Enquanto relações com o Ocidente se deterioram, Putin e Xi Jinping se aproximam

Líderes vão se encontrar na abertura das Olimpíadas de Inverno e devem reforçar “panelinha” contra opiniões do Oriente

Simone McCarthy, da CNN
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Quando o presidente chinês Xi Jinping receber líderes de todo o mundo para a cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de Pequim na sexta-feira (4), será a primeira vez que ele se encontrará pessoalmente com colegas estrangeiros em mais de 400 dias. E no topo de sua lista de convidados está o presidente russo Vladimir Putin.

Uma cúpula entre os dois líderes, prevista para o dia da cerimônia de abertura, ocorre em um momento crucial para ambos os lados, já que a concentração de tropas russas na fronteira com a Ucrânia alimenta temores de uma invasão iminente - um acontecimento que certamente ofuscará o momento olímpico da China.

O encontro presencial também adicionará um novo marco no que se tornou uma parceria cada vez mais estreita entre Pequim e Moscou, à medida que as relações com o Ocidente se deterioram para ambos.

Putin está entre um pequeno grupo de líderes mundiais a participar dos Jogos, com governos ocidentais, incluindo os Estados Unidos, Grã-Bretanha e Austrália, declarando um boicote diplomático devido ao histórico sobre os direitos humanos da China. Outros líderes recusaram convites, citando os rigorosos controles Pequim em relação à Covid-19.

Isso significa que Pequim 2022 fará um nítido contraste com os Jogos de Verão de 2008 da cidade, quando o então presidente dos EUA, George Bush, e outros líderes ocidentais foram fotografados dando boas-vindas a autoridades chinesas enquanto torciam por suas seleções nacionais.

Em vez disso, esta Olimpíada deve destacar o espaço que surgiu entre a China e o Ocidente durante os últimos anos, enquanto a cúpula – tendo Putin como destaque em uma lista de dignitários visitantes publicada pelo Ministério das Relações Exteriores da China - aponta para a proximidade entre as duas potências vizinhas.

A pergunta que está sendo feita por muitos no Ocidente é se esses Jogos Olímpicos verão uma repetição do que aconteceu durante a última vez que Pequim sediou uma Olimpíada, quando a Rússia invadiu um antigo estado soviético diferente, a Geórgia. E à medida que as tensões continuam a crescer na fronteira com a Ucrânia, todos os olhos estarão em Putin.

“É um momento muito dramático no confronto da Rússia com o Ocidente e, de certa forma, no confronto da China com o Ocidente”, disse Alexander Gabuev, membro sênior e presidente do Programa Rússia no Ásia-Pacífico do Carnegie Moscow Center.

O fato de representar o primeiro encontro pessoal entre os dois líderes em mais de dois anos serve apenas para enfatizar seu significado.

Xi Jinping não deixa a China desde janeiro de 2020, confiando na “diplomacia da nuvem”, fazendo discursos em grandes eventos internacionais e encontrando líderes estrangeiros por meio de vídeo. Ele não hospedou um dignitário estrangeiro durante todo o ano de 2021, pois a China manteve as fronteiras fechadas e sua política de “Covid zero”.

Em suas últimas reuniões presenciais conhecidas, Xi deu as boas-vindas ao rei cambojano Norodom Sihamoni em Pequim, em novembro de 2020 e, antes disso, conversou com o presidente paquistanês Arif Alvi, em março daquele ano.

Nova aliança?

Tudo isso acontece em um momento em que Pequim e Moscou vêm aprimorando sua parceria em comércio, tecnologia e coordenação de exercícios militares, ao mesmo tempo em que se tornam cada vez mais vocais sobre como sua cooperação pode retroceder em uma ordem mundial ocidental dominada pelo que a China chamou de “alianças e pequenas panelinhas”.

Em uma videochamada com Putin em dezembro, Xi Jinping pediu que a China e a Rússia “intensifiquem a coordenação e a colaboração nos assuntos internacionais” e rejeitem “atos hegemônicos e a mentalidade da Guerra Fria”.

Embora os analistas digam que Pequim provavelmente manterá um tom amplamente ambivalente e pedirá paz quanto tratar de futuras ações russas sobre a Ucrânia, a China já demonstrou simpatia pela mensagem de Moscou à Otan - que pede garantias de segurança para limitar a presença da organização ao longo da fronteira russa.

Em um telefonema entre o ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, e o secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, na semana passada, Wang pediu que as “preocupações legítimas de segurança da Rússia” sejam levadas a sério.

Rússia e China têm uma longa história de apoio mútuo contra o que consideram interferência ocidental em seus assuntos domésticos, rechaçando as sanções lideradas pelos EUA e muitas vezes votando em bloco na ONU.

Na segunda-feira (31), a China foi o único membro do Conselho de Segurança das Nações Unidas a votar ao lado da Rússia para dispersar uma reunião do conselho convocada pelos EUA para discutir o aumento da presença militar da Rússia na fronteira ucraniana - um apelo que o país do leste europeu disse ser dos EUA “provocando histeria”.

As potências vizinhas se aproximaram ao longo do tempo por seus laços econômicos, a necessidade de segurança ao longo de suas fronteiras de mais de 4 mil quilômetros, bem como semelhanças na natureza de seus regimes, segundo Gabuev.

Mas o “ingrediente secreto” do estreitamento dos laços nos últimos anos tem sido os confrontos simultâneos com Washington, disse ele.

“Para a Rússia [as relações com os EUA] foram de mal a pior [...] e com a China vimos uma política consistente dos EUA para competir com os chineses”, disse Gabuev.
O ano de 2021 foi marcante para as relações sino-russas, pois os dois lados renovaram um tratado de cooperação amistosa de 20 anos, acumularam um recorde de US$ 146 bilhões (cerca de R$ 770 bilhões) em comércio bilateral e declararam que suas relações atingiram “o nível mais alto” da história.

Eles também procuraram reforçar a coordenação de exercícios militares, realizando uma ação conjunta em larga escala no norte da China e a primeira patrulha naval conjunta China-Rússia no Pacífico ocidental.

No entanto, esses laços ainda estão muito longe de uma aliança militar formal e ambos evitaram se envolver diretamente nos conflitos potenciais do outro, dizem os especialistas - algo que provavelmente será o caso nas últimas tensões.

“Embora seja provável que Pequim mostre compreensão dos pedidos de segurança da Rússia à Otan e aos EUA e se oponha às provocações e sanções do Ocidente, não tem interesse real em se envolver nos conflitos da Rússia com a Otan”, disse Anna Kireeva, professora-associada do Instituto Estatal de Relações Internacionais de Moscou. “Os formuladores de políticas em Moscou estão bem cientes dessa posição”.

Mas o conflito na Europa, sem dúvida, serviria para fortalecer os laços, especialmente se a Rússia fosse golpeada com sanções ocidentais profundas, aumentando a dependência econômica de Moscou em relação à China. Pequim também pode se beneficiar com um desvio do foco dos EUA para longe da competição com a China, dizem analistas.

A amizade Putin-Xi

A reunião de sexta-feira antes dos Jogos também pode mostrar outro lado da dinâmica China-Rússia: o relacionamento pessoal próximo entre os dois líderes.

Isso foi mostrado na preparação para a cúpula, com Xi em dezembro chamando Putin de seu “velho amigo” e dizendo que estava “muito ansioso” pelo encontro olímpico.

“Apesar de todas as questões estruturais que tornam a relação China-Rússia uma parceria estratégica complexa e difícil, Xi Jinping e Vladimir Putin são muito mais cooperativos entre si em comparação com pares de líderes das duas nações no passado recente”, disse Steve Tsang, diretor do SOAS China Institute, da Universidade de Londres.

“Há um elemento de química pessoal em termos de ambos serem líderes fortes, e cada um aprecia o outro pelo que eles conseguiram fazer”, disse Tsang.

Putin informará seu colega chinês sobre as negociações da Rússia com os Estados Unidos e a Otan, disse a mídia estatal russa no mês passado, enquanto os dois devem se concentrar no fortalecimento da cooperação em várias áreas.

Essa reunião presencial proporcionará uma oportunidade de “energizar” seus laços bilaterais, de acordo com Yu Bin, professor de ciência política da Universidade de Wittenberg, em Ohio, e membro sênior do Centro de Estudos Russos da Universidade Normal da China Oriental, em Xangai.

“No nível pessoal, não se esqueça que tanto Putin quanto Xi são fãs de vários esportes. Eles vão curtir as Olimpíadas enquanto falam sobre questões mundiais”, disse ele, acrescentando que a China pode não acreditar que uma possível invasão, conforme descrito pelos governos ocidentais, é iminente.

Mas questões profundas sobre o que pode acontecer com o conflito da Rússia com o Ocidente e na Ucrânia certamente irão pairar sobre a reunião.

A ONU endossou no mês passado a costumeira “Trégua Olímpica” - um cessar-fogo durante os Jogos, embora a invasão da Geórgia pela Rússia, bem como as tropas russas que tomaram a região da Crimeia, na Ucrânia, logo após as Olimpíadas de Inverno da Rússia em Sochi, se destaquem na memória recente.

Mas hoje, dado o relacionamento dos países, Putin pode agir com mais leveza, de acordo com Gabuev, do Carnegie Moscow Center.

“Meu palpite é que a Rússia está apreensiva com as sensibilidades da China quando se trata da cerimônia de abertura e talvez de alguma parte das Olimpíadas”, disse ele.
“A Rússia quer dar destaque suficiente na mídia e também não quer roubar a atenção da reunião entre Putin e Xi Jinping [... o que reforça a mensagem de que] mesmo que as sanções aconteçam, a Rússia não está sozinha, mas sim terá parceria com outra superpotência global”.

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