EUA mantém negociações com líderes do Talibã para tentar controlar crise

Comando dos EUA no Afeganistão tem liderado esforços para garantir a segurança no perímetro do aeroporto de Cabul; há bloqueios do grupo islâmico e violência

Natasha Bertrand, Zachary Cohen, Kylie Atwood e Nicole Gaouette, CNN

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O Departamento de Estado dos EUA mantém conversas diplomáticas de alto nível com o Talibã em Doha, no Catar, como fez no ano passado, enquanto negociações reais foram movidas para as ruas caóticas de Cabul nos últimos dias, onde os líderes militares dos EUA estão em comunicação constante com o Talibã para tratar da segurança ao redor do aeroporto internacional Hamid Karzai.

Em uma medida extraordinária, o principal comandante dos EUA no Afeganistão, almirante Peter Vasely, tem liderado os esforços para negociar com seu homólogo do Talibã para manter a segurança no aeroporto de Cabul e garantir a segurança de americanos e afegãos que desejam sair do país.

Até agora, na melhor das hipóteses, as negociações produziram resultados mistos. As tropas dos EUA protegeram o aeroporto e os voos de evacuação foram realizados com sucesso. No entanto, a embaixada dos Estados Unidos advertiu explicitamente que não pode garantir uma passagem segura para os americanos que tentam chegar ao aeroporto, e a CNN informou que os afegãos que tentaram entrar no aeroporto foram submetidos à violência e intimidação.

Uma autoridade da Casa Branca disse que embora os Estados Unidos tenham vários canais de comunicação com o grupo islâmico, as autoridades ainda não sabem quais combatentes do Talibã controlam o quê e se as instruções estão sendo transmitidas corretamente pela cadeia de comando.

“A estrutura de comando do Talibã não é perfeita”, disse um diplomata que passou muito tempo na região, portanto, alguns acordos negociados pelos líderes podem não ser perfeitamente comunicados aos combatentes nas ruas.

O ex-embaixador dos EUA no Afeganistão, John Bass, também foi enviado a Cabul para ajudar a restaurar a ordem no aeroporto e facilitar a passagem segura de americanos que atualmente não conseguem chegar até lá, anunciou o Departamento de Estado nesta semana. As autoridades que informaram aos legisladores nesta quinta-feira (19) que sua esperança era que Bass pudesse ajudar a resolver alguns desses problemas com o Talibã diplomaticamente, sem ter que enviar forças de operações especiais para fora do aeroporto para restaurar a ordem ou recuperar americanos presos.

Quando funcionários do Departamento de Estado, Defesa e Conselho de Segurança Nacional foram pressionados em uma ligação com legisladores nesta quinta-feira sobre por que os EUA não podem deixar o perímetro do aeroporto para pegar americanos, eles reiteraram que os EUA devem permanecer totalmente focados no missão de proteger o aeroporto e disseram que a esperança é que Bass possa ajudar a resolver quaisquer problemas que os cidadãos tenham de enfrentar.

Oficiais de defesa dos EUA disseram repetidamente nesta semana que não têm a capacidade de se aventurar para além do aeroporto de Cabul. Os combatentes do Talibã montaram postos de controle em torno da cidade de 6 milhões de habitantes, bem como fora do perímetro do aeroporto, e têm perseguido e até espancado afegãos que tentam passar, de acordo com vários relatórios.

Autoridades americanas dizem estar cientes dos relatos, e o porta-voz do Departamento de Estado, Ned Price, disse a repórteres nesta quinta-feira que “todo relato de alguém que não consegue chegar ao aeroporto por qualquer motivo é algo que levamos muito a sério”, e as autoridades pediram ao Talibã que permitam a passagem segura para o aeroporto para todos que desejam deixar o país. 

Comunicação diária com o Talibã

Vasely se comunica pelo menos uma vez por dia com um comandante do Talibã localizado fora do aeroporto, disse o secretário de imprensa do Pentágono, John Kirby, nesta quinta-feira. “Eu entendo que em um dia normal há mais de uma conversa, uma conversa direta com o próprio comandante designado”, disse ele.

O entendimento provisório agora é que o Talibã permitirá que os Estados Unidos continuem suas operações de evacuação sem obstáculos no aeroporto, contanto que as forças americanas não se desloquem para a cidade e interfiram com o governo do Talibã que se instalou na capital no último domingo (15). 

“Não há planos para expandir” a presença militar dos EUA em Cabul além do aeroporto por enquanto, disse Kirby nesta quinta-feira. Ao mesmo tempo, “não há interesse por parte dos comandantes do Talibã em acessar o aeroporto”, disse ele. “Entendemos que eles entendem por que estamos ali e o que estamos fazendo. E de novo, como disse o secretário, temos conseguido ter esse tipo de comunicação com eles.”

Combatentes do Talibã patrulham as ruas de Cabul nesta quinta-feira (19)
Combatentes do Talibã patrulham as ruas de Cabul nesta quinta-feira (19)
Foto: Rahmat Gul/AP

Extensão do prazo

Uma questão importante que foi debatida durante as negociações foi a duração da presença dos EUA no Afeganistão e se o governo Biden tentará permanecer no país após 31 de agosto.

O presidente Joe Biden disse “sim” quando questionado em uma entrevista à ABC se ele estava “comprometido em garantir que as tropas fiquem até que todos os americanos que queiram sair tenham saído”. Mas ainda não se sabe por quanto tempo o Talibã tolerará uma grande presença dos EUA no aeroporto de Cabul.

Quando questionado durante a coletiva de imprensa do Pentágono nesta quinta-feira se os Estados Unidos precisariam da permissão do Talibã para permanecer no aeroporto para além do final deste mês, Kirby reconheceu que “certa medida deve continuar ocorrendo de acordo com o Talibã”

O conselheiro de segurança nacional dos EUA Jake Sullivan disse a repórteres na última terça-feira que o momento da presença dos EUA em Cabul estava sendo discutido com o Talibã, mas não quis entrar em detalhes.

Negociações em Doha

Enquanto isso, permanecem dúvidas sobre as negociações para um futuro governo do Afeganistão. O Departamento de Estado disse que não houve transferência de poder e não deixou claro quem os EUA reconhecem como líder do Afeganistão após a saída de Ashraf Ghani de Cabul.

O Representante Especial Zalmay Khalilzad ainda está em Doha, mas “grande parte da delegação do Talibã, senão toda, mudou-se de Doha para o Afeganistão”, disse Price, porta-voz do Departamento de Estado, nesta quinta-feira.

“Continuamos em contato com esses representantes por telefone, temos mantido contato direto em campo com eles também, bem como com os representantes da República Islâmica”, disse Price.

Khalilzad, que foi nomeado para seu cargo atual no governo Trump, liderou as negociações por mais de um ano, embora alguns na Casa Branca e no Capitólio tenham expressado profunda frustração com seu desempenho.

No final da semana passada, o governo Biden enviou discretamente um alto funcionário do Departamento de Estado para se juntar à equipe de negociação dos EUA em Doha, segundo duas fontes familiarizadas com o assunto.

A chegada do Diretor de Planejamento Político do Departamento de Estado, Salman Ahmed, indicou que o governo Biden sentiu que precisava de reforços, já que a situação no Afeganistão se deteriorava a cada minuto e a frustração crescia pelo fato de que as negociações em Doha não haviam produzido qualquer compromisso de avanço por parte do Talibã.

Ahmed passou muito tempo nas Nações Unidas trabalhando em processos de paz. O general Frank McKenzie, comandante do Comando Central dos Estados Unidos, também participou das negociações de Doha.

As discussões entre os EUA e o Talibã se concentraram amplamente na passagem segura para americanos e afegãos que tentam se dirigir ao aeroporto para deixar o país, relatam fontes à CNN. Uma ampla gama de opções também está sendo discutida em torno de como serão as próximas semanas e meses, incluindo a possibilidade de expandir a presença dos EUA no aeroporto de Cabul além do final do mês, disse a fonte.

Descontentamento e frustração no Capitólio

No Capitólio, a falta de clareza do governo foi uma fonte de frustração bipartidária nesta quarta-feira durante briefings para alguns legisladores do Senado e da Câmara sobre o Afeganistão, de acordo com duas fontes familiarizadas com as sessões fechadas.

Legisladores de ambos os lados pediram a Biden que prorrogasse o prazo, se necessário, para tirar todos os americanos do país. Embora alguns considerassem os últimos comentários do presidente um sinal positivo, muitos continuam preocupados devido à urgência da situação. 

“Democratas e republicanos estão furiosos… temos que tirar as pessoas de lá”, disse uma fonte do Congresso. “Eles não estavam nos dando nenhuma informação específica”, acrescentou a fonte. “Tenho pessoas que precisam sair, o que devo dizer a eles?”

Os escritórios do Congresso foram inundados com pedidos de eleitores para ajudar amigos e familiares que tentam escapar, tanto cidadãos americanos quanto afegãos que trabalharam com os Estados Unidos e são vulneráveis, a deixar o país. 

Os legisladores receberam um e-mail do Departamento de Estado para canalizar todos os pedidos de nomes de afegãos para obter os canais adequados de evacuação. Fontes do Congresso disseram que o Departamento de Estado tem respondido de maneira geral, embora não tenha respostas sobre como as pessoas deveriam chegar ao aeroporto, especialmente aquelas de fora de Cabul.

O papel de Hamid Karzai

O ex-presidente do Afeganistão, Hamid Karzai, teve um papel ativo nas negociações, reunindo-se com autoridades do Talibã ao lado do presidente do Conselho Superior Afegão para Reconciliação Nacional, Dr. Abdullah Abdullah, uma figura-chave nas negociações de Doha.

Karzai permaneceu em Cabul mesmo quando o último presidente do Afeganistão, Ghani, fugiu para os Emirados Árabes Unidos quando o Talibã tomou a cidade.

Karzai e Abdullah se reuniram nesta quarta-feira (18) com altos líderes da rede Haqqani, uma facção do Talibã que também participou de negociações com os Estados Unidos, segundo uma fonte. A rede Haqqani foi designada como uma organização terrorista estrangeira pelo governo dos EUA em 2012 e acredita-se que tenha laços estreitos com a Al Qaeda.

De acordo com um tweet de Abdullah, as duas delegações “trocaram opiniões sobre a segurança dos cidadãos em Cabul e em todo o Afeganistão” em prol da unidade e cooperação para o futuro do país.

Mullah Abdul Ghani Baradar
Mullah Abdul Ghani Baradar, cofundador do Afeganistão, em reunião em Moscou
Foto: Alexander Zemlianichenko/Pool/AFP/Getty Images

O Talibã está examinando funcionários internos para servir como um possível líder interino enquanto determinam como será seu governo, disseram as fontes. O grupo islâmico tem um equilíbrio delicado a atingir: eles não podem alienar os combatentes talibãs do país, muitos dos quais são mais resistentes, mas também indicaram que desejam reconhecimento internacional, o que exigirá que construam um governo mais inclusivo.

“Acho que eles estão passando por uma espécie de crise existencial sobre se querem ser reconhecidos pela comunidade internacional como um governo legítimo”, disse Biden à ABC. “Não tenho certeza se eles querem.”

Um diplomata europeu disse que os Estados Unidos e aliados ocidentais enfatizaram a intenção de agir em conjunto ao decidir como enfrentar o Afeganistão liderado pelo Talibã, em parte para maximizar sua influência em todas as frentes. 

“É importante que qualquer reconhecimento de um novo governo do Afeganistão ocorra de forma conjunta e não unilateral”, disse o diplomata. “Por isso, queremos uma resposta internacional unificada para chegar a uma solução política e evitar um desastre humanitário”.

Jenny Hansler, Oren Lieberman, Jeremy Herb e Barbara Starr, da CNN, contribuíram para esta reportagem

(Este texto é uma tradução. Para ler o original, em espanhol, clique aqui)

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