Deterioração econômica abre espaço para extrema direita na Argentina, avalia especialista
À CNN Rádio, Matheus Pereira, doutor em Relações Internacionais, afirmou que argentinos demonstraram "cansaço" com alternativas tradicionais e são seduzidos por propostas econômicas radicais

O forte desempenho neste domingo (13) do candidato de extrema direita nas primárias argentinas, Javier Milei, pode ser atribuído a uma exaustão do eleitor com as coalizões do atual presidente, Alberto Fernández, e do ex-presidente Mauricio Macri. A avaliação é do doutor em Relações Internacionais Matheus Pereira.
“É um cansaço, uma fadiga, um desencanto com as alternativas políticas mais tradicionais”, disse, em entrevista à CNN Rádio.
Vídeo: Milei é o grande vencedor nas eleições primárias
“Outro aspecto importante é o desempenho da economia. E isso se reflete tanto no voto que não é dado ao governo –que, de alguma forma, é visto como parte do problema– mas também não é dado ao partido do ex-presidente Mauricio Macri, que também parece ser muito associado a essa crise do presente. Aí o Javier Milei se coloca diante dessas duas insatisfações com uma proposta muito sedutora ao ouvido do cidadão médio, que é a dolarização da economia,” completa.
A troca do peso pelo dólar como moeda corrente é apontada por Milei como uma solução para a inflação argentina, que é de 115,6% nos últimos 12 meses.
O especialista em Relações Internacionais ainda avaliou que uma eventual vitória de Javier Milei nas eleições presidenciais, marcadas para outubro, não tende a mudar muito a proximidade da Argentina com o Brasil.
Porém, o especialista pondera que o radicalismo abre espaço para a imprevisibilidade. "Em princípio, deveria mudar pouco porque os fundamentos da relação entre Brasil e Argentina são muito maiores e mais profundos do que preferências individuais de governantes num determinado momento. A gente tem comércio, investimentos e fluxo de pessoas muito significativos”, explica.
“Ao mesmo tempo, as preferências e comportamentos destes governantes são muito significativos também. A gente teve uma prova disso muito recente, já que as relações Brasil-Argentina ficaram paralisadas durante a segunda metade do governo de Bolsonaro, que, inclusive, apoiou Javier Milei,” explicou o especialista.
Pereira lembrou que até dentro da coalizão de centro-direita, a candidata menos tradicional também saiu vitoriosa. A ex-ministra da Segurança de Mauricio Macri, Patricia Bullrich, superou o prefeito de Buenos Aires, Horacio Larreta, com 1 milhão de votos de diferença.
Já pela coalização governista, o ministro da Economia, Sergio Massa, foi o vitorioso, mas com um dos piores desempenhos da história entre candidatos peronistas.


