Entenda como será escolhido o próximo chefe da ONU e quem está na disputa
Chile, Brasil e México apresentaram conjuntamente a candidatura da ex-presidente chilena Michelle Bachelet; aumenta a pressão para organização escolher primeira secretária-geral mulher em 80 anos de história

A ONU (Organização das Nações Unidos) elegerá neste ano um novo secretário-geral para um mandato de cinco anos, com início em 1º de janeiro de 2027.
A presidente da Assembleia Geral, composta por 193 membros, Annalena Baerbock, pediu aos países que indiquem candidatos até 1º de abril, para que possam participar dos chamados diálogos interativos na semana de 20 de abril, que serão transmitidos online.
Nessas reuniões, os candidatos poderão apresentar sua visão sobre temas-chave e os Estados-membros da ONU poderão fazer perguntas.
Aqui estão os candidatos – e potenciais candidatos – até o momento, além de detalhes sobre como será escolhido o sucessor do atual secretário-geral da ONU, António Guterres.
Quando o processo começa?
A corrida começou formalmente quando o presidente do Conselho de Segurança, composto por 15 membros, e a presidente da Assembleia Geral, composta por 193 membros, enviaram uma carta conjunta solicitando indicações em 25 de novembro.
O candidato precisa ser indicado por um Estado-membro da ONU.
Tradicionalmente, o cargo é rotativo entre regiões, mas quando Guterres – que é português – foi eleito em 2016, esperava-se que fosse a vez da Europa Oriental.
A próxima na lista é a América Latina; no entanto, alguns diplomatas esperam candidatos de outras regiões.
Quem quer ser o próximo secretário-geral?
Até o momento, apenas um candidato foi formalmente indicado para o cargo:
Rafael Grossi (Argentina)

Questionado pela Reuters em 3 de setembro, Grossi afirmou que definitivamente iria se candidatar, dizendo: "Sim, vou fazer isso, sim."
Diplomata argentino veterano, Grossi é diretor-geral da AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica), cargo que ocupa desde 2019. A Argentina o nomeou formalmente em 26 de novembro de 2025.
Michelle Bachelet (Chile, Brasil e México)

O Chile indicou, em conjunto com Brasil e México, a ex-presidente do país, Michelle Bachelet.
“Nesta nomeação não estamos sozinhos, a candidatura que foi inscrita na ONU é apresentada conjuntamente com os países irmãos Brasil e México, os dois países mais povoados da América Latina”, disse Boric.
“Essa candidatura expressa uma esperança compartilhada de que a América Latina e o Caribe façam sua voz ser escutada na construção de soluções coletivas para os tremendos desafios do nosso tempo”, disse.
Lula, que defendeu em reiteradas ocasiões o desejo de que a próxima liderança da ONU fosse de uma mulher latino-americana, afirmou na rede social X que o apoio à candidatura de Bachelet é uma “honra”.
Bachelet foi a primeira mulher a chefiar o Estado chileno e ocupou a presidência da nação sul-americana por duas vezes. Ela também foi Alta Comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos entre 2018 e 2022 e diretora-executiva da ONU Mulheres entre 2010 e 2013.
Rebeca Grynspan (Costa Rica)

A Costa Rica indicou que vai formalizar apoio à candidatura da ex-vice-presidente Rebeca Grynspan. O anúncio foi feito pelo presidente Rodrigo Chávez em 8 de outubro do ano passado.
Grynspan, política e economista, atualmente ocupa o cargo de secretária-geral da UNCTAD (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento).
Ela defende que governos ao redor do mundo aumentem a proteção social por meio de "suporte focado" em grupos vulneráveis.
Como é o processo?
O Conselho de Segurança, composto por 15 membros, recomendará formalmente um candidato à Assembleia Geral, composta por 193 membros, para a eleição do 10º secretário-geral da ONU ainda este ano.
O Conselho de Segurança realizará votações secretas – também conhecidas como votação informal – até que se chegue a um consenso sobre um candidato.
As opções oferecidas aos membros do conselho para cada candidato na votação informal são: apoiar, desaconselhar ou não ter opinião.
Em última análise, os cinco membros permanentes do conselho com poder de veto – Estados Unidos, Rússia, Reino Unido, China e França – devem concordar com um candidato.

Tradicionalmente, as cédulas para os votos relativos ao poder de veto na votação informal são de cor diferente das cédulas dos 10 membros eleitos.
Quando Guterres foi escolhido em 2016 para ser recomendado à Assembleia Geral, foram necessárias seis votações informais para que o Conselho de Segurança chegasse a um consenso.
Em seguida, o Conselho de Segurança adota uma resolução, tradicionalmente a portas fechadas, recomendando uma nomeação à Assembleia Geral. A resolução precisa de nove votos a favor e nenhum veto para ser aprovada.
A aprovação da nomeação de um secretário-geral pela Assembleia Geral tem sido vista há muito tempo como uma mera formalidade.
Quão transparente é o processo?
As Nações Unidas têm trabalhado para melhorar a transparência do processo de seleção, que historicamente tem sido nebuloso.
A Assembleia Geral, em resolução adotada em setembro de 2025, afirmou que cada candidato deve apresentar uma declaração detalhando sua visão sobre temas importantes quando for formalmente nomeado e ter a oportunidade de fazê-lo. A resolução também determinou que a declaração seja divulgada em uma página dedicada do site das Nações Unidas .
A Assembleia afirmou que cada candidato deve divulgar suas fontes de financiamento e que quaisquer candidatos que já ocupem um cargo na ONU “devem considerar a possibilidade de suspender seu trabalho no sistema das Nações Unidas durante a campanha, com o objetivo de evitar qualquer conflito de interesses que possa surgir de suas funções e vantagens adjacentes”.
O que faz o secretário-geral da ONU?
A Carta da ONU chama o secretário-geral de "chefe administrativo" da organização mundial. O site da ONU descreve o cargo como "igualmente diplomata e defensor, funcionário público e diretor executivo".

Guterres supervisiona atualmente milhares de funcionários civis e 11 operações de manutenção da paz. O orçamento anual principal das Nações Unidas é de US$ 3,45 bilhões, enquanto o orçamento para operações de paz é de US$ 5,4 bilhões.
Como o poder de autorizar o uso da força militar ou sanções reside no Conselho de Segurança, o chefe da ONU tem pouco mais do que uma plataforma de influência.
Alguma vez uma mulher ocupou o cargo de Secretária-Geral?
Não. Há uma pressão crescente para que as Nações Unidas escolham a primeira secretária-geral mulher em seus 80 anos de história.
Na resolução adotada em setembro, a Assembleia Geral observou "com pesar que nenhuma mulher jamais ocupou o cargo de Secretária-Geral" e encorajou os países a "considerarem seriamente a nomeação de mulheres como candidatas".


