Entenda a posição “conjunta” de países africanos que não apoiaram resolução contra Rússia

Número de abstenções registradas por nações da África surpreendeu diplomatas; alegações de racismo e tratamento diferenciado a europeus ajudam a explicar movimento

Grande parte das abstenções em votação da resolução que criticou invasão russa à Ucrânia foi de países africanos
Grande parte das abstenções em votação da resolução que criticou invasão russa à Ucrânia foi de países africanos Foto: Kena Betancur/Pool via REUTERS

Vinícius Tadeuda CNN

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Na reunião da Assembleia-Geral das Nações Unidas (ONU) em que foi aprovada uma resolução condenando a Rússia pela invasão contra a Ucrânia, um aspecto chamou a atenção do ponto de vista diplomático: diversos países africanos se abstiveram de votar e marcar posição sobre o documento que pediu fim às hostilidades no Leste Europeu.

Para a aprovação acontecer, foi preciso chegar a uma maioria formada por dois terços dos participantes. O Brasil foi um dos 141 países que votaram a favor. Também foram registrados cinco votos contrários e 35 abstenções.

Entre os países que se abstiveram, 17 deles são africanos. A Eritreia, inclusive, se aliou à Rússia e votou contra a resolução aprovada pela ampla maioria dos países presentes no encontro da ONU. Também foram contrários Belarus, Coreia do Norte e Síria.

As nações africanas que se abstiveram foram: Argélia, Angola, Burundi, República Centro-Africana, Congo, Guiné-Equatorial, Madagascar, Mali, Moçambique, Namíbia, Senegal, África do Sul, Sudão do Sul, Sudão, Uganda, Tanzânia e Zimbábue.

Durante pronunciamento na Assembleia Geral, a Eritreia disse que acredita que a integridade territorial deve ser respeitada por todos os países, mas justificou o voto dizendo ser contrária a “internacionalização do território e imposição de sanções unilaterais que podem escalar a situação e deploram o diálogo internacional”.

O embaixador do país ainda afirmou que africanos estão enfrentando problemas para sair da Ucrânia, algo que foi relatado anteriormente, e reiterou querer “ver que as portas da diplomacia continuam abertas”.

As alegações de racismo e de tratamento diferenciado entre refugiados europeus e africanos podem ajudar a explicar o movimento “coordenado” de rejeição à resolução contra a invasão russa.

Racismo nas fronteiras

Desde que a Rússia invadiu o território da Ucrânia, na madrugada do dia 24 de fevereiro, países vizinhos na região têm lidado com um fluxo intenso de refugiados fugindo do conflito. Além de ucranianos, milhares de africanos e outros estrangeiros, principalmente estudantes, estão lutando para deixar o país.

O tratamento aos diferentes refugiados, contudo, parece ser diferente. Diversos casos de discriminação racial estão sendo registrados nas fronteiras europeias, inclusive com relatos de que cidadãos africanos fugindo do conflito estão tendo acesso negado para buscar segurança.

Buchizya Mseteka, porta-voz da Acnur, a agência da ONU para refugiados, afirmou ter recebido depoimentos de africanos sendo impedidos de embarcar em trens que levam pessoas para países vizinhos e de outros sendo proibidos de atravessarem as fronteiras.

A União Africana (UA) também disse estar perturbada por relatos de que os cidadãos africanos na Ucrânia estão sendo tratados de maneira discriminatória, sendo obrigados a ficar nas estações de trens por não terem o embarque permitido, sendo colocados no fim da fila e tendo o direito de cruzar as fronteiras em segurança negado.

Os casos de racismo chegaram até as autoridades e o ministro de Relações Exteriores da Ucrânia, Dmytro Kuleba, anunciou a criação de uma linha de emergência para estudantes africanos, asiáticos e outros estrangeiros que desejam deixar o país.

Kuleba disse que os refugiados devem ter “oportunidades iguais” para retornar aos seus países de origem com segurança.

A chancelaria do primeiro-ministro da Polônia também afirmou que o país “oferece abrigo a todos que fogem da agressão russa contra a Ucrânia, independentemente de sua nacionalidade e etnia”.

Reação de países africanos na ONU

Diante da mobilização, os representantes das nações africanas fizeram questão de levar o debate sobre o racismo entre os refugiados para dentro das Nações Unidas.

Durante a reunião do Conselho de Segurança da ONU na última segunda-feira (28), os três países da África que fazem parte do colegiado –Quênia, Gabão e Gana– foram incisivos ao condenar a discriminação contra seus cidadãos.

“Os maus-tratos aos povos africanos nas fronteiras da Europa precisam cessar imediatamente, seja para os africanos que fogem da Ucrânia ou para aqueles que cruzam o Mediterrâneo”, disse o embaixador queniano na ONU, Martin Kimani.

Na reunião em caráter emergencial da Assembleia-Geral que marcou a votação, o tom contundente adotado por embaixadores africanos foi o mesmo. A representante da África do Sul, Mathu Joyini, reforçou que “todas as pessoas têm o direito de cruzar as fronteiras internacionais em tempo de conflito”.

Além disso, a embaixadora criticou o tratamento diferenciado dado a conflitos na Europa comparado aos que ocorrem no continente africano. “É necessário que dediquemos igual atenção a outros conflitos de longa data em que a Carta das Nações Unidas e os direitos humanos estão sendo violados”, disse ela.

Durante as manifestações dos países que decidiram se pronunciar, houve diversas denúncias de que outros conflitos em que há a morte de muitas pessoas não recebem a mesma atenção que a guerra na Ucrânia está recebendo.

O embaixador do Gabão, Michel Xavier Bang, complementou: “dizemos não ao racismo e exigimos respeito pela dignidade humana”.

De acordo com estimativas da ONU, mais de 4 milhões de pessoas podem deixar a Ucrânia em decorrência dos conflitos com as tropas russas no país.

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