Espanha cria drive-thru funerário em Madri, epicentro do coronavírus no país

A cada quinze minutos um carro funerário aparece em frente ao crematório do imenso cemitério de La Almudena, em Madri, capital da Espanha.

Em espécie de drive-thru funerário, padre benze carro com caixão de vítima do novo coronavírus em Madri, na Espanha
Em espécie de drive-thru funerário, padre benze carro com caixão de vítima do novo coronavírus em Madri, na Espanha Foto: Carlos Alvarez -26.mar.2020/Getty Images

Scott McLean e Laura Perez Maestro, da CNN

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A cada quinze minutos um carro funerário aparece em frente ao crematório do imenso cemitério de La Almudena, em Madri, capital da Espanha.

O padre Edduar sai do prédio para cumprimentar os membros da família que vieram prestar as últimas homenagens – uma lei nacional limitou cada grupo a cinco ou menos pessoas. O motorista abre o porta-malas com um caixão de madeira simples. De pé atrás do carro funerário, os enlutados mantêm distância. Alguns usam máscaras ou luvas. Abraços e beijos são uma cena incomum.

Do começo ao fim, as bênçãos e orações levam apenas cinco minutos. O padre benze o caixão selado com água benta antes que funcionários apareçam para carregá-lo. Então, tudo acaba. Não há uma oração funerária, visitas ou enterros públicos. Quase não há tempo para um adeus.

Quando o carro funerário se afasta, outro toma seu lugar momentos depois. As breves cerimônias são quase tão constantes quanto o fluxo de calor que sai da chaminé do crematório, transformando-se ocasionalmente em fumaça escura no céu nublado.

É uma cena estranha, mesmo para um dos maiores cemitérios da Europa Ocidental, cujas colinas de lápides sem fim já passaram viram períodos de fome, de guerra civil e da gripe espanhola.

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É assim que o processo de luto público ocorre durante o estado de emergência por causa do novo coronavírus na Espanha, que mantém milhões de pessoas em casa há três semanas – com pelo menos outras três ainda por vir.

“Você pode ver em seus rostos a grande dor”, diz o padre Edduar, com seu sotaque venezuelano. As pessoas não só perderam um ente querido, mas estão tendo que dizer adeus com poucas pessoas por perto. Algumas pessoas transmitem o breve serviço por seus telefones para que familiares e amigos compartilhem o momento. Ainda assim, não é a despedida final que alguém desejaria.

Com as igrejas fechadas em todo o país, este é um dos poucos lugares onde a população católica majoritária da Espanha pode ver pessoalmente um padre.

“Tento estar perto deles. Digo que estou com eles e que eles não estão sozinhos. Às vezes isso me chateia. Choro”, diz o padre Edduar. O risco de contrair o vírus também é uma possibilidade. Ele não usa máscara ou luvas. “Pode parecer um pouco estranho, mas neste momento histórico, considero isso um privilégio… minha vida é para as pessoas – estar com elas nesse momento crucial.”

A Espanha está entre os países mais afetados pela pandemia de coronavírus. Madri é o epicentro do surto, respondendo por 40% das mortes pela doença no país. Com os necrotérios da cidade incapazes de suportar o volume de corpos, duas pistas de gelo estão sendo usadas como necrotérios temporários. Os cemitérios dizem que estão enterrando duas ou três vezes mais corpos do que o normal.

Funcionários do cemitério em Madri e parentes de vítima de COVID-19 tiram caixão
Funcionários do cemitério La Almudena e parentes de vítima de COVID-19 tiram caixão de carro
Foto: Carlos Alvarez – 4.abr.2020/Getty Images

Do outro lado do pequeno estacionamento, ao lado de uma estante com flores, Félix Poveda anda de um lado para o outro com um elegante casaco preto, gravata escura e máscara cirúrgica branca. Ele contraiu o vírus em um almoço em família há algumas semanas. O irmão e a mãe também – os três foram hospitalizados. A mãe de 77 anos morreu.

Ele disse que o médico dela mãe lhe explicou que a idosa não se qualificava para receber um respirador – equipamento que está em falta nos hospitais sobrecarregados de Madri.

“Não sei como lidar com isso, não sei como me sentir”, afirmou. Ele entende a necessidade de distância e brevidade para enterrar os mortos, mas isso não torna a realidade menos dura. “Estou sozinho aqui. Meu irmão e irmã não puderam vir. Minha mulher não veio. Netos e netas não vieram. Só eu. Não há como pensar que o fim poderia ser assim.”

Momentos depois, um carro funerário chega ao crematório. Este, diz Poveda, carrega o corpo da mãe. Como um relógio, o padre Edduar surge para fazer as orações. Poveda cruza as mãos e inclina a cabeça.

Alguns minutos depois, o caixão é levado para dentro do crematório em uma maca. Enquanto volta para o carro, Poveda está em choque. As lágrimas rolando pelo rosto são parcialmente tampadas ela máscara que está usando. Não era assim que ele esperava se despedir da mãe.

Poveda planeja fazer um funeral adequado para ela quando a crise terminar, mas ele não tem certeza de quando isso acontecerá.

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