De acordos às ameaças: os sete meses frenéticos da relação Maduro-Trump
Washington e Caracas, que não mantêm relações diplomáticas desde 2019, mantêm desde janeiro um vaivém que agora inclui movimentações militares na região e convocações de milicianos venezuelanos

Desde o início do segundo mandato do presidente Donald Trump, as relações entre os Estados Unidos e a Venezuela duraram sete meses frenéticos, marcados por desentendimentos, tensões e críticas.
Washington e Caracas, que não mantêm relações diplomáticas desde 2019, mantêm desde janeiro um vaivém que agora inclui movimentações militares na região e convocações de milicianos venezuelanos, mas que continua em aberto.
Até agora, os governos Trump e do ditador Nicolás Maduro passaram de fechar acordos sobre libertação de prisioneiros e fazer gestos que às vezes eram benéficos para ambos os países para agora trocar medidas ameaçadoras e ordens militares.
A CNN listou os marcos desta relação em 2025:
Uma nova etapa
Trump assumiu o cargo em 20 de janeiro e, no mesmo dia, assinou um decreto designando o Tren de Aragua, uma gangue que surgiu de uma prisão venezuelana, junto com outras gangues e cartéis transnacionais da região como grupos terroristas.
Dias depois, o governo Trump revogou a extensão do TPS (Status de Proteção Temporária) para centenas de venezuelanos. A medida afeta mais de 600 mil venezuelanos que já estavam nos Estados Unidos e que esperavam desfrutar de proteção contra deportação até pelo menos o outono de 2026.
Do contato direto ao fim da licença petrolífera
Richard Grenell, enviado especial de Trump, encontrou-se inesperadamente com Maduro em Caracas em 31 de janeiro.
O Departamento de Estado afirmou que ele viajou em "uma missão especial muito específica" focada na repatriação de "criminosos e membros de gangues" venezuelanos e na libertação de americanos detidos na Venezuela.
Autoridades americanas enfatizaram que não se tratava de uma negociação.
Naquele dia, a Venezuela libertou seis americanos detidos no país. Dias depois, o governo Maduro começou a receber voos com venezuelanos deportados e, desde então, o processo foi retomado, em meio a tensões bilaterais.
Paralelamente à reaproximação, os Estados Unidos apreenderam um segundo avião pertencente ao ditador venezuelano em 6 de fevereiro, em Santo Domingo.
O avião, um Dassault Falcon 200, estava sob sanções americanas, segundo o Departamento de Segurança Interna. Outra aeronave usada por Maduro havia sido apreendida em setembro de 2024 e enviada para a Flórida.
Em 4 de março, a Casa Branca anunciou que havia revogado a licença que permitia à petrolífera americana Chevron operar no país sul-americano e lhe dado 30 dias para interromper as operações. Maduro afirmou que Washington está tentando "prejudicar a economia venezuelana".
Deportações e tarifas
Em meados de março, Trump invocou a Lei de Inimigos Estrangeiros de 1789 para acelerar as deportações de migrantes supostamente membros do Tren de Aragua.
Em maio, a inteligência dos EUA indicou que a Venezuela não lidera esse grupo criminoso, enfraquecendo a justificativa de Trump para o uso dessa estrutura legal.
Em 17 de março, o governo dos EUA deportou centenas de venezuelanos sem condenação definitiva para El Salvador, onde estão detidos no Cecot (Centro de Confinamento de Terroristas), uma megaprisão criticada por diversas organizações pelo tratamento dispensado aos detidos. Maduro chamou as deportações de sequestros.
A medida, que entrou em vigor em 3 de abril, foi apresentada por Washington, em parte, como uma forma de punição pela relutância de Caracas em aceitar migrantes deportados. Apesar do tom ameaçador, o governo anunciou uma extensão da licença da Chevron para operar na Venezuela.
Em meados de abril, durante uma reunião com o presidente de El Salvador, Nayib Bukele, Trump disse que "a Venezuela não tem dinheiro" devido às sanções impostas por Washington. "Eles sabem o que precisam fazer", disse ele.
Em 6 de maio, um grupo de ativistas da oposição venezuelana que buscavam asilo na embaixada argentina em Caracas há quase um ano deixou o país e chegou aos Estados Unidos.
O ministro do Interior da Venezuela, Diosdado Cabello, negou que se tratasse de "uma operação de resgate", como a chamaram vários líderes da oposição e o governo americano, mas sim de um acordo entre autoridades de ambos os países.
Troca em larga escala
Em meados de julho, os EUA e a Venezuela realizaram uma troca de prisioneiros em larga escala, com a Venezuela enviando cerca de 250 venezuelanos deportados e presos em El Salvador em troca de 10 cidadãos americanos.
Autoridades venezuelanas também anunciaram a chegada de um voo do Texas transportando cidadãos venezuelanos, incluindo várias crianças que haviam sido separadas de suas famílias e mantidas sob custódia americana, enquanto um alto funcionário do governo americano disse que dezenas de presos políticos venezuelanos haviam sido libertados.
Em 25 de julho, Maduro confirmou que a petrolífera Chevron havia recebido uma licença para continuar operando na Venezuela, suspensa em maio. O presidente foi questionado se a concessão estava relacionada à troca de prisioneiros, mas se recusou a comentar.
Naquele dia, em meio ao que parecia ser um afrouxamento das relações bilaterais, o Departamento do Tesouro dos EUA classificou o Cartel de Los Soles como uma organização terrorista.
Segundo Washington, esse suposto grupo criminoso corrompeu os mais altos escalões políticos, militares e judiciais da Venezuela desde o final da década de 1990 para enviar drogas aos Estados Unidos.
Líderes chavistas chamaram o Cartel de Los Soles de "uma invenção" das autoridades americanas.
Agosto recarregado
O governo Trump anunciou em 7 de agosto que dobraria a recompensa para US$ 50 milhões por informações que levassem à prisão de Maduro, a quem acusou de ser "um dos maiores traficantes de drogas do mundo e uma ameaça à nossa segurança nacional".
O ministro das Relações Exteriores da Venezuela, Yván Gil, chamou a oferta de patética e ridícula, e várias instituições venezuelanas rejeitaram o anúncio, enquanto a líder da oposição María Corina Machado acolheu a iniciativa dos EUA.
Uma semana depois, a procuradora-geral dos EUA, Pam Bondi, afirmou que Washington havia confiscado mais de US$ 700 milhões em bens de Maduro.
"Isso é crime organizado, não diferente da máfia", disse ela em entrevista à Fox News.
Maduro minimizou o anúncio, chamando-o de "guerra de palavras". Caracas também rejeitou a acusação de tráfico de drogas e afirmou em um comunicado que os Estados Unidos estavam recorrendo a "ameaças e difamação".
Movimentação militar no Caribe
No início do mês, a CNN noticiou os planos dos EUA de enviar mais de 4.000 fuzileiros navais e marinheiros para as águas que cercam a América Latina e o Caribe, como parte de um esforço intensificado para combater cartéis de drogas.
A dramática demonstração de força oferece a Trump uma ampla gama de opções militares, caso deseje agir contra os grupos que ele designou como terroristas.
A secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, disse sobre a mobilização que os EUA estão preparados para "usar todos os recursos à disposição" para conter o "fluxo de drogas para o país e levar os responsáveis à Justiça".
Diante do movimento naval e da crescente recompensa oferecida por Washington, Maduro se mostrou desafiador e anunciou na segunda-feira o destacamento de 4,5 milhões de milicianos para todo o país.
"Nenhum império tocará o solo sagrado da Venezuela", declarou ele em um discurso.
O ditador promoveu campanhas de recrutamento para a Milícia Bolivariana no fim de semana, posteriormente saudando-as como "um sucesso", sem fornecer números de matrículas.



