Eleição em Moldova é marcada por acusações de interferência russa

População vai às urnas escolher entre parlamentares pró-União Europeia e pró-Rússia

Da Reuters
Bandeira da Moldávia (à esquerda) hasteada do lado de fora da embaixada do país no centro de Moscou, Rússia18/12/2017  • REUTERS/Maxim Shemetov
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Os moldávios votam neste domingo (28) em uma eleição parlamentar que pode ter um grande impacto na tentativa do governo de ingressar na União Europeia, enquanto um grupo de oposição pró-Rússia tenta afastar o país dos laços mais estreitos com o bloco.

Se nenhum dos lados conquistar maioria na câmara de 101 assentos, é provável que ocorram negociações políticas intensas, o que pode desestabilizar ainda mais um dos países mais pobres da Europa, já abalado pela guerra na vizinha Ucrânia e por suspeitas de interferência russa na política e na religião.

Durante a votação, um líder pró-Rússia convocou possíveis protestos após a eleição, e autoridades de cibersegurança relataram que a infraestrutura eleitoral foi alvo de ataques nos dois dias anteriores.

Governo de Moldova acusa Rússia de interferência

A presidente Maia Sandu descreve a eleição como um teste existencial para o país de 2,4 milhões de habitantes, que também possui fortes laços culturais e linguísticos com seu vizinho ocidental, a Romênia.

O governo denunciou uma ampla campanha russa para influenciar o resultado da votação. Sandu, que quer que Moldova entre na União Europeia até 2030, alertou para consequências “imediatas e perigosas” caso a influência russa prevaleça.

Grupos de oposição, como o bloco pró-Rússia chamado Bloco Patriótico, têm explorado o descontentamento dos eleitores com a crise econômica e o ritmo lento das reformas — queixas agravadas, segundo as autoridades, por uma onda de desinformação generalizada.

Dias antes da votação, autoridades eleitorais retiraram dois partidos do Bloco Patriótico da cédula eleitoral, sob acusações de financiamento ilegal.

As autoridades também lançaram centenas de operações nas últimas semanas para combater o financiamento ilícito de partidos e redes supostamente apoiadas pela Rússia, com o objetivo de gerar instabilidade em torno da eleição.

Moscou negou qualquer interferência e acusou o governo de promover uma “histeria anti-Rússia” para angariar votos.

Igor Dodon, ex-presidente e líder do Bloco Patriótico, acusou neste domingo o governo de Sandu de se preparar para anular a votação e convocou seus apoiadores a protestar em frente ao parlamento na segunda-feira (29) Ele não apresentou nenhuma prova.

Partido governista espera manter maioria

Até o meio dia domingo no horário local, a participação de eleitores era de cerca de 30%.

Segundo as autoridades, o comparecimento às urnas na região central de Chisinau — onde tanto o romeno quanto o russo são amplamente falados — foi lento durante a manhã, mas começou a aumentar com o passar das horas.

Pesquisas indicam que o PAS (Partido Ação e Solidariedade), da presidente Maia Sandu, pode enfrentar dificuldades para manter sua maioria. O partido aposta fortemente em eleitores motivados, incluindo muitos moldávios que vivem no exterior.

“(Sandu) está fazendo o que pode com o que tem,” disse Mariana Rousset, 45 anos, que viajou da França até Chisinau para votar.

Se perder a maioria, o PAS será forçado a buscar alianças com adversários, como o bloco de centro-esquerda Alternativa ou o partido populista Nosso Partido — caso esses grupos ultrapassem o limite mínimo para entrar no Parlamento.

Moldávios divididos sobre o futuro

O poder na ex-república soviética tem oscilado por décadas entre grupos pró-europeus e pró-russos.

Enquanto Sandu e o PAS colocam a integração europeia como prioridade central, muitos eleitores estão mais preocupados com questões internas e mostram cautela sobre o que laços mais estreitos com a União Europeia poderiam significar para a economia moldava, fortemente baseada na agricultura.

Viorica Burlacu, vendedora de frutas na capital, afirmou que a guerra na Ucrânia mostrou que Moldova precisa da proteção da Europa.

“Temos medo da guerra; ninguém quer isso,” disse a mulher de 46 anos. “Então, estamos buscando na Europa pelo menos alguma proteção.”

Já em Balti, cidade no norte da Moldávia, Maria Scotari, de 82 anos, ofereceu uma perspectiva diferente. Ela lembrou com carinho da época em que era estudante na União Soviética.

“O que havia de tão ruim nisso? A vida era assim. Eu era estudante, tudo estava bem, tudo era ótimo.”