Entenda onda de protestos de professores no México em meio à Copa do Mundo

Entre as exigências dos docentes, estão a reintegração de um sistema de previdência solidário, aumento salarial e a reintegração de profissionais demitidos

Mauricio Torres, da CNN em Espanhol
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Apenas dois dias antes da abertura da Copa do Mundo na Cidade do México, uma série de protestos liderados por professores ameaça interromper o início do torneio, que o México co-organiza com os Estados Unidos e o Canadá e espera receber um grande número de turistas.

As manifestações vêm ocorrendo há pouco mais de um mês, depois que a CNTE (Coordenação Nacional dos Trabalhadores da Educação) apresentou uma lista de reivindicações ao governo da presidente Claudia Sheinbaum.

A CNTE, grupo dissidente da SNTE (União Nacional dos Trabalhadores da Educação), o maior sindicato de professores do país, afirmou que intensificaria suas atividades caso suas reivindicações não fossem atendidas.

Desde então, o sindicato organizou marchas, bloqueios de ruas, ocupações de pedágios e protestos em frente a alguns prédios públicos, resultando em pichações, danos à propriedade e tensões com a polícia.

Entretanto, o governo Sheinbaum estabeleceu diálogo com os líderes sindicais dos professores, apresentou propostas e defendeu os benefícios concedidos ao sindicato, mas até o momento não se chegou a um acordo entre as partes.

O que os professores reivindicam?

A lista de reivindicações que a CNTE apresentou ao governo em 1º de maio, durante a comemoração do Dia do Trabalho, inclui, entre suas principais demandas, a revogação da lei do ISSSTE (Instituto de Segurança e Serviços Sociais dos Trabalhadores do Estado), aprovada em 2007 durante a presidência de Felipe Calderón (2006-2012), bem como as reformas educacionais aprovadas durante as presidências de Enrique Peña Nieto (2012-2018) e Andrés Manuel López Obrador (2018-2024).

A CNTE também exige a reintegração de um sistema de previdência solidário para professores — em vez de um baseado em contas individuais —, um aumento salarial de 100% e a reintegração de professores demitidos.

Esta não é a primeira vez que a CNTE faz reivindicações desse tipo.

O sindicato dos professores — que tem presença significativa em estados como Oaxaca, Chiapas, Veracruz, Michoacán, Guerrero e Cidade do México — protestou em 2013 contra a reforma educacional promovida por Peña Nieto, cujo principal ponto era a possibilidade de demissão de professores reprovados em avaliações periódicas.

Quando López Obrador assumiu a presidência em 2018, prometeu revogar essa legislação, mas a CNTE afirma que as medidas promovidas pelo presidente não mudaram nada.

Agora, a CNTE reitera esse ponto, exigindo o retorno a um sistema de previdência financiado pelo Estado e salários mais altos para seus membros, argumentando que isso é necessário para que os professores tenham condições de vida dignas. A CNN entrou em contato com a CNTE para solicitar uma entrevista e aguarda resposta.

O que diz o governo?

Segundo presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, o governo não dispõe de recursos suficientes para atender às reivindicações da CNTE.

“É claro que devemos continuar fortalecendo a educação pública; ninguém nega isso. No entanto, há demandas que podem ser atendidas e outras que o orçamento não comporta. Portanto, o que buscamos, sempre dentro do âmbito dos recursos disponíveis, é melhorar as condições dos professores”, disse a prefeita em sua coletiva de imprensa de 18 de março, quando a CNTE apresentou sua lista de reivindicações.

Nas últimas semanas, os Segop (Ministérios do Interior) e da SEP (Educação Pública), juntamente com o ISSSTE (Instituto de Seguridade Social e Serviços para Trabalhadores do Estado), realizaram sessões de diálogo com representantes da CNTE para tentar chegar a um acordo.

Após a reunião de 4 de junho, o governo declarou em um comunicado à imprensa que propôs à CNTE o fortalecimento da PENSIONISSSTE, administradora do fundo previdenciário do ISSSTE, e a criação de uma seguradora pública especializada em pagamentos de pensões. No entanto, os professores rejeitaram a ideia.

Três dias depois, o governo emitiu outro comunicado defendendo as medidas de Sheinbaum em relação aos professores, como um aumento salarial de 10% em 2025 e outros 9% em 2026, embora esse argumento também não tenha convencido os docentes.

Esta semana, enquanto a CNTE ameaça intensificar seus protestos na quinta-feira, durante a cerimônia de abertura da Copa do Mundo, Sheinbaum insistiu que seu governo está aberto ao diálogo e não reprimirá as manifestações, embora também tenha afirmado — sem apresentar provas — que existem grupos externos tentando "provocar" as autoridades.

“Existem grupos que querem nos provocar, e não são necessariamente professores. O que eles buscam é repressão, estou dizendo isso claramente. O que eles estão tentando fazer é que a manchete internacional antes da abertura da Copa do Mundo seja: ‘O governo mexicano está reprimindo professores’. É isso que eles almejam, mas não vão conseguir”, disse a presidente em sua coletiva de imprensa de segunda-feira.

“Ao mesmo tempo, garantiremos que a cerimônia de abertura da Copa do Mundo transcorra de forma tranquila, pacífica e serena. Portanto, aguardaremos os próximos dias para ver quais serão as resoluções”, acrescentou.

Por que os protestos se intensificaram agora?

O sindicato dos professores CNTE planeja realizar uma grande marcha até o Estádio Azteca na quinta-feira (11), de acordo com comunicados públicos. Outros setores de trabalhadores, como os do transporte e da indústria alimentícia, insatisfeitos com certas políticas governamentais, também planejam se juntar aos protestos.

Uma manifestação de mães que buscam seus entes queridos desaparecidos também é esperada; elas acreditam que o governo está dando mais atenção à Copa do Mundo do que à localização de seus familiares desaparecidos.

Essa situação apresenta um cenário complexo para a administração de Sheinbaum e para o governo da Cidade do México — liderado por Clara Brugada, membro do partido Morena, assim como o prefeito — que afirmam que garantirão tanto o início da Copa do Mundo quanto o direito de protestar nessa data.

Antecipando-se a essas manifestações e às consequentes interrupções no trânsito, o governo Sheinbaum emitiu um decreto na terça-feira suspendendo todas as atividades nos órgãos federais naquele dia. A UNAM (Universidade Nacional Autônoma do México) anunciou na segunda-feira que também suspenderia suas atividades.

Além de sediar a cerimônia de abertura, a Cidade do México receberá outras quatro partidas da Copa do Mundo nos dias 17, 24 e 30 de junho, bem como no dia 5 de julho.

O cientista político Gustavo López Montiel, professor do ITESM (Instituto Tecnológico e de Estudos Superiores de Monterrey), disse à CNN que o sindicato dos professores CNTE, que já aceitou propostas do governo no passado, está desta vez aproveitando a Copa do Mundo para aumentar a pressão e tentar obter maiores benefícios. E, nesse contexto, outros grupos também estão buscando capitalizar a situação.

“Há diversos fatores que tanto a CNTE quanto outros atores políticos estão explorando para exercer pressão e estabelecer uma posição de negociação mais favorável”, explicou López Montiel, que vê poucas chances de o governo conseguir apaziguar esses protestos antes do apito inicial de quinta-feira no Estádio Azteca.

“Embora há alguns dias houvesse a possibilidade de uma negociação que pudesse ter resolvido a situação, permitir que os protestos chegassem a esse ponto torna improvável que sejam resolvidos entre hoje e amanhã, principalmente porque muitos grupos estão envolvidos”, concluiu o analista.

Enquanto os preparativos para o início da Copa do Mundo estão em andamento no Estádio Azteca, do lado de fora, o governo mexicano e os professores em protesto travam sua própria batalha, cujo desfecho permanece incerto.

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