Confira como funciona e o que esperar da Assembleia Geral da ONU
Tradicionalmente, o Brasil é quem abre os discursos da reunião, um gesto que se tornou marca da diplomacia do país
Chefes de Estado e de governo de diferentes partes do mundo estarão reunidos em Nova York, a partir da próxima terça-feira (22), para a 81ª sessão da Assembleia Geral da ONU (Organização das Nações Unidas). O encontro anual, que segue até 28 de setembro, concentra discursos de líderes mundiais e uma série de reuniões paralelas sobre os principais temas da agenda internacional.
A programação deste ano acontece em meio a conflitos no Irã e na Ucrânia, às discussões sobre a questão israelense-palestina, à defesa da democracia e às mudanças no cenário internacional. A IA (inteligência artificial) e a situação financeira da própria ONU também estão entre os assuntos que devem aparecer ao longo da semana.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) será o primeiro chefe de Estado a discursar na abertura. Na sequência, será a vez do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. A ordem mantém uma tradição que acompanha a participação brasileira na Assembleia Geral há décadas.
O que é a Assembleia Geral da ONU?
Criada em 1945, após a Segunda Guerra Mundial, a Assembleia Geral é o principal órgão deliberativo e representativo das Nações Unidas. O espaço reúne os 193 Estados-membros da organização.
Cada país tem direito a um voto, independentemente do tamanho do território, da população ou do peso econômico. Entre as atribuições da Assembleia estão a aprovação do orçamento da ONU, a eleição de membros não permanentes do Conselho de Segurança e de integrantes de outros órgãos da organização.
O órgão também pode fazer recomendações aos países sobre questões internacionais e discutir temas políticos, econômicos, sociais, humanitários e jurídicos.
As votações seguem regras diferentes conforme o assunto. Questões consideradas importantes, como recomendações relacionadas à paz e à segurança e determinadas eleições, precisam de maioria de dois terços. Outros temas são decididos por maioria simples.
Depois do debate geral, os assuntos da agenda são distribuídos entre seis comitês principais, responsáveis por discutir os temas e encaminhar projetos de resolução e decisões para a Assembleia.
Por que o Brasil abre os discursos?
A presença do Brasil no início do debate geral não é uma decisão tomada a cada edição. O país ocupa tradicionalmente o primeiro lugar na lista de discursos.
A prática começou nos primeiros anos das Nações Unidas, quando o Brasil se oferecia para abrir os trabalhos diante da resistência de outros países em fazer o primeiro pronunciamento.
A tradição se consolidou ao longo do tempo e, desde a 10ª sessão da Assembleia Geral, em 1955, o Brasil é o primeiro país a discursar. Os Estados Unidos costumam vir logo depois, por serem o país-sede da ONU.
A ordem dos demais países considera fatores como o nível de representação, a preferência dos Estados e o equilíbrio geográfico.
Os discursos têm um limite voluntário de 15 minutos. Ao longo da história, porém, alguns pronunciamentos ultrapassaram esse tempo.
O que esperar da abertura?
A participação de Lula e Trump coloca Brasil e Estados Unidos no centro da abertura da Assembleia, que terá ainda discursos de outros chefes de Estado e de governo ao longo dos dias seguintes.
Entre os líderes esperados estão o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, e o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu.
O presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, também está previsto na programação. A expectativa é que ele participe por vídeo depois de o governo americano recusar novamente o visto para sua entrada nos Estados Unidos.
Além dos pronunciamentos no plenário, a presença de autoridades em Nova York deve concentrar uma série de encontros bilaterais e reuniões paralelas.
Conflitos devem dominar a agenda
Donald Trump planeja se reunir com líderes dos países do Golfo para discutir a próxima etapa da guerra com o Irã. O presidente americano também deve participar de um briefing de alto nível sobre o Conselho da Paz de Trump, criado para supervisionar a reconstrução de Gaza.
A guerra na Ucrânia estará em pauta em diferentes encontros. Zelensky tem reunião prevista com Trump em Nova York, depois de conversas realizadas no início de setembro entre representantes dos Estados Unidos, da Ucrânia e da Rússia.
Outro encontro esperado é entre o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, e o secretário de Estado americano, Marco Rubio.
A questão israelense-palestina também deve ocupar espaço na programação. A França planeja uma reunião sobre a solução de dois Estados, depois de França e outros países ocidentais terem anunciado, durante a Assembleia do ano passado, o reconhecimento do Estado da Palestina.
Inteligência artificial entra na programação
Antes mesmo da abertura do debate geral, representantes da indústria de tecnologia, diplomatas e o ator Joseph Gordon-Levitt devem participar de uma conferência sobre “Cooperação Digital”.
O Conselho de Segurança da ONU tem previsão de realizar uma reunião sobre inteligência artificial na quarta-feira (23). No mesmo dia, os Estados Unidos organizam um evento dedicado ao tema.
A tecnologia aparece na agenda em um momento de discussões sobre seus impactos e sobre o papel que a ONU pode desempenhar diante das transformações provocadas pela IA.
Guterres e Macron fazem últimas participações
A Assembleia Geral deste ano também deve marcar o encerramento de um ciclo para dois importantes nomes da política internacional.
O secretário-geral da ONU, António Guterres, está no último ano de seu mandato de dez anos e deixará o cargo ao fim de 2026. O presidente francês Emmanuel Macron também fará sua última participação na Assembleia Geral.
A sucessão de Guterres está entre os assuntos previstos para o encontro. Uma pesquisa informal do Conselho de Segurança foi realizada antes do início da Assembleia, enquanto os Estados Unidos ainda não haviam apoiado formalmente nenhum dos candidatos.
A situação financeira da ONU
No ano passado, a ONU enfrentou uma grave crise orçamentária, enquanto os Estados Unidos ameaçavam cortar completamente o financiamento destinado à organização.
Às vésperas da reunião de 2026, o governo americano enviou US$ 827 milhões em cotas à ONU. O valor representa apenas uma parte dos aproximadamente US$ 4 bilhões que os Estados Unidos devem à organização.
O pagamento acontece depois de a ONU ter enfrentado, em janeiro, o risco de um colapso financeiro.
A relação entre Washington e a ONU é outro ponto a ser acompanhado, especialmente depois de, no ano passado, Donald Trump questionar publicamente o propósito da organização e criticar sua atuação. Agora, com representantes dos 193 países reunidos em Nova York, a programação combina discursos de líderes, encontros bilaterais e debates sobre conflitos, diplomacia, tecnologia e o futuro das Nações Unidas.


