Entenda como as guerras na Ucrânia e no Irã cruzaram caminhos após ataque
Teerã convocou o encarregado de negócios ucraniano e declarou que o "aventureirismo perigoso" de Kiev "não ficará sem resposta"

O Mar Cáspio tornou-se a mais recente região a ser envolvida no crescente conflito entre o Irã e seus adversários, principalmente por ser uma rota estratégica na aproximação entre Irã e Rússia.
A Ucrânia afirmou no fim de semana que seus drones atingiram duas embarcações russas que transportavam cargas militares no Cáspio, a maior massa de água interior do mundo. Segundo Kiev, ambos os navios haviam partido do Irã com destino a um porto russo.
Em uma publicação no X, no sábado (25), o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, disse que os alvos incluíam "navios envolvidos no transporte de cargas militares do Irã, além de um navio de guerra", posteriormente identificado pelo serviço de segurança ucraniano como uma lancha lança-mísseis da Rússia.
O Irã, por sua vez, afirmou que uma de suas embarcações comerciais, que transportava uma carga de ferro, foi atingida, deixando um marinheiro morto e outros três feridos.
O navio, cujo nome não foi divulgado, navegava do porto russo de Astracã para Anzali, no Irã. O governador da província iraniana de Guilão, Hadi Hagh-Shenas, descreveu a rota como "um corredor seguro e confiável para as trocas comerciais entre os dois portos".
As tensões aumentaram ainda mais na segunda-feira, quando o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmail Baghaei, declarou que "o perigoso aventureirismo da Ucrânia certamente não ficará sem resposta".
Enquanto isso, o encarregado de negócios da Ucrânia em Teerã foi convocado pelo Ministério das Relações Exteriores iraniano para prestar esclarecimentos sobre o incidente.
Onde fica o Mar Cáspio?
As acusações mútuas refletem a crescente importância do Mar Cáspio, banhado por cinco países, entre eles Irã e Rússia. Com o bloqueio dos portos iranianos no Golfo Pérsico e no Golfo de Omã, o Cáspio ganhou ainda mais relevância como rota comercial.
Segundo Bijan Khajehpour, sócio-gerente da consultoria Eurasian Nexus Partners, sediada em Viena, o Cáspio pode ajudar o Irã a adotar "uma estratégia comercial mais diversificada, especialmente se ampliar o comércio com a Rússia, o Cáucaso, a Ásia Central, a China por via ferroviária e, indiretamente, o Leste Europeu".
"Trata-se de um complemento estratégico, e não de um substituto, ao acesso marítimo que o Irã já possui pelas águas do sul", afirmou Khajehpour à CNN.
Entre as cargas transportadas pelo Mar Cáspio estão grãos e aço russos. O Irã desenvolveu vários portos importantes na região, entre eles o de Anzali. Já o petróleo e o gás do Cazaquistão são levados pelo Cáspio até um terminal no Mar Negro.
Para a Rússia, o Mar Cáspio é um corredor estratégico de ligação com a Ásia Central e o Irã, além de ser uma rota essencial para sua parceria cada vez mais estreita com Teerã. Essa cooperação inclui tanto a área militar quanto a participação russa no programa nuclear civil iraniano e na exploração de petróleo no país.
"O recente bloqueio dos Estados Unidos aos portos iranianos reforçou o valor estratégico da rota pelo Mar Cáspio", disse Khajehpour. Segundo ele, a via também é menos vulnerável às sanções internacionais por se tratar de um mar fechado, controlado em grande parte por Irã, Rússia e outros países vizinhos, fora do alcance das forças navais ocidentais.
Por que o Mar Cáspio é tão valioso para a Rússia e para o Irã?
O Mar Cáspio também se tornou uma importante rota para o fortalecimento dos laços militares entre Moscou e Teerã. Irã e Rússia mantêm um amplo acordo estratégico que abrange cooperação econômica e militar, embora não se trate de um pacto de defesa mútua.
Nos primeiros meses da guerra na Ucrânia, a Rússia recebeu pelo Mar Cáspio os primeiros lotes de drones de ataque Shahed, fabricados pelo Irã. Desde então, passou a produzir versões desses equipamentos em fábricas instaladas em território russo.
A rota que liga os portos do norte do Irã ao porto russo de Astracã já havia sido alvo da Ucrânia anteriormente. Em agosto do ano passado, o navio cargueiro Port Olya 4 foi destruído enquanto, segundo relatos, transportava componentes de drones Shahed-136 e munições iranianas.
Em 2024, a CNN informou que um cargueiro russo suspeito de transportar mísseis balísticos iranianos destinados ao esforço de guerra de Moscou na Ucrânia foi visto em um porto russo no Mar Cáspio. O Departamento do Tesouro dos Estados Unidos avaliou que o Ministério da Defesa da Rússia utilizou o navio Port Olya-3 para transportar mísseis balísticos de curto alcance (CRBMs) do Irã para a Rússia.
Na época, o então secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, afirmou que Washington acreditava que as Forças Armadas russas haviam recebido carregamentos de mísseis balísticos iranianos Fatah-360 e que eles "provavelmente seriam usados em poucas semanas na Ucrânia contra os ucranianos".
Ao mesmo tempo, o Conselho de Segurança Nacional dos Estados Unidos alertou para o aprofundamento da cooperação militar entre Irã e Rússia.
O porta-voz Sean Savett disse à CNN, na ocasião, que "qualquer transferência de mísseis balísticos iranianos para a Rússia representaria uma escalada dramática no apoio do Irã" ao Kremlin em sua invasão da Ucrânia.
Na época, o Irã negou que estivesse fornecendo assistência militar à Rússia.
O que a Ucrânia espera conseguir com os ataques?
Os ataques de drones da Ucrânia contra embarcações e infraestrutura energética no Mar Cáspio no fim de semana demonstram o avanço de sua capacidade de realizar operações de longo alcance e seu objetivo de atingir setores que sustentam o esforço de guerra da Rússia.
As ações também refletem o reconhecimento de que o Irã, assim como a Coreia do Norte, desempenha um papel importante no fornecimento de armamentos para Moscou.
Acima de tudo, porém, os ataques foram realizados em um momento considerado estratégico pelos ucranianos, já que o presidente Volodymyr Zelensky viaja nesta semana a Washington para se reunir com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Além das ofensivas no Mar Cáspio, Zelensky afirmou que, segundo a inteligência ucraniana, a Rússia forneceu dados de satélite ao Irã para ajudar na realização de ataques contra instalações dos Estados Unidos no Oriente Médio.
A mensagem de Kiev é clara: estamos do mesmo lado.



