Entenda mistério de navio que poderia estar com reator nuclear e afundou

Conteúdo Exclusivo: Investigação da CNN aponta que cargueiro da Rússia tinha a Coreia do Norte como possível destino

Nick Paton Walsh, Natalie Wright, Pau Mosquera, Anna Chernova e Zachary Cohen, da CNN
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Um navio cargueiro russo, provavelmente transportando dois reatores nucleares para submarinos, possivelmente destinados à Coreia do Norte, sofreu uma série de explosões e afundou em circunstâncias inexplicáveis, a cerca de 96 quilômetros da costa da Espanha, apontou uma investigação da CNN.

O extraordinário destino do Ursa Major está envolto em segredo desde que afundou em 23 de dezembro de 2024. Mas pode marcar uma rara e arriscada intervenção militar ocidental para impedir que a Rússia envie uma atualização tecnológica nuclear para um aliado fundamental, a Coreia do Norte, sugere a reportagem da CNN.

O navio zarpou apenas dois meses depois de Kim Jong-un ter enviado tropas para auxiliar na invasão da Ucrânia por Moscou.

Uma série de atividades militares recentes em torno de seus destroços aprofundou o mistério em torno de sua carga e destino. Aeronaves americanas de detecção nuclear sobrevoaram o navio afundado duas vezes no último ano, segundo dados de voos públicos.

 

Os destroços também foram visitados uma semana após o naufrágio por um suposto navio espião russo, que provocou mais quatro explosões, segundo uma fonte familiarizada com a investigação espanhola sobre o incidente.

O governo espanhol pouco se pronunciou, divulgando um comunicado apenas em 23 de fevereiro, após pressão de parlamentares da oposição.

Confirmou que o capitão russo do navio havia declarado aos investigadores espanhóis que o Ursa Major transportava “componentes para dois reatores nucleares semelhantes aos usados ​​em submarinos” e que não tinha certeza se continham combustível nuclear.

A sequência de eventos que levou o Ursa Major a afundar no Mar Mediterrâneo permanece obscura. Segundo a investigação espanhola, conforme descrito pela fonte familiarizada com o conteúdo do caso, o incidente pode ter envolvido o uso de um tipo raro de torpedo para perfurar o casco do navio.

O caso ocorreu nas últimas semanas da presidência de Joe Biden, quando a guerra na Ucrânia atingia seu ápice favorável à Rússia e havia um forte desejo dos Estados Unidos de evitar uma escalada direta com Moscou.

O Ursa Major, também conhecido como Sparta 3 e veterano da campanha militar russa na Síria – onde foi usado para retirar equipamentos russos – atracou no porto de Ust-Luga, no Golfo da Finlândia, em 2 de dezembro de 2024, antes de seguir para um terminal de contêineres nos portos de São Petersburgo.

O manifesto público do navio indicava que ele tinha como destino Vladivostok, no Extremo Oriente russo, quando partiu em 11 de dezembro, transportando duas grandes tampas de bueiro, 129 contêineres vazios e dois grandes guindastes Liebherr.

Em outubro daquele ano, a estatal Oboronlogistics, proprietária do navio, afirmou em um comunicado que seus navios possuíam licença para transportar material nuclear.

A embarcação navegou pela costa francesa, antes de aeronaves e embarcações da Marinha portuguesa a rastrearem em suas águas, segundo comunicado da Marinha.

Dois navios militares russos, o Ivan Gren e o Aleksandr Otrakovsky, escoltaram a embarcação e, na manhã de 22 de dezembro, a Marinha portuguesa se juntou à escolta, acrescentou o informe.

Cerca de quatro horas depois, em águas espanholas, o navio reduziu drasticamente a velocidade, levando os socorristas espanhóis a contatá-lo por rádio para verificar se estava em perigo, conforme a investigação do governo espanhol, realizada pelas autoridades marítimas locais no porto de Cartagena, no sul do país.

A tripulação do navio respondeu que estava tudo bem.

Mas cerca de 24 horas depois, o navio desviou bruscamente da rota e, no dia 23 de dezembro, emitiu um pedido urgente de socorro, segundo a investigação.

Ele havia sofrido três explosões em seu lado estibordo, provavelmente perto da casa de máquinas, que mataram dois tripulantes. Isso deixou a embarcação adernada e imóvel, como mostram vídeos do navio nas redes sociais.

Os 14 tripulantes sobreviventes saíram em um bote salva-vidas e foram posteriormente resgatados pelo Salvamar Draco, um barco de resgate espanhol. Às 19h27, um navio militar espanhol chegou para prestar auxílio.

Mas meia hora depois, um dos navios militares russos que escoltavam o Ursa Major, o Ivan Gren, ordenou que as embarcações próximas mantivessem uma distância de duas milhas náuticas e, mais tarde, solicitou o retorno imediato da tripulação resgatada.

As autoridades marítimas espanholas insistiram que era necessário realizar uma operação de resgate e enviaram um helicóptero ao navio para verificar se havia sobreviventes.

Imagens vistas pela CNN mostram um socorrista tentando entrar na casa de máquinas do navio, mas encontrando-a lacrada. O socorrista espanhol verifica os alojamentos em busca de sobreviventes e observa dentro dos contêineres do navio, encontrando dois deles cheios de lixo, redes de pesca e outros equipamentos, conforme o vídeo.

Segundo uma fonte familiarizada com a investigação, o Ursa Major parecia estável e com pouca probabilidade de afundar em breve.

Mas, às 21h50, o navio Ivan Gren lançou uma série de sinalizadores vermelhos sobre a área, seguidos por quatro explosões. Quatro assinaturas sísmicas semelhantes foram registradas naquele exato momento, naquela área aproximada, com um padrão que lembrava minas subaquáticas ou explosões em pedreiras na superfície, informou a Rede Sísmica Nacional Espanhola à CNN.

Às 23h10, foi relatado o afundamento do Ursa Major, conforme a fonte familiarizada com a investigação espanhola.

Os 14 sobreviventes russos foram levados para terra firme na cidade portuária de Cartagena, onde foram interrogados pela polícia e investigadores espanhóis.

O capitão russo mostrou-se relutante em falar sobre o suposto conteúdo do navio, temendo por sua segurança, segundo comunicado do governo espanhol a parlamentares da oposição.

A fonte familiarizada com a investigação disse que o capitão russo, identificado como Igor Anisimov, acreditava que seria desviado para o porto norte-coreano de Rason para entregar os dois reatores.

A investigação espanhola analisa a escolha improvável de uma viagem de barco ao redor do mundo para entregar uma carga composta por dois guindastes, 100 contêineres vazios e duas grandes tampas de bueiro, navegando de um porto russo para outro, apesar da extensa rede ferroviária que atravessa o país.

A investigação sugere que os guindastes estavam a bordo para auxiliar na entrega de uma carga sensível na chegada a Rason.

Uma semana depois, segundo a fonte familiarizada com a investigação, os militares russos retornaram ao local. O Yantar – oficialmente um navio de pesquisa russo, mas acusado de espionagem e perturbação em águas da Otan (Organização do Atlântico Norte) – permaneceu sobre os destroços do Ursa Major por cinco dias, informou a fonte, antes que mais quatro explosões fossem detectadas, possivelmente visando os restos do navio no fundo do mar.

Dados de rastreamento marítimo da empresa de inteligência comercial Kpler mostram que o Yantar esteve na área em janeiro do ano passado, ancorando no Egito e depois na Argélia, e enviando um sinal de localização a 20 km da última posição do Ursa Major em 15 de janeiro.

Evidências cruciais no fundo do mar Mediterrâneo

Alguns detalhes da investigação espanhola sobre o incidente foram divulgados inicialmente pelo jornal local de Cartagena, La Verdad, em dezembro, provocando uma série de questionamentos por parte de parlamentares da oposição espanhola.

O deputado Juan Antonio Rojas Manrique declarou à CNN: “Quando alguém não fornece de forma clara e completa as informações solicitadas, você, no mínimo, suspeita que essa pessoa esteja escondendo algo… é claro.”

Em comunicado aos parlamentares, o governo espanhol afirmou que os destroços do Ursa Major repousam a uma profundidade de cerca de 2.500 metros e que a recuperação de seu gravador de dados a essa profundidade “não é possível sem recursos técnicos significativos e riscos”.

Especialistas questionaram por que o governo considera a operação muito arriscada, visto que não há material radioativo envolvido.

Rojas, ex-capitão da marinha mercante, também expressou ceticismo, declarando à CNN: “Atualmente, as caixas-pretas costumam flutuar até a superfície com um localizador, de modo que possam ser encontradas em caso de acidente. Acredito que alguém esteja com a caixa-preta. Mas não sabemos se foi a Espanha ou se os próprios russos a localizaram”.

As Forças Armadas dos Estados Unidos também demonstraram interesse na área, enviando duas vezes uma aeronave rara e sofisticada de detecção de destroços nucleares, conhecida como WC135-R e baseada no estado de Nebraska, sobre o local do incidente desde o naufrágio do Ursa Major – uma vez em 28 de agosto do ano passado e novamente em 6 de fevereiro deste ano, segundo dados de voo disponíveis publicamente.

Um porta-voz da 55ª Ala, base em Offutt, Nebraska, Kris Pierce, confirmou que a função da aeronave geralmente é "apoiar a coleta e análise de destroços nucleares".

Ele acrescentou: "Não podemos fornecer detalhes adicionais sobre rotas de voo específicas, resultados da missão ou qualquer coordenação com parceiros".

Outra aeronave WC135-R realizou um voo relativamente semelhante 13 meses antes do naufrágio do Ursa Major, sugerindo que o interesse na área pode ter sido anterior ao naufrágio ou ser algo rotineiro.

Não está claro se esses dois voos raros e dispendiosos — realizados por aeronaves geralmente operadas em segredo e usadas para detectar atividade nuclear no Ártico russo ou ao redor do Irã — encontraram quaisquer vestígios de contaminação dos destroços do Ursa Major.

O governo espanhol não deu qualquer indicação de temer a radiação ao longo de sua costa sul, um destino turístico popular, e nenhuma evidência surgiu nesse sentido.

Compartilhamento de segredos nucleares

A alegação de que a Coreia do Norte seria a provável destinatária dos dois reatores supostamente a bordo do navio surge após o regime totalitário e secreto ter divulgado imagens, em dezembro de 2025, de seu primeiro submarino nuclear.

As fotos, que mostram o líder Kim Jong Un sorrindo, revelam apenas o casco selado da embarcação, sem nenhuma evidência de que haja um reator nuclear em funcionamento em seu interior.

Mike Plunkett, analista sênior de plataformas navais da Janes, uma empresa de inteligência de defesa, afirmou ser improvável que os reatores, se novos, tivessem sido enviados com combustível.

"Se esses reatores vieram de submarinos desativados, então eles serão radioativos, embora obviamente não tanto quanto se estivessem totalmente carregados com combustível", afirmou ele.

Qualquer decisão da Rússia de transferir essa tecnologia para a Coreia do Norte não é "tomada de forma leviana e é algo que só acontece entre aliados muito próximos", acrescentou, portanto, se for verdade, "é uma jogada importante de Moscou".

Ele descreveu qualquer desenvolvimento desse tipo como "muito preocupante, potencialmente, particularmente para a Coreia do Sul".

A investigação espanhola, conforme descrita à CNN, destaca o status da Coreia do Norte como aliada estratégica da Rússia e como Pyongyang tem pressionado abertamente Moscou para compartilhar sua expertise técnica nuclear.

É provável que tais demandas tenham aumentado após o envio de pelo menos dez mil soldados norte-coreanos para a Rússia em outubro de 2024 para combater a incursão da Ucrânia na região de Kursk.

A investigação afirma que é provável que os reatores transportados fossem do modelo VM-4SG, frequentemente encontrados em submarinos nucleares russos da classe Delta IV, mas fornece evidências limitadas para sustentar essa alegação.

A CNN obteve imagens de satélite da Vantor do navio Ursa Major atracado na extremidade leste do porto de Ust-Luga, no Golfo da Finlândia, em 4 de dezembro de 2024.

Vídeos em timelapse geolocalizados, publicados na conta dos proprietários do navio, a Oboronlogistics, mostram o carregamento de contêineres e a operação de guindastes no local.

Após o naufrágio, o jornal russo Kommersant noticiou que o Ursa Major transportava guindastes portuários e escotilhas projetadas para cobrir os reatores nucleares de um novo quebra-gelo em construção em Vladivostok. A reportagem não mencionou os dois objetos brancos.

O que causou um buraco no casco do Ursa Major?

A investigação espanhola também aborda o impacto inicial que fez com que o Ursa Major desviasse de sua rota e adernasse, segundo fonte familiarizada com o relatório.

O capitão russo disse aos investigadores que não ouviu nenhum impacto ou explosão em 22 de dezembro, quando seu navio repentinamente diminuiu a velocidade.

Somente 24 horas depois, três explosões ocorreram perto da casa de máquinas, matando dois tripulantes, identificados como o segundo mecânico Nikitin e o mecânico Yakovlev, cujos corpos não foram encontrados.

A investigação sugere que o buraco de 50 cm por 50 cm no casco do Ursa Major provavelmente foi causado por um torpedo supercavitante Barracuda. ​​

Acredita-se que apenas os Estados Unidos, alguns aliados da Otan, a Rússia e o Irã possuam esse tipo de torpedo de alta velocidade, que dispara ar à frente da arma para reduzir o arrasto na água.

Isso permite que eles atinjam velocidades muito altas para perfurar o casco do alvo, sendo que alguns modelos, consequentemente, não utilizam carga explosiva para causar danos.

A fonte familiarizada com a investigação afirmou que a conclusão é que o uso de tal dispositivo seria compatível com o tamanho do buraco no casco do Ursa Major e que poderia ter causado um impacto silencioso, resultando na desaceleração repentina do submarino em 22 de dezembro.

Outros especialistas consultados pela CNN apresentaram opiniões divergentes. Plunkett, analista da Janes, sugeriu que uma mina magnética seria uma explicação mais provável para o tamanho e a localização do buraco.

"Parece um explosivo de carga moldada que foi colocado contra o casco por alguém ou alguma coisa", disse ele.

Os proprietários russos do navio, a Orobonlogistics, e as forças armadas russas, espanholas e britânicas não responderam ao pedido de comentários. O Pentágono também se recusou a comentar.

Diversos oficiais de segurança e inteligência ocidentais contatados pela CNN descreveram o incidente como estranho ou sugeriram que algumas das conclusões da investigação espanhola eram exageradas, mas não forneceram uma explicação alternativa e benigna para as explosões iniciais que atingiram o navio, nem para a reação imediata da Rússia à sua situação.

Os segredos de sua carga e de como ela afundou permanecem no fundo do mar.

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