EUA acusam China de testes nucleares e pedem novo tratado nuclear

Documento bilateral com Moscou, que impunha limites a programas nucleares estratégicos por mais de duas décadas, expirou na quinta-feira (5)

Olivia Le Poidevin, Friederike Heine e Ludwig Burger, da Reuters
Um navio dispara uma arma durante exercícios a leste de Taiwan, nesta captura de tela de um vídeo divulgado pelo Comando Oriental do Exército Popular de Libertação da China (PLA) em 29 de dezembro de 2025  • Comando do Teatro Oriental/Divulgação via REUTERS
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Os Estados Unidos acusaram Pequim, nesta sexta-feira (6), de realizar um teste nuclear secreto em 2020, ao mesmo tempo em que pediram um novo tratado de controle de armas mais abrangente que incluísse a China, além da Rússia.

As acusações, feitas em uma conferência global sobre desarmamento, evidenciaram as sérias tensões entre Washington e Pequim em um momento crucial para o controle de armas nucleares, um dia após o vencimento do tratado que limitava o posicionamento de mísseis e ogivas nucleares dos EUA e da Rússia.

"Posso revelar que o governo dos EUA está ciente de que a China realizou testes com explosivos nucleares, incluindo a preparação para testes com rendimentos previstos na casa das centenas de toneladas", declarou o subsecretário de Estado dos EUA para Controle de Armas e Segurança Internacional, Thomas DiNanno, em uma Conferência sobre Desarmamento em Genebra.

O Exército chinês "buscou ocultar os testes disfarçando as explosões nucleares porque reconheceu que esses testes violam os compromissos de proibição de testes. A China usou o 'desacoplamento', um método para diminuir a eficácia do monitoramento sísmico, para esconder suas atividades do mundo", disse ele.

DiNanno afirmou que a China realizou um desses "testes de produção de rendimento" em 22 de junho de 2020.

O embaixador da China para o desarmamento, Shen Jian, não abordou diretamente a acusação de DiNanno, mas disse que Pequim sempre agiu com prudência e responsabilidade em questões nucleares.

"A China observa que os EUA continuam, em suas declarações, a exagerar a chamada ameaça nuclear chinesa. A China se opõe firmemente a essas narrativas falsas", expressou ele. "Os EUA são os culpados pelo agravamento da corrida armamentista."

Diplomatas presentes na conferência disseram que as alegações dos EUA eram novas e preocupantes.

Controle global de armas enfrenta momento crítico

O Tratado Novo START de 2010, que expirou na quinta-feira (), deixou a Rússia e os Estados Unidos, pela primeira vez em mais de meio século, sem quaisquer restrições vinculativas sobre a implantação de seus mísseis e ogivas estratégicas.

O presidente dos EUA, Donald Trump, quer substituí-lo por um novo acordo que inclua a China, que está aumentando rapidamente seu próprio arsenal.

DiNanno declarou na conferência de Genebra: "Hoje, os Estados Unidos enfrentam ameaças de múltiplas potências nucleares. Em resumo, um tratado bilateral com apenas uma potência nuclear é simplesmente inadequado em 2026 e no futuro."

Ele reiterou as projeções dos EUA de que a China terá mais de mil ogivas nucleares até 2030.

Mas Shen, o delegado chinês, reiterou que seu país não participaria de novas negociações neste momento com Moscou e Washington. Pequim já destacou que possui uma fração do número de ogivas nucleares desses países — cerca de 600, em comparação com as aproximadamente 4.000 da Rússia e dos EUA.

"Nesta nova era, esperamos que os EUA abandonem a mentalidade da Guerra Fria... e adotem a segurança comum e cooperativa", expressou ele.

Fim do Novo Start deixa vazio no controle de armas 

A expiração do Novo START deixa um vácuo no controle de armas pela primeira vez desde 1972.

Desde os tempos mais sombrios da Guerra Fria, quando os Estados Unidos e a União Soviética se ameaçavam mutuamente com a "destruição mútua assegurada" em caso de guerra nuclear, Moscou e Washington consideram os tratados de limitação de armas uma forma de evitar tanto um mal-entendido letal quanto uma corrida armamentista economicamente ruinosa.

Se nada substituir o Novo START, analistas de segurança preveem um ambiente mais perigoso, com maior risco de erros de cálculo. Forçados a se basear em suposições pessimistas sobre as intenções do outro, os EUA e a Rússia teriam um incentivo para aumentar seus arsenais, especialmente com a China correndo atrás do prejuízo.

A Rússia prefere dialogar com os Estados Unidos após o Novo START, mas está preparada para qualquer cenário, afirmou o ministro das Relações Exteriores, Sergei Lavrov, na sexta-feira (6).

O Kremlin afirmou que a Rússia e os Estados Unidos reconhecem a necessidade de iniciar em breve negociações sobre o controle de armas nucleares.

Segundo o comunicado, as duas partes, em negociações realizadas em Abu Dhabi esta semana, chegaram a um entendimento de que ambas agiriam com responsabilidade.

A Rússia defende que os aliados nucleares dos membros da Otan, Reino Unido e França, também devem estar abertos à negociação — algo que esses países rejeitam.

No fórum de Genebra, o Reino Unido afirmou que é hora de uma nova era de controle de armas nucleares que traga China, Rússia e Estados Unidos à mesa de negociações, acrescentando que compartilha das preocupações americanas sobre a rápida expansão do arsenal nuclear de Pequim.

A França declarou que um acordo entre os Estados com os maiores arsenais nucleares é crucial, em um momento de enfraquecimento sem precedentes das normas nucleares.

Acordos de controle de armas são extremamente complexos de negociar, e o cenário mudou significativamente desde a assinatura do Novo START em 2010.

A Rússia está desenvolvendo os chamados novos sistemas "exóticos", incluindo o míssil de cruzeiro Burevestnik e o torpedo submarino Poseidon, enquanto Trump prometeu construir um sistema de defesa antimíssil espacial, o "Domo Dourado".

Analistas de segurança afirmam que qualquer novo acordo nuclear provavelmente levará anos para ser negociado, deixando um vácuo no controle de armas em um momento de crescente tensão internacional em relação à Ucrânia, ao Oriente Médio e a outros pontos críticos.

Alguns dizem que essas tensões, e o fato de a Rússia e os EUA não terem chegado a um acordo ou sequer discutido um novo tratado até agora, podem intensificar os debates em países como Japão, Coreia do Sul e Polônia sobre se devem ou não buscar ingressar no clube nuclear.