Costa de Odessa vira "lixão e cemitério de animais” após destruição de represa

Inundações provocadas por rompimento de barragem no sul da Ucrânia ameaçam a saúde da população; número oficial de vítimas do desastre sobe para 45

Mariya Knight e Maria Kostenko, Niamh Kennedy, da CNN
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As praias na região de Odessa, ao sul da Ucrânia, foram fechadas ao público após serem tomadas pelas águas imundas vindas da barragem rompida há duas semanas, já que elas representam uma “ameaça genuína” para os moradores locais.

O número de vítimas fatais do colapso de 6 de junho da barragem de Nova Kakhovka, controlada pela Rússia, subiu para 45, com ambos os lados dando atualizações sobre os mortos.

O rompimento destruiu aldeias, inundou áreas agrícolas e cortou o fornecimento de energia e água limpa para dezenas de milhares de pessoas.

As águas das inundações estão baixando, mas os detritos levados pelo rio Dnipro – que flui para o Mar Negro – transformaram a costa de Odessa num “depósito de lixo e cemitério de animais”, de acordo com as autoridades ucranianas.

 

“As praias de Odessa foram declaradas inadequadas para banho devido a um agravamento significativo nas condições hídricas em áreas de águas abertas (mar, estuário) e uma ameaça genuína para a saúde dos moradores”, disse a prefeitura de Odessa num post no Telegram no domingo (18).

O trecho de praias arenosas e resorts de férias de Odessa era famoso pelos turistas ucranianos e estrangeiros antes da invasão da Rússia.

As praias já haviam sido abandonadas pelos banhistas nos últimos meses, conforme as minas terrestres foram surgindo na costa.

As autoridades alertaram sobre o declínio da qualidade da água em um post no Telegram no sábado, dizendo que testes de laboratório haviam “identificado agentes infecciosos na semana passada”.

Vestígios de salmonela e ovos e larvas de vermes foram encontrados na água, que também “significativamente” excedeu os níveis permitidos de E. coli.

“A presença de todos esses patógenos biológicos na água de áreas de água aberta na região de Odessa, incluindo o mar Negro, o estuário de Bilhorod-Dnistrovskyi e o rio Danúbio, constitui uma ameaça genuína à vida e à saúde da população”, acrescentou a prefeitura.

As autoridades anunciaram que os moradores de Odessa também estavam proibidos de vender peixes e frutos do mar de “locais não identificados de pesca” perto de mercados e centros comerciais.

No domingo, as autoridades de saúde na cidade de Mykolaiv, ao sul, também alertaram os moradores para não beber água de torneira, nadar ou pescar depois que contaminantes foram encontrados na água lá.

Cepas semelhantes de Vibrio cholerae, que causa a cólera, foram detectadas em águas abertas de Mykolaiv, conforme informou o centro regional de Controle e Prevenção de Doenças em sua conta oficial no Facebook no domingo. O agente pode causar infecções intestinais agudas.

O centro de controle da doença também alertou que os níveis de amônia no estuário de Dnipro-Buh “excederam as concentrações máximas permitidas”.

ONU censura a Rússia

No domingo, as Nações Unidas condenaram a Rússia por bloquear o acesso à ajuda humanitária às áreas ocupadas do sul da Ucrânia que foram afetadas pelo colapso da barragem.

“A ONU tem conversado com os governos da Ucrânia e da Federação Russa no que diz respeito à entrega efetiva de ajuda humanitária a todas as pessoas afetadas pela destruição devastadora da Barragem de Kakhovka”, disse Denise Brown, coordenadora humanitária da ONU para a Ucrânia, em um comunicado.

"O governo da Federação Russa até agora recusou nosso pedido de acesso às áreas sob seu controle militar temporário”.

A ONU instou as autoridades russas a agirem de acordo com suas obrigações sob o Direito Internacional Humanitário.

“A ajuda não pode ser negada às pessoas que precisam”, completou Brown.

Na semana passada, o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky pediu apoio internacional para ajudar a resgatar as vítimas do colapso da barragem em território ocupado pela Rússia e acusou o governo russo de não fornecer “qualquer ajuda real para as pessoas nas áreas inundadas”.

Autoridades apoiadas pela Rússia em partes ocupadas da Ucrânia disseram que o governo fornecerá apoio "máximo" às áreas afetadas, e que a ajuda humanitária estava sendo distribuída.

Na quinta-feira (15), Andrey Alekseenko, chefe do governo regional de Kherson, apoiado pela Rússia, disse que a ajuda humanitária e financeira estavam sendo entregues nas áreas afetadas.

Ainda não está claro se a barragem de Nova Kakhovka foi deliberadamente alvo ou se uma falha estrutural pode ter causado sua ruptura.

O governo da Ucrânia diz que a Rússia explodiu a barragem “em pânico” diante de uma contraofensiva ucraniana planejada, enquanto a Rússia acusa a Ucrânia de lançar “ataques de artilharia em massa” na estrutura para privar a Crimeia da água e fornecer uma distração do campo de batalha.

Ao menos 16 pessoas morreram e 31 estão desaparecidas em inundações causadas pelo rompimento, disse o Ministério do Interior da Ucrânia neste sábado.

Além disso, 3.614 pessoas foram evacuadas das áreas inundadas “incluindo 474 crianças e 80 pessoas com mobilidade reduzida”.

Em um post no Telegram no mesmo dia, Alekseenko, apoiado por Moscou, disse que 29 pessoas morreram em território controlado pela Rússia.

A área em torno da barragem é uma das mais disputadas desde que a Rússia lançou sua invasão em larga escala da Ucrânia em fevereiro de 2022.

A cidade de Kherson, que fica na margem oeste do rio Dnipro, foi libertada pelos militares ucranianos em novembro após oito meses de ocupação russa.

Mas grande parte da margem leste do rio ao sul da barragem permanece sob o controle russo.

O reservatório fornece água a grandes áreas do sul da Ucrânia, incluindo a península da Crimeia, que a Rússia anexou ilegalmente em 2014.

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