Corrida contra o tempo busca trabalhadores presos em túneis no Nepal

Equipes de resgate e especialistas estrangeiros correm contra o tempo para encontrar dezenas de trabalhadores que podem estar vivos e presos dentro de túneis de usinas hidrelétricas

Jessie Yeung e Simone McCarthy, da CNN
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Equipes de resgate e especialistas estrangeiros correm contra o tempo para encontrar dezenas de trabalhadores que podem estar vivos e presos dentro de túneis de usinas hidrelétricas no Nepal, depois que uma espessa camada de lama soterrou as instalações durante as devastadoras enchentes da semana passada.

Pelo menos 933 trabalhadores estão desaparecidos em diferentes projetos hidrelétricos ao longo do rio Trishuli, que atravessa vários distritos de uma região remota e montanhosa, segundo a agência de desastres do país.

Não está claro quantos desses trabalhadores estavam dentro dos túneis profundos e reforçados quando a água atingiu as instalações. Também não se sabe quantos deles podem estar vivos. As operações de busca e resgate são dificultadas pelo mau tempo, pela lama e pela destruição de infraestruturas importantes, como estradas e pontes.

Nos últimos anos, Nepal e seus poderosos vizinhos, China e Índia, investiram fortemente em projetos hidrelétricos no Himalaia, na tentativa de aproveitar o enorme potencial energético dos rios da região.

Veja o que se sabe até agora.

Onde estão os trabalhadores?

Uma lista compilada pela Associação de Produtores Independentes de Energia do Nepal (IPPAN) no sábado mostrou que cerca de 900 trabalhadores estavam desaparecidos em 11 projetos hidrelétricos afetados pelas enchentes.

Cada usina apresenta desafios próprios para os socorristas, que tentam encontrar a maneira mais segura de entrar. Algumas possuem túneis internos com vários quilômetros de extensão, o que significa que qualquer trabalhador preso pode estar muito distante da entrada. Salas e recursos existentes dentro dos túneis poderiam, em teoria, ajudar pessoas presas a sobreviver por semanas, embora o fornecimento de ar possa ser outro problema.

Na usina hidrelétrica Trishuli 3A, onde 42 pessoas foram dadas como desaparecidas, uma grande operação está em andamento para perfurar um túnel e permitir que os socorristas procurem sobreviventes.

O túnel que leva à casa de força subterrânea tem mais de quatro quilômetros de extensão. Dezenas de pessoas trabalhavam no local quando a enchente atingiu a usina.

Não está claro quanto do túnel foi preenchido por lama ou água, afirmou Arnold Dix, geólogo australiano que aconselhou os socorristas na usina Trishuli 3A.

“Então, talvez só tenhamos que escavar 10 metros, ou talvez tenhamos que escavar 100 metros”, disse.

Há outros fatores de risco, afirmou Dix. A sala das turbinas pode ter sido inundada se os sistemas de desligamento de emergência tiverem falhado, potencialmente afogando qualquer pessoa que estivesse dentro. A água também poderia ser liberada pelas perfurações feitas pelas equipes, representando um risco para os próprios socorristas.

Seis pessoas são consideradas desaparecidas dentro da usina hidrelétrica de Chilime, afirmou Jenjen Lama, guia de montanha envolvido nas operações de busca e resgate, à CNN nesta segunda-feira.

Ele compartilhou um diagrama da instalação, que mostra um túnel de 250 metros que desce a partir da entrada antes de se conectar a uma estrutura maior, que inclui uma área de manutenção, uma sala de controle e o transformador da usina.

Equipes de resgate descobriram no domingo que o túnel estava “completamente bloqueado por sedimentos e lama profundos”, que chegaram à altura do peito dos socorristas, segundo Lama. Eles conseguiram avançar apenas 130 metros pelo túnel antes de precisar interromper o trabalho. A infraestrutura danificada também dificulta o pouso de helicópteros no local, afirmou.

“Lá dentro há uma cozinha, há comida... mas não sei quanto ao oxigênio”, disse.

Até 27 usinas hidrelétricas foram danificadas no Nepal, e cerca de 12 foram praticamente destruídas, segundo Dix.

O que as equipes de resgate estão fazendo?

Engenheiros e equipes de busca e resgate do Exército e da polícia do Nepal receberam reforço de especialistas enviados pela Índia e pela China, que chegaram durante o fim de semana.

As equipes utilizaram câmeras térmicas instaladas em drones para procurar sobreviventes, enquanto tentavam localizar as entradas dos túneis e remover a lama. Ao mesmo tempo, os socorristas perfuraram buracos na parte superior dos túneis fortemente reforçados.

Na usina Trishuli 3A, os socorristas conseguiram abrir um buraco grande o suficiente para entrar no túnel usando cordas e equipamentos de segurança. Mas, quando chamaram pelos trabalhadores, não receberam resposta. Antes disso, também haviam bombeado ar para dentro do túnel e enviado alimentos.

Abrir caminho pela parte superior da usina também apresenta dificuldades. “Precisamos de equipamentos especiais para atravessar o aço e tudo o que envolve a sala das turbinas. Então, são camadas e mais camadas de dificuldades técnicas”, afirmou Dix.

Na sequência, as equipes pretendem enviar socorristas para dentro do túnel com oxigênio, suprimentos médicos, equipamentos de comunicação e câmeras, segundo autoridades nesta segunda-feira.

O que dizem os sobreviventes

Pelo menos 279 trabalhadores de usinas hidrelétricas foram resgatados ou conseguiram sair por conta própria dos túneis cobertos de lama e sedimentos.

Mas esses sobreviventes, cada um com histórias próprias de horror, continuam procurando respostas sobre amigos, colegas de trabalho e familiares que ainda estão desaparecidos.

Um deles, Bhakti Ram Bohara, estimou que apenas 100 pessoas conseguiram sair de sua usina e de outros projetos próximos, de um total de cerca de mil trabalhadores.

Entre os desaparecidos está seu cunhado. Os dois trabalhavam na mesma equipe, passavam semanas longe das famílias e enviavam dinheiro para suas aldeias de origem.

“A esposa dele é minha irmã, e ela está grávida”, disse ele à CNN no domingo, emocionado e chorando.

Outro sobrevivente, Ram Chandra, contou que precisou se agarrar às barras instaladas no teto para conseguir sair do túnel, enquanto água, concreto e detritos giravam ao seu redor. Ele e seus colegas levaram seis horas para chegar à entrada do túnel.

Por que há tantos projetos hidrelétricos?

A devastação pode servir como um alerta para governos que impulsionam um boom de barragens, túneis, rodovias, ferrovias e pontes no Himalaia — com a China liderando esse movimento.

A Índia e, em menor escala, o Nepal, vêm acelerando a construção de infraestrutura nos últimos anos, destinando centenas de milhões de dólares a projetos em uma região extremamente vulnerável a desastres naturais e às mudanças climáticas.

Apesar de ser uma das regiões mais sensíveis do mundo do ponto de vista ecológico e sísmico, a possibilidade de controlar seus rios para criar grandes projetos hidrelétricos há muito atrai engenheiros. A demanda por eletricidade provocada pelo desenvolvimento da inteligência artificial pode intensificar os esforços para explorar os rios da região.

Especialistas afirmam que a gravidade do desastre e sua localização na fronteira entre Nepal e China deveriam levar os governos a repensar cuidadosamente como os projetos são planejados, instalados e dimensionados na região — além de estimular uma discussão regional sobre sistemas compartilhados de monitoramento de riscos.

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