Em livro, Trump admite ter minimizado ameaça do novo coronavírus

'Rage' é nova publicação do jornalista Bob Woodward, que será lançada no dia 15 de setembro

Jamie Gangel, Jeremy Herb e Elizabeth Stuart, da CNN

Ouvir notícia

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, admitiu, semanas antes da confirmação da primeira morte por Covid-19 nos Estados Unidos, saber que o novo coronavírus – que ele o minimizou repetidamente – era perigoso, transmissível pelo ar, altamente contagioso e “mais fatal do que as gripes mais extenuantes”.

A informação é parte do novo livro do jornalista Bob Woodward, ‘Rage’ (Ira, em tradução livre). 

“Essa é uma coisa mortal”, disse Trump a Woodward em 7 de fevereiro.

Em uma série de entrevistas com Woodward, Trump revelou que ele tinha um nível surpreendente de detalhes sobre a ameaça do vírus antes do que se sabia. “Bastante impressionante”, disse Trump a Woodward, acrescentando que o novo coronavírus seria talvez cinco vezes “mais fatal” do que uma gripe. 

As admissões de Trump fazem um contraste drástico com seus comentários públicos frequentes na época, que insistiam que o vírus “desapareceria” e “tudo ficaria bem”. 

Leia também:

Novo livro do jornalista Bob Woodward sobre Trump promete ser mais explosivo

Trump fará ‘justiça’ contra a China pela Covid-19, diz Mike Pompeo em convenção

Eleições nos EUA: como a pandemia da Covid-19 mudou as convenções políticas

Capa do livro 'Rage', do jornalista Bob Woodward
Capa do livro ‘Rage’, do jornalista Bob Woodward
Foto: Divulgação/Simon & Schuster (9.set.2020)

O livro, usando as próprias palavras de Trump, descreve um presidente que traiu a confiança pública e as responsabilidades mais fundamentais do cargo.

Em ‘Rage’, Trump diz que o trabalho de um presidente é “manter o país seguro”. Mas no começo de fevereiro, Trump disse a Woodward saber o quanto o vírus era perigoso e, em março, admitiu que ele escondeu esse conhecimento do público. 

“Eu sempre quis minimizar”, disse Trump a Woodward em 19 de março ao jornalista, mesmo após declarar emergência nacional por causa do vírus alguns dias antes. “Eu ainda gosto de minimizar, porque não quero criar pânico”. 

Se, em vez de minimizar o que sabia, Trump tivesse agido decisivamente no começo de fevereiro com uma quarentena restrita e uma mensagem consistente para o uso de máscaras, distanciamento social e lavagem das mãos, especialistas acreditam que milhares de vidas de americanos poderiam ter sido salvas.

As revelações desconcertantes em ‘Rage’, que a CNN obteve antes do seu lançamento em 15 de setembro, foram feitas durante 18 entrevistas amplas que Trump deu a Woodward entre 5 de dezembro de 2019 e 21 de julho de 2020.

As entrevistas foram gravadas por Woodward com autorização de Trump, e a CNN teve acesso a algumas das fitas de áudio. 

‘Rage’ também inclui avaliações brutais da presidência de Trump por muitos de seus ex-oficiais de segurança nacional, incluindo o ex-secretário de Defesa James Mattis, o ex-diretor de Inteligência Nacional Dan Coats e o ex-secretário de Estado Rex Tillerson.

Mattis é citado dizendo que Trump seria “perigoso” e “inadequado” para ser o comandante-chefe do país. Woodward escreve que Coats “continuou a guardar uma crença secreta, uma que crescia ao invés de diminuir, apesar de não ser embasada por provas da Inteligência, que Putin havia algo contra Trump”.

“Como explicar o comportamento do presidente de outra maneira? Coats não podia ver nenhuma outra explicação”. 

O livro também contém avaliações duras da liderança do presidente em relação ao vírus por autoridades que ainda estão em seus cargos. 

Anthony Fauci, o maior especialista em doenças infecciosas do governo, é citado dizendo a outros que a liderança de Trump era “à deriva” e que sua “capacidade de atenção é um número negativo”. 

“O seu único propósito é ser reeleito”, disse Fauci a um colega, de acordo com Woodward.

‘O vírus não tem nada a ver comigo’

Woodward revela novos detalhes sobre os alertas precoces que Trump recebeu — e, frequentemente, ignorou.

Em uma reunião ultraconfidencial da inteligência em 28 de janeiro, o conselheiro de segurança nacional Robert O”Brien deu a Trump um alerta “chocante” sobre o vírus, dizendo ao presidente que seria “a maior ameaça à segurança nacional” de seu mandato. Trump ergueu a cabeça, escreve Woodward.

O assistente de O’Brien, Matt Pottinger, concordou, dizendo a Trump que poderia ser tão ruim quanto à pandemia de gripe espanhola em 1918, que estima-se que tenha matado 50 milhões de pessoas em todo o mundo, incluindo 675 mil americanos.

Pottinger alertou Trump que transmissão assintomática estava acontecendo na China, ele havia ouvido que 50% dos infectados não manifestavam sintomas. 

Naquela época, havia menos de uma dúzia de casos reportados de Covid-19 nos EUA. 

Três dias depois, Trump anunciou restrições de viagens da China, um movimento sugerido por sua equipe de segurança nacional — apesar das declarações posteriores de Trump de que ele sozinho teria bancado as limitações de viagem. 

Mesmo assim, Trump continuou a minimizar publicamente o perigo do vírus. Fevereiro foi um mês perdido. Woodward vê isso como uma oportunidade perdida para Trump reiniciar o “relógio da liderança” após ter ouvido que essa era uma “emergência de saúde de uma vez na vida”. 

“Presidentes são parte do Executivo. Havia um dever de alertar. De ouvir, planejar, proteger”, escreve Woodward.

Mas nos dias após a reunião de 28 de janeiro, Trump usou aparições públicas importantes para minimizar a ameaça e, Woodward escreve, “para assegurar à população de que eles enfrentavam pouco risco”. 

Durante uma entrevista antes do Super Bowl na Fox News, em 2 de fevereiro, Trump disse: “nós praticamente o fechamos de vir da China”.

Dois dias depois, durante seu discurso do Estado da União, Trump fez apenas uma breve referência ao vírus, prometendo “meu governo vai tomar todas as medidas necessárias para resguardar nossos cidadãos dessa ameaça”. 

Questionado por Woodward em maio se ele lembrava do alerta dado por O’Brien em 28 de janeiro, dizendo que o vírus seria a maior ameaça à segurança nacional durante o seu mandato, Trump negou. “Não, eu não lembro”, disse. “Eu tenho certeza que ele disse. Você sabe, tenho certeza que ele disse. É um cara legal”. 

O livro destaca como o presidente tomou todo o crédito e nenhuma responsabilidade nas ações relacionadas à pandemia, que infectou mais de 6 milhões e matou mais de 185 mil nos Estados Unidos.

“O vírus não tem nada a ver comigo”, disse Trump a Woodward em sua última entrevista em julho. “Não é minha culpa. A China que deixou o maldito vírus escapar”. 

‘Vai pelo ar’

O jornalista Bob Woodward conversa com o presidente dos EUA, Donald Trump
O jornalista Bob Woodward conversa com o presidente dos EUA, Donald Trump, conselheiros e o vice Mike Pence no Gabinete Oval, na Casa Branca
Foto: White House Photo (9.set.2020)

Quando Woodward falou com Trump em 7 de fevereiro, dois dias após ele ser absolvido do processo de impeachment no Senado, Woodward esperava uma longa conversa sobre o julgamento. Ele foi surpreendido, no entanto, pelo foco do presidente no vírus. 

Ao mesmo tempo que Trump e as autoridades de saúde pública estavam dizendo que o vírus era de “baixo risco”, Trump disse a Woodward que havia conversado na noite anterior com Xi Jinping sobre o vírus. Woodward cita Trump dizendo: “temos um contratempo interessante com o vírus circulando na China”. 

“Vai pelo ar”, disse Trump. “Isso é sempre mais difícil do que pelo toque. Você não tem que tocar as coisas, certo? Mas pelo ar, você só respira esse ar e é assim que passa. Então esse [vírus] é complicado, delicado. É também mais mortal que as gripes mais extenuantes”. 

Mas Trump passou a maior parte do próximo mês dizendo que o vírus estava “bastante sob controle” e que os casos nos EUA iriam “desaparecer”.

O presidentes dos EUA disse em uma viagem à Índia em 25 de fevereiro que esse era “um problema que iria embora”, e no dia seguinte, previu o andamento dos casos nos EUA. “Dentro de alguns dias vai reduzir a zero”. 

Em 19 de março, quando Trump disse a Woodward que estava minimizando propositalmente os riscos para evitar criar pânico, ele também reconheceu a ameaça a pessoas jovens.

“Só hoje e ontem, uns fatos surpreendentes apareceram. E não são só velhos, mais velhos. Pessoas jovens também, um monte de pessoas jovens”, disse. 

Publicamente, no entanto, Trump continuou a insistir o oposto, dizendo até 5 de agosto que crianças eram “quase imunes”. 

Até em abril, quando os EUA se tornaram o país com o maior número de casos confirmados em todo o mundo, as declarações públicas de Trump contrariam suas admissões a Woodward.

Em uma reunião da força-tarefa contra o novo coronavírus em 3 de abril, Trump ainda estava minimizando o vírus e dizendo que ele iria embora. “Eu disse que iria embora e está indo embora”, disse. 

Ainda assim, dois dias depois, em 5 de abril, Trump disse a Woodward novamente, “É uma coisa horrível, é inacreditável”, e, em 13 de abril, disse: “é transmitido tão facilmente, você não acreditaria”. 

‘Dinamite atrás da porta’

‘Rage’ é a sequência do best-seller de Woodward de 2018 ‘Fear’ (‘Medo’, publicado no Brasil pela editora Todavia), que retratava uma Casa Branca caótica em que assistentes escondiam papéis de Trump para proteger o país do que viam como os impulsos mais perigosos dele. 

Enquanto Trump criticou ‘Fear’, ele também reclamou que não falou com Woodward para o livro, o que resultou na concordância em ceder entrevistas longas para ‘Rage’. 

De qualquer modo, em 14 de agosto, Trump atacou o novo livro de Woodward, tweetando “O livro de Bob Woodward será FALSO, como sempre, assim como vários dos outros foram”. 

Ao longo da publicação, Trump oferece insights sobre sua visão da presidência. Ele disse a Woodward que quando se dirige um país “há dinamite atrás de todas as portas”. 

Após as 18 entrevistas, Woodward dá um veredicto dramático: Trump é a “dinamite atrás da porta”. Woodward conclui o livro com uma declaração que “Trump é o homem errado para esse trabalho”.  

“Traição”, disse Biden

Nesta quarta-feira (9), o candidato democrata à presidência, Joe Biden, acusou o presidente Donald Trump de trair o povo norte-americano, por ele ter mentido conscientemente sobre a letalidade do novo coronavírus, o que equivalia a um “abandono” de seu dever.

Com semanas restantes até a eleição presidencial de 3 de novembro, as notícias sobre os comentários de Trump novamente chamaram a atenção para os esforços – ou falta deles – do presidente republicano para combater a COVID-19, que os democratas dizem ter sido um pouco tarde demais.

“Ele sabia e minimizou de propósito. Pior, ele mentiu para o povo americano”, disse Biden em um discurso em Michigan.

Biden visitava o estado de batalha, lar da indústria automobilística dos EUA, para promover uma nova proposta para taxar empresas que transferem empregos dos EUA para o exterior.

“E enquanto esta doença mortal atingiu nossa nação, ele falhou em fazer seu trabalho de propósito. Foi uma traição de vida ou morte ao povo americano”, disse Biden.

“É um abandono do dever, uma desgraça”, disse ele.

Biden e Trump estão acelerando as viagens no sprint final para a eleição durante uma pandemia de coronavírus que tornou a campanha tradicional praticamente impossível.

Os Estados Unidos sofreram o maior número de mortes por coronavírus do mundo. As mortes chegaram a 190.000 nesta quarta-feira, junto com um aumento em novos casos no meio-oeste, com estados como Iowa e Dakota do Sul emergindo como os novos pontos de acesso nas últimas semanas.

(Texto traduzido, leia o original em inglês)

(Com Reuters)

 

 

Mais Recentes da CNN