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    Como uma invasão russa da Ucrânia afetaria todo o mundo

    Apesar de Rússia negar intenção de ataque, líderes internacionais temem a possibilidade de uma nova guerra

    Ilustração mostra as bandeiras da Rússia e da Ucrânia
    Ilustração mostra as bandeiras da Rússia e da Ucrânia Dado Ruvic/Ilustração Reuters (25.jan.2022)

    Rob Pichetada CNN

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    A perspectiva de uma iminente invasão russa da Ucrânia aumentou o alarme na região, com a ameaça de mergulhar os 44 milhões de habitantes do país em um conflito.

    No entanto, um movimento do governo russo também seria sentido muito além da fronteira partilhada das duas nações.

    Os especialistas temem que a ação possa inaugurar uma nova era de incertezas na Europa Oriental, perturbar as cadeias de abastecimento e a economia global e forçar uma mudança na influência geopolítica que prejudicaria a credibilidade do Ocidente.

    Tais receios ainda poderiam ser evitados. O governo ucraniano está menosprezando os riscos imediatos de uma invasão em larga escala, mesmo quando autoridades de todos os lados se esforçam para encontrar uma solução diplomática para um impasse que, de acordo com o governo de Joe Biden, está próximo demais da guerra.

    Se ocorrer uma invasão, não está claro que forma ela tomará – e prever as intenções do presidente russo, Vladimir Putin, é um exercício notoriamente pouco sensato. “Qualquer guerra contemporânea seria horrível, mas há gradações para o horror”, afirmou Nigel Gould-Davies, um ex-embaixador britânico em Belarus que agora é membro sênior para Rússia e Eurásia no grupo de reflexão do International Institute for Strategic Studies (IISS).

    De acordo com os analistas, a eficácia de uma resposta liderada pela Otan também é crucial para determinar o tempo e o alcance dos impactos de qualquer invasão.

    Mas qualquer movimento russo iria testar a determinação das nações ocidentais e trazer uma série de incertezas econômicas e de segurança.

    “Essa é, facilmente, a mais grave crise de segurança na Europa desde a década de 1980”, pontuou Gould-Davies.

    “A Rússia e o Ocidente discordam profundamente em sua visão de mundo e esse desacordo foi varrido para debaixo do tapete há anos”, acrescentou James Nixey, diretor do programa Rússia-Eurásia na Chatham House, com sede em Londres.

    “Agora a Rússia decidiu que vai subir a aposta. É um problema do mundo real que tem implicações globais.”

    Um novo front na Europa

    À medida que a ameaça de um movimento russo para a Ucrânia cresce, também sobe o volume da retórica do Ocidente.

    O presidente dos EUA, Joe Biden, disse à CNN na terça-feira (25) que haveria “graves consequências” em caso de qualquer invasão russa. O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, disse que o país contribuiria para qualquer novo movimento da Otan na sequência de um ataque, enquanto o presidente francês, Emmanuel Macron, disse que “o custo será muito elevado” se Putin decidir invadir.

    Mas a “escala da reação global depende da extensão da inserção da Rússia na Ucrânia”, disse Nixey. O analista da Chatham House acrescentou que, embora muitos observadores demonstrem um otimismo cauteloso de que uma guerra será evitada, “eu já errei antes – como a maioria dos analistas da Rússia erraram”.

    Os resultados mais imediatos para além da Ucrânia seriam sentidos nos países da Europa Oriental e do Báltico, que encontrariam uma Rússia explicitamente belicosa em suas portas.

    “A Ucrânia faz fronteira com vários estados da Otan. Haverá uma grande preocupação de que isso não seja apenas algo acontecendo nas proximidades que poderia ter repercussões, mas que sua segurança seria ameaçada”, analisou Gould-Davies.

    “Se a Rússia tiver permissão, ou não for desencorajada, a redesenhar as fronteiras mais uma vez, então certamente a Rússia vai tirar lições disso na linha ‘qual a próxima [fronteira]?’,” acrescentou Nixey.

    Muito dos próximos passos dependeria da resposta da Otan. Os países que poderiam se encontrar na linha de fogo notariam rapidamente um aumento da presença de militares.

    Mais de 8.500 soldados norte-americanos foram colocados em alerta para um possível deslocamento para a Europa Oriental, como contou o porta-voz do Pentágono, John Kirby, na segunda-feira (24).

    Três fontes norte-americanas familiarizadas com as discussões também disseram à CNN que os Estados Unidos e países aliados poderiam enviar destacamentos adicionais para a Romênia, Bulgária e Hungria nos próximos dias.

    A Ucrânia não é membro da Otan e, provavelmente, a aliança não enviará soldados para o país. Mas, após uma incursão, uma forte presença militar seria mantida provavelmente ao longo da costa leste da Europa enquanto a Rússia estivesse em terras ucranianas. Trata-se de uma perspectiva que reacendeu memórias de uma barreira da era da Guerra Fria de leste a oeste.

    “Será necessária uma resposta ao longo dessa linha de frente da Otan que atue como um impedimento. E é preciso ter toda uma estratégia de guerra em torno disso”, disse Neil Melvin, diretor de estudos de segurança internacional no Royal United Services Institute (RUSI).

    “Na Europa, isso mudaria enormemente as coisas, pois estamos muito longe de pensar nesses termos”, acrescentou. Melvin previu que as nações necessitariam “de forças suficientemente grandes para lutar por um longo período, para trazer novas forças dos EUA e para combater as dimensões cibernéticas”.

    “Vai ser uma mudança enorme, concluiu.

    Preocupações econômicas

    As consequências econômicas de uma invasão são vistas como incógnitas, mas existem vários possíveis efeitos de impactos que têm preocupado especialistas desde que o acúmulo de militares russos perto da fronteira ucraniana ficou claro.

    De forma mais direta, uma perturbação da produção agrícola da Ucrânia poderia ter um forte impacto no fornecimento de alimentos.

    O país é um dos quatro maiores exportadores de grãos do mundo (espera-se que seja responsável por cerca de um sexto das importações mundiais de milho nos próximos cinco anos, segundo projeções do Conselho Internacional de Grãos) e, consequentemente, impactos diretos na sua produção poderão trazer resultados na oferta de determinados gêneros alimentícios.

    Entretanto, mais importante é o impacto potencial mais amplo sobre o fornecimento de energia e as consequências de duras sanções ocidentais para a Rússia que aconteceriam após uma invasão.

    “Quando se trata de um grande conflito envolvendo um dos maiores fornecedores de energia do mundo – e um grande país de trânsito para o resto da Europa – então não se pode descartar os impactos significativos nos mercados de energia”, disse Gould-Davies.

    A Rússia fornece cerca de 30% do gás natural da União Europeia. Os suprimentos provenientes do país desempenham um papel vital na produção de energia e no aquecimento doméstico em toda a Europa Central e Oriental.

    O país já foi acusado de explorar essa dependência. A Agência Internacional da Energia disse na quarta-feira (26) que a Rússia contribuiu para um subabastecimento de gás na Europa ao reduzir as suas exportações, e nos últimos meses o país também colocou pressão sobre a Moldávia.

    “Nos últimos meses, vimos a Rússia explorar e exacerbar os problemas do fornecimento global de energia e dos preços mais elevados”, acrescentou o ex-embaixador e hoje analista Gould-Davies. “Será que eles poderiam contemplar o custo de algo muito mais sério do que isso?”

    A inflação nos custos energéticos já atingiu milhões de lares na Europa. Na Grã-Bretanha, os consumidores irão pagar cerca de 790 libras (cerca de R$ 5.700) a mais para aquecerem e iluminarem as suas casas este ano, de acordo com o Bank of America – e os conflitos na Europa Oriental poderão provocar ou agravar o custo das crises de vida em vários países.

    Uma preocupação na Europa é que a Rússia estaria efetivamente disposta a lidar com uma ruptura com o mercado europeu, dada a sua progressiva mudança do abastecimento de gás e carvão para a China nos últimos anos.

    Uma aceleração nessa mudança causaria “uma enorme instabilidade na economia [da Europa], porque será preciso fazer outra coisa”, afirmou Melvin. Potencialmente, isso poderia bloquear planos para uma eliminação progressiva da energia nuclear em partes do continente, se as nações forem forçadas a alcançar freneticamente fontes alternativas de energia.

    Tropas Rússia Ucrânia
    Tropas russas próximas à fronteira com a Ucrânia / Reuters

    O governo Biden tem realizado planos de contingência para consolidar os fornecimentos de energia da Europa caso a Rússia invada, antecipando a escassez de gás e um choque para a economia global, segundo fontes do governo.

    Entretanto, a UE está trabalhando numa “vasta gama de sanções setoriais e individuais” em caso de maior agressão russa, de acordo com uma declaração da Comissão Europeia dada após uma reunião virtual com os dirigentes dos EUA, Reino Unido, Itália, França, Alemanha, Polônia, UE e Otan. Biden disse à CNN que iria antever “sanções econômicas significativas”.

    A maioria dos analistas espera um pacote abrangente de sanções que possam atingir os principais bancos russos, o setor do petróleo e do gás e as importações de tecnologia. Mas os efeitos sobre a Europa e o resto do mundo também seriam sentidos.

    “Sempre que você impõe sanções, impõe grandes custos no alvo, mas também corre o risco de trazer prejuízos sobre si mesmo e sobre seus amigos e aliados”, disse Nathan Sales, subsecretário de ação para segurança civil, democracia e direitos humanos no Departamento de Estado dos EUA durante o governo Trump.

    Além disso, embora tenham se havido sanções específicas contra indivíduos e empresas russas desde a invasão da Crimeia pela Rússia em 2014, ainda existe uma “relação de investimento substancial” entre o país e o Ocidente, que poderia ser rompida, disse Melvin.

    “A questão agora é até onde essas sanções iriam, e o quanto iriam isolar a economia russa”, acrescentou.

    O mundo em observação

    Especialistas disseram que os efeitos de uma incursão e a força da resposta ocidental serão sentidos em todo o mundo. Alguns temem que qualquer movimento russo que possa ser vitorioso vá encorajar outras nações envolvidas em disputas fronteiriças.

    “A China vai prestar atenção cuidadosa às lições que pode tirar sobre a resolução ocidental”, disse Gould-Davies. “Os taiwaneses vão tirar lições disso, como qualquer outra nação numa disputa de fronteira vivendo ao lado de um líder muito superior”, concordou Nixey, diretor da Chatham House. Taiwan e a China continental têm sido governados separadamente desde o fim da guerra civil chinesa há mais de 70 anos, mas o Partido Comunista Chinês (PCC) vê a ilha como parte do seu território e não exclui o uso de força militar para tomá-la.

    O contexto está ressaltando a sensação, em alguns setores, de que a resposta dos EUA à crise da Ucrânia pode ditar como eles são vistos em todo o mundo por uma geração.

    “Nós sentiremos os efeitos por anos e talvez décadas” se a Rússia orquestrar um movimento bem-sucedido, disse Sales, o ex- subsecretário do Departamento de Estado. “Isso vai dizer aos ditadores de todo o mundo que os EUA são um tigre de papel”.

    Sales citou “regimes desonestos como a Coreia do Norte e o Irã” como outras nações que poderiam tentar capitalizar esse resultado. Mas acrescentou que também existe “um cenário onde os EUA e a OTAN saem desta crise com a sua credibilidade reforçada”, caso uma resposta forte inicie um recuo russo.

    Se as longas tensões se seguirem a uma incursão russa, o debate nos EUA sobre o papel que o país deve desempenhar na Europa vai ganhar novos ares. “Eles têm uma divisão política muito gritante agora entre um papel policial global, que Biden tem defendido, ou o outro campo que só fazem o que é do interesse dos EUA”, disse Melvin.

    Embora muitas das implicações de um movimento russo para a Ucrânia continuem bastante incertas, há uma coisa com a qual os especialistas concordam: “Na política internacional, todos estão sempre observando uns aos outros”, concluiu o ex-embaixador Gould-Davies.

    Este conteúdo foi criado originalmente em inglês.

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