerã concentrou-se em maneiras de impor custos elevados que poderiam abalar o Oriente Médio e a economia global.

Mesmo com as negociações com o Irã em andamento, os militares dos EUA estão prosseguindo com um significativo aumento de recursos aéreos e navais no Oriente Médio.

O presidente dos EUA, Donald Trump, insinuou uma mudança de regime e alertou que poderia atacar o Irã, alimentando temores de uma guerra mais ampla.

Apesar de ter sido significativamente enfraquecido pelos ataques israelenses e americanos no ano passado e pela crescente agitação interna recente, o regime iraniano mantém uma série de opções de retaliação, segundo especialistas.

Dentre elas, o país considera desde atacar interesses dos EUA e de Israel até mobilizar grupos aliados e buscar perturbações econômicas que poderiam desencadear uma crise global.

A forma como Teerã escolherá usar as ferramentas à sua disposição dependerá do nível de ameaça que perceber estar enfrentando.

“O regime tem muitas capacidades para usar se encarar isso como uma guerra existencial”, disse Farzin Nadimi, pesquisador sênior do Washington Institute especializado em segurança e defesa do Irã.

"Se eles encararem isso como uma guerra final, poderão usar todos os seus recursos", completou.

Mísseis e drones

Acredita-se que o Irã possua milhares de mísseis e drones ao alcance das tropas americanas estacionadas em diversos países do Oriente Médio e ameaçou atacá-las, assim como Israel.

Em junho do ano passado, após Israel lançar um ataque surpresa contra o Irã, a República Islâmica retaliou disparando onda após onda de mísseis balísticos e drones contra o país, causando danos ao contornar as sofisticadas defesas aéreas israelenses.

Autoridades iranianas afirmam que grande parte dos estoques usados ​​naquela guerra foi reabastecida, e autoridades americanas acreditam que essas armas testadas em combate, assim como os antigos caças russos e americanos, continuam a representar uma ameaça.

O drone suicida Shahed do Irã, por exemplo, provou ser uma ferramenta destrutiva na guerra da Rússia na Ucrânia. O regime iraniano também desenvolveu, testou ou implantou mais de 20 tipos de mísseis balísticos, incluindo sistemas de curto, médio e longo alcance capazes de atingir alvos até mesmo no sul da Europa.

Drones de ataque Shahed em um caminhão sem identificação em uma exposição da Guarda Revolucionária Iraniana em Teerã, Irã, em 1º de maio de 2024 • Fred Pleitgen/CNN
Drones de ataque Shahed em um caminhão sem identificação em uma exposição da Guarda Revolucionária Iraniana em Teerã, Irã, em 1º de maio de 2024 • Fred Pleitgen/CNN

“Temos de 30 a 40 mil soldados americanos estacionados em oito ou nove instalações naquela região”, disse o secretário de Estado americano, Marco Rubio, no mês passado. “Todos estão ao alcance de uma série de milhares de drones iranianos e mísseis balísticos iranianos (de curto alcance) que ameaçam nossa presença militar.”

Dois oficiais americanos disseram à CNN que as capacidades militares de Teerã, mesmo que em número muito inferior e muito mais antigas do que os modernos sistemas americanos, tornam um ataque decisivo dos EUA contra o país muito mais difícil.

Teerã tem repetidamente alertado que retaliaria contra os aliados dos EUA na região caso fosse atacada.

Quando bombardeiros americanos atacaram instalações nucleares iranianas no verão, o Irã lançou um ataque com mísseis sem precedentes no Catar, visando a Base Aérea de Al-Udeid, a maior instalação militar americana no Oriente Médio.

Mobilizando grupos de apoio

Nos últimos dois anos, Israel tem atacado a rede regional de grupos apoiados pelo Irã, reduzindo significativamente a capacidade do regime de projetar poder além das fronteiras.

Ainda assim, esses grupos juraram defender a República Islâmica. Grupos iraquianos como o Kataeb Hezbollah e o Harakat al-Nujaba — milícias que já atacaram forças americanas no passado —, bem como o libanês Hezbollah, afirmaram que prestarão auxílio ao Irã caso seja atacado.

No mês passado, Abu Hussein al-Hamidawi, comandante do Kataeb Hezbollah, convocou os lealistas do Irã “em todo o mundo… a se prepararem para uma guerra total em apoio à República Islâmica”.

Apesar das ameaças, os grupos apoiados pelo Irã enfrentam limitações. No Líbano, o outrora formidável Hezbollah foi significativamente enfraquecido após 13 meses de conflito com Israel e agora enfrenta uma campanha interna de desarmamento.

No Iraque, as milícias apoiadas pelo Irã são poderosas, mas também enfrentam obstáculos impostos por um governo central que sofre crescente pressão dos EUA para conter a influência iraniana.

Os Houthis no Iêmen tem sido alvo tanto de Israel quanto dos EUA, mas continua sendo um dos representantes mais destrutivos do Irã e já indicou que defenderá seu patrono.

No final de janeiro, os Houthis divulgaram um vídeo mostrando imagens de um navio em chamas, acompanhado da simples legenda: "Em breve".

Com o apoio iraniano nos últimos anos, o grupo atacou a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos e Israel, bem como navios americanos no Mar Vermelho.

Guerra econômica

O Irã alertou repetidamente que uma guerra contra ele não se limitaria ao Oriente Médio, mas enviaria ondas de choque por todo o mundo. Embora militarmente inferior, Teerã tem vantagem em sua capacidade de perturbar os mercados de energia e o comércio global a partir de uma das regiões mais estrategicamente sensíveis do mundo.

O Irã, um dos maiores produtores de energia do mundo, está situado no Estreito de Ormuz, uma passagem marítima por onde fluem mais de um quinto do petróleo mundial e grande parte do gás natural liquefeito.

Estreito de Ormuz - Irã • Arte: CNN Brasil
Estreito de Ormuz - Irã • Arte: CNN Brasil

O regime ameaçou fechá-lo caso seja atacado — uma perspectiva que, segundo especialistas, poderia fazer os preços dos combustíveis dispararem muito além das fronteiras do Irã e desencadear uma recessão econômica global.

Especialistas afirmam que atacar a economia global através do estreito pode ser uma das opções mais eficazes do Irã. É também a mais perigosa devido ao seu amplo impacto.

Um fechamento prolongado do estreito representaria um “cenário perigoso”, disse Umud Shokri, estrategista de energia baseado em Washington, D.C. e pesquisador visitante sênior da Universidade George Mason.

“Mesmo interrupções parciais poderiam provocar aumentos acentuados nos preços, interromper as cadeias de suprimentos e amplificar a inflação mundial. Em tal cenário, uma recessão global seria um risco real", acrescentou Shokri.

Tal medida provavelmente seria o último recurso do Irã, pois prejudicaria gravemente o próprio comércio e o de países árabes vizinhos, muitos dos quais pressionaram Trump contra um ataque e prometeram não permitir que Washington acesse seu território para um ataque iraniano.

O Irã afirma ter bases navais subterrâneas ao longo da costa do país, com dezenas de lanchas de ataque rápidas prontas para serem mobilizadas nas águas do Golfo Pérsico.

As forças armadas passaram três décadas construindo sua própria frota de navios e submarinos, com a produção intensificada nos últimos anos em antecipação a um possível confronto naval.

O vice-almirante aposentado Robert Harward, ex-SEAL da Marinha dos EUA e vice-comandante do Comando Central dos EUA, afirmou que as capacidades navais iranianas e seus aliados representam um desafio para a navegação no Estreito de Ormuz, que “pode ser resolvido muito rapidamente”.

Mas ferramentas “assimétricas”, como minas, drones e outras táticas, podem representar um desafio para a navegação e o fluxo de petróleo, disse ele.

A capacidade do Irã de interromper o transporte marítimo global e abalar a economia mundial tem precedentes históricos.

No final de uma longa guerra com o Iraque, na década de 1980, o Irã instalou minas marítimas no Golfo Pérsico, inclusive perto do estreito, uma das quais quase afundou o navio USS Samuel B. Roberts em 1988, enquanto este escoltava petroleiros kuwaitianos durante o que ficou conhecido como a "Guerra dos Petroleiros".

Em 2019, vários petroleiros foram atingidos no Golfo de Omã durante o aumento das tensões entre o Irã e as nações árabes do Golfo, após a retirada de Trump do acordo nuclear com o Irã. Acredita-se amplamente que o Irã tenha sido o responsável.

Mais recentemente, durante a guerra entre Israel e Hamas, os houthis interromperam o transporte marítimo comercial no Estreito de Bab el-Mandeb, no Mar Vermelho, por onde passa cerca de 10% do comércio marítimo mundial.

Juntamente com a capacidade do Irã de ameaçar o tráfego pelo Estreito de Ormuz, Teerã exerce um poder desproporcional para infligir prejuízos econômicos globais.

“A próxima guerra pode começar não no centro de Teerã, mas no Estreito de Ormuz e no Golfo Pérsico”, disse Nadimi, do Instituto de Washington.

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