EUA intensificam exportação de combustível para setor privado de Cuba

Ilha caribenha sofre crise de escassez devido a bloqueio imposto pelo governo Trump

Dave Sherwoo e Marianna Parraga, da Reuters
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Fornecedores dos Estados Unidos enviaram aproximadamente 30.000 barris de combustível para o setor privado de Cuba este ano até o momento, segundo documentos e dados de remessas consultados pela Reuters.

Os envios sugerem que está em pleno andamento ​um plano do governo Trump para dar vantagem às empresas privadas em relação às estatais no país.

Desde janeiro, os ​Estados Unidos vêm impondo um bloqueio de petróleo de fato contra seu antigo inimigo, numa tentativa de privar Cuba de combustível e pressionar seu governo.

Mas abriu-se uma exceção para o pequeno, porém vital, setor privado do país comunista.

O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, afirmou que a autorização dessas exportações de combustível se encaixa em uma política mais ampla do governo Trump, "inteiramente concebida para colocar o setor privado e os cidadãos cubanos individuais -- não afiliados ao governo, não afiliados aos militares -- em uma posição privilegiada".

O volume de combustível importado desde o início de fevereiro pelo setor privado -- cerca de 30.000 barris, ou aproximadamente 4,8 milhões de litros – equivale a pouco mais de um décimo da capacidade de um típico navio-tanque de combustível de médio porte, uma fração das necessidades do país.

Até recentemente, Cuba necessitava de cerca de 100 mil barris por dia de combustível importado para abastecer suas ⁠usinas de energia e atender à demanda regular de veículos e aviões.

Mas os números, até ​então não divulgados, sugerem que o plano de Rubio está avançando, com os volumes importados crescendo semana após semana, de acordo com os documentos de embarque vistos pela Reuters.

Variedade de produtos

Desde ​que Washington capturou o líder venezuelano Nicolás Maduro, em janeiro, os EUA bloquearam o fornecimento de petróleo venezuelano ao governo cubano e ameaçaram impor tarifas a qualquer outro país que exporte combustível para a ilha.

O ⁠presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, afirmou na semana passada que a ilha não recebe combustível há três meses. ⁠Ele não fez menção ao fornecimento do setor privado.

Até o momento, em 2026, 61 navios porta-contêineres transportando uma variedade de produtos importados por empresas privadas -- incluindo combustível -- descarregaram ​em  Cuba, frequentemente fazendo o transporte de ida e volta entre portos cubanos e portos dos EUA, da Europa e de outros países do Caribe.

A maioria dos navios descarregou no porto de Mariel, a oeste de Havana, e outros ⁠dois estão a caminho da Espanha e da Jamaica para descarregar até o final do mês. As chegadas estão ligeiramente abaixo dos 75 navios porta-contêineres no mesmo período do ano passado, de acordo com dados de rastreamento de embarcações da LSEG analisados pela Reuters.

Segundo os números, alguns dos navios porta-contêineres com destino a Cuba partiram este ano de importantes centros energéticos onde são carregados produtos como carvão, petróleo bruto e refinados, embora a grande maioria dos navios que  chegaram a Cuba ⁠sejam classificados na origem como multipropósito,  o que significa que transportam uma variedade de itens.

Os dados também revelaram um aumento nos embarques originários da Costa do Golfo dos EUA, particularmente em Southwest Pass, na Louisiana -- um importante corredor energético --, embora a maioria dos navios porta-contêineres com origem nos EUA e destino a Cuba neste ano tenha partido da Flórida.

O novo fluxo de combustível permitiu que algumas empresas mantivessem suas operações intactas, apesar do severo bloqueio que afetou o já debilitado transporte público, a ⁠geração de energia elétrica e o turismo.

Desde o início de fevereiro, quando as exportações começaram, o combustível começou a chegar aos ⁠poucos às empresas do setor privado, inicialmente paralisadas pelo bloqueio, disseram à Reuters três empresários em Cuba.

A lista de empresas importadoras de combustível inclui fabricantes de pão privados, atacadistas que distribuem mercadorias para pequenos mercados privados em áreas urbanas e lojas online maiores, como o  supermercado Supermarket23, de acordo com fontes e documentos consultados pela Reuters.

Em fevereiro, o Supermarket23 notificou seus clientes de que não estava mais aceitando pedidos devido à crise de combustível. Mas, desde então, importou combustível, o que permitiu a retomada dos serviços de entrega, segundo uma fonte com conhecimento direto de sua operação.

A empresa não respondeu ao pedido de comentário da Reuters.

Sem brincadeiras

Em fevereiro, o Escritório de Indústria e Segurança dos EUA divulgou orientações autorizando a exportação e reexportação de gás e produtos petrolíferos dos EUA para entidades do setor privado cubano que atendam aos requisitos.

O governo cubano, por sua vez, afirmou que permitiria que micro, pequenas e ​médias empresas privadas importassem o combustível para aliviar a crise energética.

As três fontes empresariais afirmaram que empresas privadas estão implementando controles rigorosos para garantir que a intenção do programa norte-americano não seja violada.

A revenda comercial não é permitida -- o combustível deve ser usado apenas pelas partes importadoras, acrescentou outra fonte.

As autoridades cubanas também desenvolveram normas de segurança para regulamentar o armazenamento e a distribuição do combustível recém-chegado pelo setor privado, disse ⁠uma fonte do governo cubano à Reuters.

De acordo com documentos consultados pela Reuters, o combustível importado chega principalmente em tanques ISO projetados para armazenar e transportar com segurança aproximadamente 21.600 litros de combustível em navios porta-contêineres.

Os documentos mostram que cerca de 200 desses contêineres ISO foram descarregados em Cuba. A grande maioria das importações é de diesel. Apenas 1% dos contêineres continha gasolina. A maioria era proveniente dos Estados Unidos, conforme indicam os dados de embarque.

A gasolina ​é mais inflamável que o diesel e requer mais cuidado durante o armazenamento e o transporte, o que limita sua utilidade em uma ilha com pouca infraestrutura moderna.

Algumas empresas instalaram grandes tanques ISO brancos de diesel em suas dependências, ​ao lado de instalações já existentes, enquanto outras firmaram contratos para alugar infraestrutura ociosa na ilha para armazenar maiores quantidades de combustível, limitando estritamente sua distribuição apenas a empresas do setor privado, disseram as fontes.

As exportações de combustível dos EUA para empresas privadas em Cuba vêm com uma ressalva clara.

"Se flagrarmos o setor privado agindo de forma ilícita e desviando recursos para o regime ou para empresas militares, se descobrirmos que estão movimentando esses materiais de maneiras que violam o espírito e o escopo dessas permissões, essas licenças serão canceladas", disse Rubio em fevereiro.