‘Duas balas bastam’: Análise do massacre cometido pelo exército etíope em Tigray

Análise do vídeo do massacre de Tigray gera questões para o Exército Etíope

Exército Etíope comandou um massacre que deixou de dezenas de homens mortos em Tigray
Exército Etíope comandou um massacre que deixou de dezenas de homens mortos em Tigray Foto: Reprodução CNN

Bethlehem Feleke, Eliza Mackintosh, Gianluca Mezzofiore, Katie Polglase e Nima Elbagir, da CNN

Vídeo de Barbara Arvanitidis e Mark Baron, CNN

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 Esta reportagem contém imagens fortes de ferimentos e morte.

Dawit estava assistindo televisão na quitinete de um parente em Axum, uma cidade histórica na região de Tigray, devastada pela guerra na Etiópia, no início de março, quando apareceu uma notícia.

Eram imagens explícitas e não verificadas de um assassinato em massa perto da cidade natal de Dawit, Mahibere Dego, em uma área montanhosa do centro da região de Tigray. No vídeo com imagens trêmulas, soldados etíopes pareciam cercar um grupo de homens jovens desarmados em uma colina empoeirada e varrida pelo vento antes de atirar neles à queima-roupa – e depois eles os pegavam por um braço ou perna e jogavam ou chutavam seus corpos encosta rochosa abaixo, como se fossem bonecos de pano.

Na filmagem, é possível ouvir soldados pedindo aos outros para não desperdiçarem balas, para usar a quantidade mínima necessária para matar e para garantir que nenhum membro do grupo ficasse vivo. Eles também parecem celebrar os feitos uns dos outros, elogiando os assassinatos como heroicos e xingando os homens ali presos.

Dawit disse acreditar que um dos homens no vídeo era seu irmão mais novo, Alula. As imagens foram transmitidas por uma rede de televisão da diáspora, ou seja, feita por pessoas que tiveram que fugir da Etiópia, a Tigrai Media House (TMH). A CNN mudou os nomes dos dois irmãos para a segurança de Dawit.

O assassinato em massa perto de Mahibere Dego é um de vários denunciados durante o conflito de cinco meses na Etiópia. No período, acredita-se que milhares de civis foram mortos, estuprados e abusados. Mas, com o acesso independente a jornalistas severamente restrito até pouco tempo atrás e os serviços de telefone e internet frequentemente bloqueados, tem sido um desafio verificar relatos de atrocidades em Tigray. Em meio ao apagão de comunicações, poucos vídeos surgiram dos combates e aqueles que surgiram são difíceis de autenticar.

Por meio de uma investigação forense quadro a quadro das imagens de vídeo – corroborada pela análise dos especialistas em modelagem e verificação digital da Anistia Internacional – bem como entrevistas com dez familiares e moradores da região, a CNN estabeleceu que homens vestindo uniformes do exército etíope executaram um grupo de pelo menos 11 homens desarmados antes de se desfazerem de seus corpos perto de Mahibere Dego.

 Dawit disse que viu seu irmão de 23 anos pela última vez na casa de sua mãe em Mahibere Dego em 15 de janeiro. O rapaz usava as mesmas roupas com as quais aparece no vídeo. A investigação aponta que o vídeo foi feito no mesmo dia.

Dawit estava no pasto cuidando do gado quando soldados etíopes chegaram à cidade e saíram de casa em casa arrastando jovens, incluindo seu irmão, para fora de suas casas.

Os militares atiraram nele, disse Dawit, e ele correu para o mato para escapar, quebrando a perna enquanto descia por um caminho rochoso. Mais tarde, ele ouviu tiros à distância e depois silêncio.

Até assistir ao vídeo, ele disse que não tinha ideia do que havia acontecido com seu irmão. Mas, mesmo depois de assistir às filmagens inúmeras vezes, Dawit disse que ainda tem esperança de que Alula esteja vivo.

A CNN não é capaz de verificar de forma independente se Alula é de fato uma das pessoas que aparece na filmagem, e o homem que Dawit identifica como seu irmão não é identificável entre os mortos.

“Já que não vimos seu corpo com nossos próprios olhos e nós mesmos não enterramos nosso irmão, é difícil para nós acreditar que ele esteja morto. Parece que ele ainda está vivo, não podemos aceitar sua morte”, afirmou Dawit. “Sempre vamos nos lembrar dele”.

Após o ataque, Dawit fugiu de Mahibere Dego com dois de seus irmãos adolescentes, mancando por 19 quilômetros até a casa do irmão mais velho na cidade de Axum. Centenas de outros residentes deslocados da cidade e arredores estão agora dormindo nas ruas da cidade.

Dawit disse que as únicas pessoas que sobraram na cidade são aqueles idosos demais para fazer a jornada, incluindo sua própria mãe. Ela não tem acesso à internet ou TV via satélite e, sendo assim, não viu o vídeo horrível. Dawit conversou com ela ao telefone (as redes telefônicas em Mahibere Dego funcionam de forma intermitente) e não mencionou a filmagem. Por enquanto, disse ele, é mais fácil assim.

A Etiópia está enfrentando uma intensa pressão por conta das violações dos direitos humanos que podem equivaler a crimes de guerra na região de Tigray. Acredita-se que milhares de civis foram mortos desde novembro, quando o primeiro-ministro da Etiópia, Abiy Ahmed, lançou uma grande operação militar contra o partido governante em Tigray, a Frente de Libertação do Povo Tigray (TPLF), enviando tropas nacionais e milicianos da região de Amhara, na Etiópia.

A CNN já compilou extensos depoimentos de testemunhas oculares de que soldados do país vizinho, Eritreia, cruzaram para Tigray e estavam cometendo massacres, execuções extrajudiciais, violência sexual e outros abusos.

Nomeada pelo estado, a Comissão Etíope de Direitos Humanos disse na semana passada que suas investigações encontraram evidências preliminares de que mais de 100 pessoas em Axum foram mortas por soldados da Eritreia em novembro, confirmando relatórios anteriores da Anistia Internacional e Human Rights Watch.

No final de março, a organização Médicos Sem Fronteiras disse que seus membros testemunharam soldados etíopes retirarem vários homens de ônibus públicos e depois os executarem perto da capital de Tigray, Mekelle.

O primeiro-ministro Abiy disse na semana passada que seu governo irá responsabilizar qualquer soldado apontado por cometer atrocidades em Tigray, reconhecendo pela primeira vez que militares da Eritreia estavam lutando ao lado das forças etíopes e que se retirariam das áreas de fronteira. Não está claro se as forças da Eritreia saíram de Tigray.

A embaixada da Eritreia no Reino Unido e na Irlanda respondeu aos repetidos pedidos da CNN para comentários em 22 de março, negando as acusações de irregularidades cometidas por soldados eritreus e negando que as tropas eritreias estivessem na Etiópia.

Durante meses, os dois países negaram que militares da Eritreia estivessem na região devastada pela guerra e insistiram que nenhum civil fora morto no conflito, contradizendo relatos de residentes, refugiados, agências de ajuda, diplomatas e funcionários públicos etíopes.

Se os soldados no vídeo do Mahibere Dego forem de fato das Forças de Defesa Nacional da Etiópia, essa pode ser a primeira evidência visual do envolvimento da Etiópia em crimes de guerra.

O governo etíope e seu escritório interino em Tigray não responderam imediatamente ao pedido da CNN para comentar o vídeo e as acusações de que suas forças sequestraram vários homens da área de Mahibere Dego.

Na sexta-feira (2), após a publicação da investigação da CNN, o escritório de Abiy disse em um comunicado que “postagens e alegações em mídias sociais não podem ser tomadas como evidência, independentemente de a mídia ocidental noticiar ou não”. O comunicado acrescentou que o governo “indicou sua vontade expressa para que investigações independentes sejam realizadas na região de Tigray”.

A filmagem foi inicialmente transmitida no início de março por Tigrai Media House (TMH), um canal de TV por satélite e YouTube pró-Tigray com base nos Estados Unidos. As imagens circulam amplamente nas redes sociais desde então.

Stalin Gebreselassie, jornalista e apresentador da TMH baseado em Washington, nos EUA, disse à CNN que recebeu as imagens horríveis de uma fonte em Tigray. A fonte disse a ele que o vídeo foi filmado em um telefone celular por um soldado do exército etíope que depois delatou o assassinato em massa.

Segundo Gebreselassie, a TMH pagou diretamente ao delator pela filmagem, para que, então, ele pudesse deixar a Etiópia e se esconder. Como parte do acordo, a rede esperou até receber a notícia de que ele estava em segurança fora do país antes de transmitir o vídeo.

“Consegui falar com ele por apenas três minutos. As palavras que ele proferiu para mim foram: ‘Eu sinto muito, irmão… Eu realmente sinto muito pelo que fiz em Tigray, o povo tigraiano não merece isso’”, contou Gebreselassie, descrevendo sua ligação com o delator. O jornalista disse que o ex-soldado parecia lamentar seu envolvimento no assassinato, e que estava compartilhando o vídeo com a TMH “para curar” e “expor o que o governo etíope estava fazendo ao seu próprio povo”.

A CNN não teve sucesso em suas tentativas de contatar o soldado diretamente e não sabe a extensão do envolvimento do soldado nas atrocidades.

Gebreselassie disse que a filmagem foi enviada a ele no WhatsApp em cinco videoclipes compactados, devido a problemas persistentes de largura de banda da internet no Tigray, mas afirma que tudo foi filmado pelo soldado em um só dispositivo.

Sem a filmagem bruta e os metadados associados, a CNN não pode confirmar o dispositivo original em que os cinco vídeos foram filmados, quem os filmou, a data em que foram filmados ou se foram editados seletivamente.

Ainda assim, a CNN conseguiu localizar o local da filmagem, um penhasco acidentado pouco mais de cinco quilômetros ao sul de Mahibere Dego, ao usar o Google Earth para identificar o terreno, a linha das árvores, a vegetação e a forma das montanhas.

Ao mesmo tempo, a Anistia Internacional afirmou que confirmou a localização em todos os cinco videoclipes usando um software de modelagem 3D que sobrepôs as imagens àquelas feitas por satélite do local.

“Uma geolocalização preliminar para o local exigiu verificação espacial adicional. A ligação entre as imagens coletadas e o local foi então verificada por meio de análise espacial e reconstrução”, explicou Martyna Marciniak, investigadora visual que construiu o modelo 3D para a Anistia Internacional.

Para corroborar a hora específica do dia em que o vídeo foi filmado, a CNN conduziu uma análise de sombra usando uma ferramenta chamada SunCalc. Com base nas longas sombras, a análise sugere que o massacre foi realizado no final da tarde.

Em imagens congeladas, dá para ver os soldados vestindo uniformes com emblemas da bandeira nacional da Etiópia bordada no ombro e “Exército Etíope” bordado na lapela. Os uniformes coincidem com os usados pela Força de Defesa Nacional da Etiópia (ENDF), como pode ser visto em fotos e filmagens feitas pela agência de notícias Agence France-Presse em Tigray.

Os soldados também podem ser ouvidos falando amárico (a língua oficial dominante do exército federal da Etiópia) enquanto convocam os jovens para verificar se estão armados.

“Este crime é tão evidente que mereceu uma investigação adequada de seu conteúdo para assim podermos dizer com 100% de precisão que sabemos onde isso aconteceu e sabemos que isso aconteceu. E nós não medimos esforços para fazer isso”, relatou Sam Dubberley, chefe interino do Laboratório de Evidências de Crise da Anistia Internacional.

“O fato de ser um dos perpetradores que fez isso [filmou o vídeo] mostra um sentimento de impunidade, de que eles podem escapar impunes. E acho que é realmente importante que os perpetradores desses crimes sejam responsabilizados pelo governo etíope pelo que parecem ser execuções extrajudiciais”.

A CNN entrevistou dez pessoas que disseram ter perdido entes queridos em Mahibere Dego, ou conheciam alguns dos jovens que foram levados por soldados e supostamente mortos perto da cidade. Na tentativa de divulgar o que aconteceu com eles, vários moradores compilaram uma lista dos desaparecidos: são até 39 homens. A lista de nomes, assim como as fotos de 18 dos homens, foram compartilhadas diretamente com a CNN. A CNN verificou as identidades de vários dos 18, mas não estabeleceu se eles são os mesmos homens no vídeo granulado do penhasco.

Três fontes diferentes disseram à CNN que 39 homens ainda estão desaparecidos em Mahibere Dego. Em um vídeo, soldados podem ser vistos cercando dezenas de homens. Em outro, os corpos de pelo menos 11 homens estão empilhados na encosta. 

Dawit e outros residentes disseram que tropas etíopes estavam lutando em outra cidade próxima antes de chegarem a Mahibere Dego. Alguns residentes especularam que os soldados estavam se vingando, alvejando homens jovens, presumindo que fossem membros das forças da TPLF ou milícias locais aliadas.

Mas familiares e residentes afirmam que não havia milícias na cidade recentemente ou mesmo no passado. Dawit disse que seu irmão Alula não era um combatente, nem seus vizinhos, oito dos quais também foram retirados de suas casas e acredita-se que tenham sido executados.

Dawit e outros moradores disseram que reconheceram o local mostrado no vídeo com base no terreno e na vegetação. “Quando assisti ao vídeo várias vezes, percebi que conhecia o lugar e não fica longe de nossa pequena cidade e vila. O lugar se chama Ela”, contou.

A cidade de Mahibere Dego ainda é vigiada de perto pelo exército etíope, de acordo com Dawit e outros residentes. Elas contam que foi montada uma base militar improvisada na escola secundária local. Devido ao bloqueio da área, parentes e moradores não puderam visitar o local para identificar uma vala comum.

Quase três meses depois, Dawit e seus irmãos ainda não conseguiram retornar a Mahibere Dego. O rapaz disse que querem contar à mãe o que aconteceu com Alula pessoalmente e fazer um memorial, mas enquanto os soldados ainda estiverem na cidade, é muito arriscado.

“É muito difícil expressar minha triste revolta”, lamentou Dawit, acrescentando que seu irmão era muito querido.

“Não há palavras suficientes para expressar o que é perder meu irmão dessa maneira”.

Eliza Mackintosh, da CNN, escreveu e noticiou de Londres. Bethlehem Feleke, reportou de Nairóbi, Gianluca Mezzofiore, Katie Polglase relatou de Londres, e Nima Elbagir relatou da fronteira Sudão-Etiópia. Todos são da CNN. Mebrahtu Kindeya Hagos traduziu para a CNN.

Design e edição visual de Muhammad Darwish, Natalie Croker, Henrik Pettersson e Sarah Tilotta.

(Texto traduzido. Clique aqui para ler a versão original em inglês).

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