EUA avaliam romper laços com agência da ONU para refugiados, dizem fontes
País foi principal doador do ACNUR (Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados) em 2025, contribuindo com quase 900 milhões de dólares

Nas últimas semanas, o governo americano de Trump avaliou a possibilidade de romper laços com a agência da ONU para refugiados, o que motivou uma campanha de diplomatas e autoridades da organização para persuadir os Estados Unidos a manterem o apoio, segundo autoridades informadas no assunto.
Oito fontes, incluindo diplomatas, representantes de organizações de ajuda humanitária e uma fonte do Congresso, disseram à Reuters que Washington, historicamente o maior doador do ACNUR (Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados), tem considerado desvincular-se da agência.
Segundo as informações, uma decisão era esperada para a semana passada, mas nenhum anúncio foi feito, sugerindo que o esforço de pressão política pode ter ajudado a adiar ou evitar tal medida.
A Reuters concedeu anonimato às fontes para que pudessem falar sobre as relações da ONU com os EUA.
As deliberações dos EUA sobre deixar o ACNUR — criado após a Segunda Guerra Mundial para ajudar refugiados que fugiam de guerras, perseguições e violência — surgem na sequência de uma divergência sobre a nomeação da vice-alto-comissária Tressa Rae Finerty, disseram cinco das fontes.
Elas relataram que a agência informou seus apoiadores de que poderia ser incluída em uma lista negra dos EUA, o que encerraria o financiamento, e que Washington também poderia retirar-se de seu Comitê Executivo.
Segundo autoridades da área humanitária, qualquer interrupção no financiamento dos EUA enfraqueceria seriamente a agência em um momento de níveis quase recordes de deslocamento populacional em todo o mundo, em meio a conflitos prolongados como os da Ucrânia e do Sudão.
"O ACNUR alertou as pessoas para que ligassem para amigos no governo", disse à Reuters uma fonte de uma organização envolvida nas negociações. "Eles estão, pelo menos, pensando nisso", completou a fonte.
Outro diplomata afirmou que autoridades do ACNUR pediram aos apoiadores, na semana passada, que utilizassem todos os canais diplomáticos disponíveis junto aos Estados Unidos para defender a continuidade do apoio.
Um porta-voz da agência da ONU para refugiados recusou-se a comentar.
"Não temos comentários sobre essa questão porque não dispomos de informações a respeito", disse o porta-voz da ONU, Stephane Dujarric.
Um representante do Departamento de Estado americano afirmou que não houve mudanças no engajamento de Washington com o grupo de apoio à refugiados.
"Assim como fazemos com muitas outras organizações internacionais, trabalhamos com e por meio do ACNUR quando isso é útil para promover os interesses da política externa dos EUA ou salvar vidas", afirmou.
"Continuaremos a avaliar o papel dos Estados Unidos nas organizações internacionais...", acrescentou o porta-voz, referindo-se a uma Ordem Executiva de fevereiro de 2025 para revisar a participação e o financiamento dos EUA.
Desde o início de seu segundo mandato, no ano passado, o presidente Donald Trump cortou o financiamento de agências da ONU e retirou o país de dezenas de entidades da organização, incluindo a OMS (Organização Mundial da Saúde).
Autoridades do governo Trump também instaram outras nações a aderirem a uma campanha global para reduzir as proteções de asilo.
Dilema de liderança
A disputa gira em torno da nomeação, no mês passado, da diplomata de carreira dos EUA Tressa Rae Finerty para o cargo de vice-alto-comissária do ACNUR (Agência da ONU para Refugiados).
O secretário-geral da ONU, António Guterres, e o alto-comissário da ONU para Refugiados, Barham Salih, escolheram Finerty em detrimento de Simon Hankinson — um candidato apoiado pelos EUA e ex-funcionário do serviço diplomático que acusou o ACNUR de promover uma "agenda de migração em massa".
"Se eles queriam uma reforma, um retorno à missão original do ACNUR de ajudar refugiados reais e uma inspeção cuidadosa de orçamentos e gastos, eu era a pessoa certa", disse ele à Reuters, classificando Finerty como uma candidata que representa a manutenção do status quo.
A Reuters não conseguiu contato com Finerty para comentar o assunto.
Um ex-alto funcionário do ACNUR afirmou que Salih — ex-presidente do Iraque e também refugiado — teria enfrentado uma "rebelião" interna caso tivesse apoiado Hankinson.
Outras agências da ONU, como a Organização Internacional do Trabalho, também enfrentaram dilemas quanto à nomeação de autoridades dos EUA, em meio a questionamentos sobre o compromisso norte-americano com a cooperação global.
Andrew Veprek, secretário-assistente de Estado no Escritório de População, Refugiados e Migração dos EUA — que defende posições contrárias à migração —, esteve envolvido no apoio à candidatura de Hankinson, segundo duas das fontes. O Departamento de Estado dos EUA não quis comentar o envolvimento dele.
O principal doador
Segundo o ACNUR, os EUA foram o principal doador da agência em 2025, contribuindo com US$ 868 milhões (aproximadamente 4,5 bilhões de reais) — cerca de um quarto do total de contribuições..
O ACNUR já enfrenta uma crise financeira, uma vez que os recursos disponíveis caíram cerca de 30% em 2025 em comparação com 2024. A agência cortou milhares de postos de trabalho e anunciou novos cortes para este ano.
Diplomatas e autoridades ligadas à assistência humanitária afirmaram que uma retirada total dos EUA agravaria a crise e minaria o apoio à Convenção sobre o Estatuto dos Refugiados de 1951, pilar do sistema de proteção aos refugiados do pós-guerra.
"Repensar isso representaria uma ameaça existencial para o ACNUR", disse o ex-funcionário da agência.
"Poderia desencadear um efeito dominó de grandes proporções", acrescentou.


