Eles queriam uma nova vida nos EUA, mas foram mortos por militares americanos

Zamarai Ahmadi, de 43 anos, era um trabalhador humanitário que morreu ao lado da família em ataque de drone dos EUA em Cabul

Zamarai Ahmadi, terceiro a partir da esquerda, funcionário de uma ONG norte-americana, estava solicitando um visto para os EUA para ele, sua esposa Anisa e seus filhos Zamir, Zamira, Faisal e Farzad
Zamarai Ahmadi, terceiro a partir da esquerda, funcionário de uma ONG norte-americana, estava solicitando um visto para os EUA para ele, sua esposa Anisa e seus filhos Zamir, Zamira, Faisal e Farzad Cortesia/ Nutrition & Education International

Sandi Sidhu, Julia Hollingsworth, Anna Coren, Abdul Basir Bina e Ahmet Menglida CNN

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Para os militares dos Estados Unidos, ele era um facilitador do Estado Islâmico K que estaria envolvido em uma conspiração para atacar o aeroporto internacional de Cabul.

Para sua família e colegas de uma organização sem fins lucrativos dos EUA, Zamarai Ahmadi, de 43 anos, era um trabalhador humanitário que estava solicitando um visto para os EUA para tirar sua família do Afeganistão controlado pelo Talibã.

Nas duas semanas desde que os drones dos EUA dispararam um míssil Hellfire contra um carro em um complexo residencial em Cabul, duas narrativas muito diferentes surgiram sobre o homem que, segundo sua família, morreu ao lado de nove parentes.

O Pentágono sustenta que pelo menos um membro do Estado Islâmico K foi morto naquele que o Chefe do Estado Maior das Forças Armadas, general Mark Milley, chamou de “ataque justo” em 29 de agosto.

Em um comunicado, o Comando Central dos EUA mencionou “explosões secundárias significativas” como evidência de uma “quantidade substancial de material explosivo” dentro do veículo. Uma autoridade dos EUA com conhecimento da operação disse à CNN na semana passada que os agentes rastrearam o carro por cerca de oito horas antes de lançar o ataque.

No entanto, entrevistas da CNN com dois especialistas em explosivos e mais de duas dúzias de parentes de Ahmadi, colegas e vizinhos levantam questões sobre se, de fato, um facilitador do Estado Islâmico K foi morto no ataque e se o carro continha explosivos.

Os relatos também suscitam dúvidas sobre se os militares tinham dados de inteligência suficiente para lançar um ataque que, segundo a família, acabaria matando três homens com visto para os EUA e sete crianças e jovens com 15 anos ou menos.

A preparação

Nos dias que antecederam o ataque, as tensões na capital afegã eram altas.

Um terrorista suicida do Estado Islâmico K havia detonado seu colete do lado de fora de um portão do Aeroporto Internacional Hamid Karzai três dias antes, matando pelo menos 170 civis e 13 militares dos EUA. E o prazo final de 31 de agosto estava se aproximando rapidamente para os EUA e seus aliados concluírem a retirada de pessoas cada vez mais desesperadas do aeroporto.

Após o ataque, o presidente dos EUA, Joe Biden, foi firme: “Não vamos perdoar. Não vamos esquecer. Nós Vamos caçá-los e fazer vocês pagarem. Responderemos com força e precisão no nosso tempo, no lugar que escolhermos e no momento que escolhermos”.

Em 28 de agosto, Biden disse que comandantes dos EUA haviam alertado que outro ataque terrorista no aeroporto era “altamente provável” nas próximas 24 a 36 horas. ‘Eu os instruí a tomar todas as medidas possíveis para priorizar a proteção da força”, escreveu em um comunicado.

Não vamos perdoar. Não vamos esquecer. Vamos caçá-los e fazer vocês pagarem

Joe Biden - Presidente dos Estados Unidos

A fonte disse à CNN que dados dos serviços de inteligência levaram os militares dos EUA a um complexo a cerca de 5 quilômetros a noroeste do aeroporto de Cabul, onde eles acreditavam que o ataque ao aeroporto de 26 de agosto havia sido planejado ou dirigido. Como o complexo ficava a poucas centenas de metros de um antigo esconderijo do Estado Islâmico, a localização não os surpreendeu, segundo a autoridade que falou com a CNN.

Os EUA começaram a monitorar a casa e enviaram uma aeronave não tripulada, disse o oficial.

29 de agosto, cerca de 8h30

Naquela manhã, o dia de Ahmadi começou de maneira semelhante a muitos outros, de acordo com seus colegas de trabalho.

Ele costumava ser o motorista do grupo, usando um Toyota Corolla de propriedade da organização sem fins lucrativos Nutrition and Education International (NEI) dos Estados Unidos, onde Ahmadi havia trabalhado por 15 anos.

Às 8h44, Ahmadi recebeu um telefonema do diretor da NEI pedindo que ele pegasse um laptop na casa do colega, de acordo com o próprio colega e os registros telefônicos da ligação.

Mas, primeiro, Ahmadi foi buscar um ex-parceiro de trabalho, que pediu para ser chamado de Khan por motivos de segurança. Khan queria ir ao escritório para obter informações sobre os pedidos de visto para os EUA.

Zamarai Ahmadi era um “funcionário humilde, compassivo e humanitário”, segundo a organização sem fins lucrativos para a qual trabalhava / Corteseia/Nutrition & Education International

Khan disse que Ahmadi chegou em sua casa por volta das 8h45, e os registros telefônicos confirmaram que ele telefonou quando estacionou do lado de fora da casa.

Ahmadi e Khan então pegaram o laptop na casa do diretor. Ahmadi saiu do carro para pegar o laptop com o pai de seu colega um pouco antes das 9h, disse Khan.

Quase ao mesmo tempo, a aeronave não tripulada detectou um veículo saindo de um possível esconderijo do Estado Islâmico, disse a fonte à CNN. Não havia muito movimento na casa, então quando um veículo saiu, “foi algo significativo”, disse a autoridade.

Os EUA começaram a seguir esse veículo.

O diretor da ONG disse que sua casa – onde mora com os pais, três irmãs, esposa e três filhos – nunca foi um esconderijo do Estado Islâmico. Sua família mora no endereço residencial há mais de 40 anos. Em um comunicado, a NEI disse que a implicação de que Ahmadi simpatizava com um grupo terrorista era “incrédula” e que a acusação de que a organização estava indiretamente ou diretamente cooperando com o grupo ameaçava a vida de seus funcionários.

Pouco depois das 9h, Ahmadi e Khan buscaram outro colega na casa dele, de acordo com Khan, que confirmou a hora com registros telefônicos.

O trio parou em uma barraca à beira da estrada para comprar um café da manhã com batatas fritas e pão naan antes de seguir para o escritório, de acordo com Khan.

29 de agosto, das 9h às 14h

Enquanto os operadores de drones dos EUA monitoravam o carro de cima, o exército dos EUA ouvia conversas de supostos militantes do Estado Islâmico planejando mais ataques suicidas, disse a autoridade norte-americana à CNN.

Os serviços de inteligência indicaram que a célula pegaria materiais e se encontraria com alguém em uma motocicleta, disse a fonte, sem especificar o horário e os locais desses eventos.

Durante as próximas oito horas, os EUA observaram o veículo parar e descarregar objetos e parecer se encontrar com alguém em uma motocicleta.

“Portanto, isso parece estar correlacionado com o que os serviços de inteligência estavam sugerindo que aconteceria”.

Os colegas de trabalho de Ahmadi, no entanto, descreveram um dia relativamente típico para eles.

O clima no carro era leve, disse Khan, seu ex-colega de trabalho.

“Ahmadi era o mesmo, como no passado, só brincando, conversando, rindo”, contou.

Recentemente, a NEI – uma organização sem fins lucrativos dedicada a combater a desnutrição no Afeganistão – vinha levando arroz e soja para campos em Cabul cheios de pessoas que fugiram do Talibã.

Por volta das 9h30, Ahmadi e seus dois passageiros chegaram ao escritório da NEI, onde tomaram o café da manhã que haviam comprado no caminho, de acordo com Khan e com o diretor da ONG.

Ahmadi era o mesmo, como no passado, só brincando, conversando, rindo

Ex-colega de trabalho de Khan Ahmadi

Depois do café da manhã, Ahmadi e três outros homens (incluindo Khan) dirigiram-se a um posto de segurança do Talibã em um distrito próximo para solicitar permissão para o programa de distribuição de alimentos. Foi uma das duas estações de segurança que eles visitaram naquele dia, de acordo com o fundador da NEI, Steven Kwon, e com duas das pessoas no carro.

Essas mesmas duas testemunhas do carro disseram que eles também visitaram um banco no centro da cidade antes de voltarem ao escritório por volta das 14h.

Khan disse que não se lembrava de ter parado para falar com um motociclista durante suas viagens naquele dia. A filmagem do CCTV mostra o segurança no escritório pilotando uma moto.

Tanto Khan quanto outro passageiro disseram não ter visto nada suspeito.

Por volta das 16h

No final da tarde, os militares norte-americanos observaram outra coisa que os alarmava: pessoas carregando o que acreditavam ser explosivos na parte traseira do veículo.

As pessoas foram vistas manuseando “delicadamente” objetos que pareciam “um tanto pesados” e colocando-os dentro do carro, disse a fonte. Esses objetos foram avaliados como algum tipo de material explosivo devido à forma como estavam sendo manuseados, disse o oficial, sem detalhar a aparência dos objetos.

Nas últimas semanas, Ahmadi não tinha água encanada em sua casa, então ele encheu recipientes de plástico com água no trabalho e os levou para sua família, de acordo com colegas.

Um vigia da NEI que pediu anonimato disse que, por volta das 15h, Ahmadi pediu-lhe que o ajudasse a encher os recipientes com uma mangueira porque não tinha água em casa.

Imagens de circuito interno de televisão do escritório da NEI obtidas pela CNN mostram Ahmadi enchendo recipientes de plástico com uma mangueira naquela tarde. O carimbo de data/hora no vídeo indicava que o horário de 0h48 de 28 de agosto, mas estava claro do lado de fora, indicando que o carimbo de data/hora estava errado. Um jornalista da CNN visitou o escritório e confirmou que o aparelho estava quase 38 horas atrasado, sugerindo que os homens encheram os recipientes de plástico por volta das 14h30 de domingo.

Parentes e vizinhos inspecionam os restos mortais do ataque do míssil Hellfire dos EUA em um complexo residencial em Cabul / Jim Huylebroek/The New York Times/Redux

Os homens então colocaram as vasilhas de água no porta-malas do carro, disse o vigia da NEI.

Por volta das 16h, Ahmadi deu uma carona para casa a dois de seus colegas de trabalho, seguindo o mesmo caminho no sentido inverso para deixá-los antes de seguir para o complexo de sua família, de acordo com Khan, o ex-colega de trabalho.

Seria a última viagem de Ahmadi para casa.

Por volta das 17h

Crianças animadas correram para encontrar Ahmadi quando ele parou no pátio da casa que dividia com seus três irmãos e suas esposas e filhos, disseram parentes e vizinhos.

Ahmadi costumava deixar seu filho Farzad, de 9 anos, estacionar o carro, e outras crianças frequentemente subiam no veículo, disse a família.

Mas, enquanto as crianças corriam em sua direção, um míssil Hellfire carregando uma ogiva de 6 a 9 quilos atingiu seu alvo.

Demorou menos de um minuto do disparo à explosão, de acordo com o jornal “The New York Times”. A CNN pediu às autoridades norte-americana um comentário sobre o momento do envio do míssil, mas eles se recusaram a comentar.

O carro foi engolido pelas chamas, de acordo com relatos de testemunhas e vídeos do local.

Ao todo, morreram 10 pessoas, incluindo sete crianças – quatro das quais estavam no carro no momento do ataque, segundo familiares. Os EUA contestam esses números.

O futuro genro de Ahmadi, Naser Haidari, ex-guarda de segurança do exército dos EUA que até recentemente serviu nas forças afegãs, foi morto enquanto se lavava no pátio antes das orações noturnas, disse a família. O filho de 19 anos de Ahmadi, Zamir, que seus amigos descreveram como um fã de moda, também foi morto.

“Houve gritos de todos, não apenas meus”, disse Samia, a filha de Ahmadi que se casaria com Haidari nos próximos dias. “A princípio, pensei que fosse um ataque a todo o Afeganistão e que todos os lugares deviam ser tomados por terroristas. Não sabia que o ataque foi apenas à nossa casa”.

O irmão de Ahmadi, Romal, perdeu todas as três filhas no ataque. A esposa de Romal, Arezo Ahmadi, disse que cacos de vidro caíram em seu rosto imediatamente após a explosão, e ela correu para fora, gritando por suas filhas.

“Havia sangue por toda parte”, disse. “Corremos para todos, para ver se podíamos salvá-los”.

“Eu vi os corpos, foram todos queimados”, disse o vizinho Karim Ahmadi, sem parentesco com Zamarai Ahmadi. “O carro foi totalmente destruído. Pedaços de carne voaram para todos os lados”.

De acordo com a fonte norte-americana, os atiradores observavam o motorista e um homem adulto no momento do disparo. Nenhuma criança podia ser vista no carro – e foi somente depois que o míssil foi disparado que as crianças foram vistas no vídeo do drone se aproximando do carro, de acordo com a fonte.

Imediatamente após o ataque, um porta-voz do Comando Central dos EUA disse que as primeiras indicações sugeriam que não houve vítimas civis.

Mais tarde naquele dia, o porta-voz disse que o Comando Central estava ciente de relatos de vítimas civis, embora sugerisse que poderiam ter sido causadas por “explosões subsequentes”.

“Estamos investigando isso. Eu não vou me antecipar. Mas, se tivermos informações verificáveis de que de fato tiramos vidas inocentes aqui, seremos transparentes sobre isso também. Ninguém quer que isso aconteça”, disse o porta-voz do Pentágono, John F. Kirby, em 31 de agosto.

Três dias depois do ataque, o Departamento de Defesa dos Estados Unidos reconheceu pela primeira vez que outras pessoas foram mortas no ataque. Milley disse que os EUA tinham notificações dos serviços de inteligência muito boas e passaram pelo “mesmo nível de rigor que temos seguido há anos”.

“Pelo menos uma das pessoas mortas era um facilitador do Estado Islâmico”, disse Milley em uma entrevista coletiva em 1º de setembro. “Então, houve outros mortos? Sim, existem outros mortos. Quem são eles, não sabemos. Vamos tentar resolver tudo isso”.

Falando ao Congresso na segunda-feira (13) durante uma audiência do comitê de Relações Exteriores da Câmara, o secretário de Estado Antony Blinken disse que o ataque está sendo analisado “com muito cuidado” por outros membros do governo.

Tubos de lançamento de foguetes são vistos em um veículo destruído em Cabul / Khwaja Tawfiq Sediqi/AP

“Nenhum país no mundo, nenhum governo toma mais precauções para tentar garantir que qualquer pessoa que não seja o alvo terrorista seja atacada com um drone ou por qualquer outro meio”, declarou. “Mas certamente sabemos que, no passado, civis foram feridos e mortos nesses ataques”.

O rescaldo

A CNN visitou a casa de Ahmadi horas depois do ataque e encontrou o esqueleto carbonizado de seu carro.

Vidro quebrado e entulho estavam espalhados pelo pátio de concreto. As janelas de um SUV marrom próximo foram quebradas e o porta-malas ficou escurecido.

Mas as paredes ásperas de argila ao redor do pátio ainda estavam de pé.

Após o ataque, os EUA mencionaram “explosões secundárias significativas” como evidências fundamentais de que o carro continha explosivos. Duas autoridades que viram imagens de vigilância dos EUA após o ataque confirmaram à CNN que aconteceram grandes explosões secundárias.

“Estava carregado e pronto para seguir”, afirmou uma autoridade logo após o incidente.

Mas a fonte dos EUA disse à CNN na semana passada que houve uma “explosão secundária” – em vez de várias como outras autoridades norte-americanas descreveram imediatamente após o ataque – e disse que as investigações iniciais confirmaram que havia pelo menos três vítimas civis suspeitas.

Dois especialistas que analisaram extensas imagens filmadas pela CNN dizem que a cena é consistente com as consequências de um ataque do Hellfire, mas ambos dizem que não há evidências de uma “explosão secundária significativa”, muito menos várias explosões. Eles apontam para os danos limitados a um carro estacionado nas proximidades e às paredes ao redor do pátio, que permanecem praticamente intactas.

Um desses especialistas, Brian Castner, ex-oficial de eliminação de munições explosivas das Forças Armadas dos EUA no Iraque que agora trabalha como investigador de crimes de guerra para a Anistia Internacional, disse que o local mostra sinais de uma explosão inicial seguida de um incêndio em um carro. Ele não viu nenhuma característica de uma explosão secundária significativa.

“Se realmente houve uma ‘explosão secundária significativa’, aquela parede deveria ser derrubada, a árvore deveria ter desaparecido do meio, o SUV deveria ser virado de lado”, disse ele sobre o carro estacionado nas proximidades.

Segundo Castner, o dano poderia ser consistente com a detonação de um único colete suicida de pouco mais de dois quilos (algo que não seria considerado uma explosão secundária significativa), mas determinar isso de forma conclusiva exigiria uma investigação forense do local. Em uma coletiva de imprensa na segunda-feira (13), o porta-voz do Pentágono disse não tinha conhecimento de nenhuma opção que levasse investigadores em Cabul para concluir sua avaliação.

A causa da explosão secundária ainda está sob análise, disse o funcionário dos EUA, que afirmou que ela foi quatro a cinco vezes maior do que explosão inicial.

Embora a fonte tenha admitido que o veículo não estava “lotado até o topo com material explosivo”, ele disse que a explosão foi consistente com um par de coletes suicidas de 7 quilos, muitos coletes suicidas de 1,5 a 2 quilos ou material explosivo solto que foi colocado na parte de trás do veículo.

O funcionário dos EUA reconheceu que a explosão secundária também pode ter sido causada por um cilindro de gás.

Mas um engenheiro de explosivos internacional, que pediu para não ser identificado por motivos profissionais e que assistiu ao vídeo da cena da CNN, disse que não havia nenhuma evidência de uma explosão secundária quatro ou cinco vezes maior do que a inicial. Para isso, o carro precisaria conter muito mais material explosivo, e os danos chegariam ao carro próximo, à vegetação e à parede.

“Pelas evidências apresentadas, o governo dos Estados Unidos está se agarrando a qualquer coisa”, disse o engenheiro.

Pedidos de justiça

A autoridade dos EUA que conversou com a CNN indicou uma prova final de que eles haviam matado com sucesso um facilitador do Estado Islâmico K: imediatamente após o ataque do drone, as conversas entre terroristas pararam.

No entanto, uma fonte do Estado Islâmico K negou que qualquer uma das vítimas estivesse conectada ao grupo terrorista. O Estado Islâmico K também assumiu a responsabilidade por um ataque fracassado ao aeroporto no dia seguinte, quando pelo menos cinco foguetes foram derrubados pelo sistema de defesa antimísseis do aeroporto. Um carro queimado, que havia sido alterado com vários tubos, seria a prova que um veículo foi usado como plataforma de lançamento de mísseis improvisada.

A análise da CNN mostra que o carro também era um Toyota Corolla, um veículo comum em Cabul e da mesma marca do carro que Ahmadi dirigia.

Cabul agora é comandada pelo Talibã, inimigo da organização terrorista Estado Islâmico K. Um porta-voz do Talibã disse à CNN na semana passada que não acreditava que a família de Ahmadi fosse associada ao grupo e não estava investigando o incidente.

Shoaib Haider, um juiz que também é primo em segundo grau de Ahmadi, quer que o ataque seja investigado como um potencial crime de guerra dos Estados Unidos.

“Esperamos que as Nações Unidas e os defensores dos direitos humanos façam uma avaliação de tais incidentes, para que trágicos eventos como este, em que crianças inocentes e membros de uma família são eliminados, não aconteçam no futuro”, declarou.

Emal Ahmadi, um dos irmãos de Ahmadi e pai de Malika, uma bebê de 2 anos que morreu no ataque, chamou os EUA de “traidores”. Emal trabalhou anteriormente para uma empresa norte-americana e estava em processo de solicitação de visto para os EUA, disse ele.

“(Os EUA) deveriam investigar e então atacar. Como alguém sabe do céu o que está aqui? Havia crianças dentro e ao redor do carro e vocês miraram nelas. Não é um crime?”

A lei em torno dos ataques de drones é complicada e a transparência total nem sempre é possível, disse Gloria Gaggioli, diretora da Academia de Genebra sobre Direito Internacional Humanitário e Direitos Humanos. “Isso não significa que uma total falta de responsabilidade seja aceitável”, comentou.

William Boothby, especialista em direito internacional humanitário que escreveu um livro sobre a lei de seleção de alvos, disse que os estados são obrigados a fazer tudo o que for possível para verificar o status de seu alvo como lícito. No entanto, deixar de tomar as devidas precauções não é um crime de guerra nos termos do Estatuto de Roma para o Tribunal Criminal Internacional – e independentemente disso, os EUA não fazem parte do estatuto, disse Boothby.

Havia crianças dentro e ao redor do carro e vocês miraram nelas. Não é um crime?

Emal Ahmadi, pai de vítima

Embora o ataque possa ser legal, ela levanta questões morais. Como conta Castner, investigador da Anistia Internacional, os EUA mostraram anteriormente um “nível de negligência” ao distinguir civis de alvos, e muitas vezes demoraram a admitir vítimas civis ou a pagar indenizações. Com a retirada dos EUA do Afeganistão, ataques com menos dados dos serviços de inteligência podem acontecer com mais frequência, ele advertiu.

“Em alguns aspectos, é mais do mesmo e, em outros, vai ser mais falta de supervisão, desafios com inteligência e mais casos em que eles podem ou não ter acertado o alvo”, enumerou.

Já se passaram duas semanas desde o ataque e a família de Ahmadi ainda está lutando para compreender a perda de entes queridos. Alguns também perderam um caminho potencial para sair do Afeganistão: a família havia feito vários pedidos de visto dos EUA, incluindo os dos nomes de Zamarai Ahmadi e Naser Haidari. A família agora teme que qualquer ligação com o Estado Islâmico K possa expô-los ao perigo do Talibã A organização NEI teme que os EUA tenham tornado seus colegas alvos ainda maiores e quer que o governo ajude a retirá-los e reassentá-los.

Samia, que perdeu seu noivo, pai e três de seus irmãos na explosão, sente que não tem mais ninguém no Afeganistão.

“Meu noivo sempre me disse que iria nos tirar daqui. Agora, os EUA deveriam nos tirar daqui”, afirmou.

Escrito e produzido por Julia Hollingsworth Reportagem de Sandi Sidhu, Julia Hollingsworth e Anna Coren em Hong Kong; Abdul Basir Bina em Istambul, Turquia; Ahmet Mengli em Cabul, Afeganistão.

Editado por Hilary Whiteman.

(Texto traduzido. Clique aqui para ler o original em inglês)

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