Entenda os principais pontos da reunião entre Putin e Xi Jinping em Pequim
Líderes elogiam "parceria abrangente" e visam sistema de governança global não dominado pelos Estados Unidos
O presidente chinês Xi Jinping e o presidente russo Vladimir Putin elogiaram nesta quarta-feira (20) o progresso em sua "parceria abrangente" e criticaram o projeto Domo Dourado do presidente dos Estados Unidos Donald Trump, mas não anunciaram avanços significativos em um importante gasoduto.
Apenas alguns dias depois de receber Trump em Pequim, Xi recebeu Putin da mesma forma, com uma guarda de honra e uma salva de tiros no Grande Salão do Povo, enquanto crianças agitavam bandeiras chinesas e russas.
A visita desta semana é a 25ª do presidente russo à China em seus mais de vinte anos como presidente.
Durante esse período, os dois países estreitaram a cooperação em comércio, segurança e diplomacia, impulsionada por uma desconfiança mútua em relação aos Estados Unidos e uma aparente afinidade pessoal entre Putin e Xi – que costumam se referir um ao outro como “queridos” ou “velhos” amigos.
Tanto Pequim quanto Moscou têm buscado aproveitar a ruptura promovida por Trump com a política externa tradicional americana para avançar em sua própria visão de um mundo não dominado pelo poder americano ou por um sistema de alianças liderado pelos EUA.
Assinatura de acordos
Após as conversas entre Putin e Xi, nesta quarta-feira (20), uma declaração conjunta de 9.935 palavras, que abordou segurança nuclear, Taiwan e até mesmo tigres-de-amur, pandas-gigantes e macacos-nariz-arrebitado-dourados, foi assinada juntamente com uma declaração conjunta mais curta.
Outros 20 documentos, que variam de normas sanitárias e notícias oficiais à energia nuclear, foram assinados. Até o momento da publicação deste texto, nenhum acordo importante entre os países havia sido fechado.
A Rússia espera alimentar seu principal modelo de IA, o GigaChat, com chips fabricados na China, afirmou o CEO do Sberbank, German Gref, enquanto as sanções ocidentais continuam a bloquear o acesso da Rússia a hardware avançado no exterior.
Projeto de gasoduto entre Rússia e China
O governo russo afirmou que um entendimento geral com Pequim sobre o gasoduto conjunto Força da Sibéria 2 foi alcançado, mas detalhes importantes e um cronograma para o vasto projeto ainda precisam ser definidos.
Rússia e China estão em negociações há anos sobre o gasoduto, que levaria gás da Sibéria, principal região produtora de gás natural da Rússia, para a China. No entanto, questões como preços e outros detalhes ainda não foram definidas.
Durante a última visita de Putin, em setembro de 2025, a gigante russa do gás Gazprom afirmou que os dois lados concordaram em prosseguir com o projeto Força da Sibéria 2, um gasoduto de 2.600 km para transportar 50 bilhões de metros cúbicos de gás por ano da Rússia para a China, passando pela Mongólia.
A China tem se pronunciado muito pouco publicamente sobre o projeto. Embora Xi Jinping tenha dito na quarta-feira que a cooperação em conectividade energética e de recursos deveria ser a "pedra fundamental" nas relações China-Rússia, ele não mencionou o gasoduto.
Questões-chave, como o preço do gás, permanecem sem solução, e analistas preveem que as negociações podem levar anos.
Críticas aos Estados Unidos
Moscou e Pequim afirmaram em uma declaração conjunta que as tentativas de alguns países de dominar os assuntos globais no espírito da era colonial fracassaram, mas que o mundo corre o risco de retornar à "lei da selva".
Elas também disseram que os planos de Trump para o escudo antimíssil Domo de Ouro ameaçam a estabilidade estratégica.
Um comunicado de Xi Jinping e do presidente russo, Vladimir Putin, afirma que o plano de Trump para um sistema interceptador de mísseis baseado em terra e no espaço representa uma ameaça à estabilidade estratégica global.
Também criticou os Estados Unidos pela expiração do último tratado remanescente que restringe o tamanho dos arsenais nucleares dos EUA e da Rússia, que expirou em fevereiro, com Trump não tendo respondido à proposta de Moscou de estender os limites por um ano.
Como as visitas de Trump e Putin à China se comparam
Receber Trump e Putin em uma semana ressalta o poder tanto de Xi Jinping quanto da China em ascensão que ele governa desde 2012.
O Kremlin afirmou ser importante analisar o conteúdo das duas visitas, e não os aspectos cerimoniais, acrescentando que nem tudo é visível superficialmente.
Trump deixou a China na sexta-feira sem grandes avanços em relação ao comércio ou ajuda concreta de Pequim para encerrar a guerra com o Irã, apesar de dois dias dedicados a elogiar o anfitrião.
Após as conversas entre Putin e Xi, uma declaração conjunta de 9.935 palavras foi assinada com uma declaração conjunta mais curta.
Já o presidente russo disse ao líder chinês, nesta quarta-feira (20), que eles desenvolverão sua "parceria abrangente", que, segundo o chefe do Kremlin, resistiu ao teste do tempo.
Durante o encontro inicial em Pequim para uma cúpula entre os líderes, os dois elogiaram o progresso em seus laços estratégicos. Xi afirmou que os países devem se concentrar em uma estratégia de longo prazo e promover um sistema de governança global "mais justo e razoável".
Já Putin afirmou que as relações entre as nações contribuem para garantir a estabilidade global e ressaltou que Moscou continua sendo um fornecedor confiável de energia em meio à crise no Oriente Médio.
Diplomacia do Chá
Xi Jinping é conhecido por receber líderes visitantes para tomar chá, mas o ambiente e a forma desses encontros podem ser vistos como um sinal da consideração do líder chinês por seu convidado.
Quando recebeu Putin para conversações em maio de 2024, os dois dispensaram as gravatas enquanto tomavam chá ao ar livre em Zhongnanhai, um antigo jardim imperial que agora abriga os escritórios do Partido Comunista Chinês e do governo.
Em contraste, o passeio de Trump por um jardim secreto e o chá com o líder chinês no mesmo complexo, assim como a visita ao Templo do Céu na semana passada, pareceram mais coreografados.
"Pequim está adorando a repercussão disso. Eles estão adorando ser o centro das atenções mundiais e vão explorar isso ao máximo para o público interno", disse Graeme Smith, pesquisador sênior do departamento de Assuntos do Pacífico da Universidade Nacional da Austrália.
As raras visitas consecutivas a Pequim dos líderes de dois grandes países profundamente divergentes entre si nos âmbitos político, militar e econômico foram saudadas pela mídia estatal chinesa como um reconhecimento da posição global da China em uma ordem mundial cada vez mais fragmentada.
Putin e Xi Jinping também se reúnem para tomar chá nesta quarta-feira (20).


