Famílias não poderão comemorar maior feriado da China reunidas pelo terceiro ano

O Ano Novo Lunar é a data mais importante do calendário do país e trabalhadores não conseguem voltar para casa em meio às restrições da pandemia

Viajantes usam máscara na espera da estação de trem Hongqiao antes do Ano Novo Lunar, em Xangai, China, em 23 de janeiro de 2022
Viajantes usam máscara na espera da estação de trem Hongqiao antes do Ano Novo Lunar, em Xangai, China, em 23 de janeiro de 2022 Qilai Shen/Bloomberg/Getty Images

Nectar GanSteve Georgeda CNN

Em Hong Kong

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Mais de dois anos se passaram desde que a China isolou uma cidade inteira, com mais de 11 milhões de pessoas, para restringir o primeiro surto de Covid-19 no mundo.

No entanto, em muitas regiões do país, restrições pesadas contra o coronavírus ainda estão dificultando viagens apenas dias antes do maior festival do ano.

O domingo (23) marcou o segundo aniversário do início do lockdown de Wuhan – uma decisão drástica que surpreendeu a nação apenas dois dias antes do Ano Novo Lunar.

A China tem se recuperado da devastação inicial trazida pela pandemia, enquanto a política de Pequim de Covid Zero – que se apoia em testagens em massa, quarentenas extensas e lockdowns repentinos – tem atraído apoio da população.

Mas com a perspectiva de mais uma reunião de Ano Novo Lunar cancelada, algumas pessoas estão começando a ficar frustradas.

Conhecido como Festival da Primavera na China, o Ano Novo Lunar – que cai no dia 1 de fevereiro neste ano – é o momento mais importante para famílias se reunírem, equivalente para alguns a Natal, Ação de Graças e Ano Novo combinados.

Guardas usam máscaras de proteção em meio à pandemia de Covid-19 em Xangai / , China 17/01/2022 REUTERS/Aly Song

Todos os anos, centenas de milhares de pessoas que deixaram suas cidades natais para construir uma vida nas grandes cidades chinesas entram em trens, ônibus e aviões para ver suas famílias – um trânsito intenso de viagens que dura semanas, conhecido como a maior migração humana anual na Terra.

Neste ano, o Ministério dos Transportes da China espera que 1,18 bilhões de viagens sejam feitas durante a temporada do Ano Novo Lunar, um aumento de 35% em relação ao ano passado – mas um número ainda muito menor do que as 3 bilhões de viagens feitas em 2019, antes da pandemia.

Ao redor da China, uma lista cada vez maior de autoridades estão desencorajando os residentes de viajar para restringir o espalhamento do coronavírus, principalmente da variante altamente transmissível Ômicron.

Reações negativas às restrições locais

Na semana passada, um oficial na província central de Henan provocou reações após ameaçar deter viajantes que retornavam para casa.

Em um vídeo viral, Dong Hong, chefe do município de Dancheng, pode ser ouvido dizendo em uma reunião que “qualquer um retornando para casa, vindos de áreas de risco médio ou alto, terão de fazer quarentena e então serão detidos”.

Em meio a uma tempestade de críticas, Dong disse depois que estava se referindo apenas a pessoas que não obedecerem às políticas de prevenção e “voltem para casa maliciosamente”. Mas muitos questionaram como o desejo de se reunir com familiares pode ser maléfico.

“É errado que um trabalhador migrante que trabalha dia e noite, que vive longe de casa, retorne à sua cidade natal e se reúna com a família durante seus únicos dias de feriado anuais?, pergunta uma publicação muito popular no Weibo, uma plataforma chinesa que se assemelha ao Twitter. “Todos podemos entender a severidade da situação [da Covid], e todos podemos obedecer as regras de prevenção e controle, mas também deveríamos poder realizar nosso desejo de ir para casa no Ano Novo Lunar”.

Agente de saúde com roupa de proteção faz teste de Covid-19 em morador de complexo residencial em Xian, na China / 27/12/2021 cnsphoto via REUTERS

À medida que as críticas cresciam, até mesmo a mídia estatal entrou na discussão. “É da natureza humana querer voltar para casa para reuniões durante o Festival de Primavera, por que é tão malicioso?”, disse o veículo oficial do Partido Comunista, O Diário do Povo, em uma publicação nas redes sociais no sábado (22).

Em um comentário na sexta-feira (21), a televisão estatal CCTV acusou as autoridades locais de “deliberadamente criar obstáculos e dificuldades para que as pessoas voltem para casa”, acrescentando que muitos estavam “ignorando os requisitos da prevenção epidêmica científica e adotando uma posição única para diferentes casos”.

Para poder embarcar em trens, voos, ônibus e passar por pontos de fiscalização nas estradas, viajantes na China devem possuir um código verde de saúde em seus celulares – indicando que não estiveram recentemente em áreas com infecções por Covid-19. Mas as autoridades locais frequentemente impõem seus próprios requerimentos, impedindo pessoas de voltar ou sujeitando-as a uma quarentena longa mesmo se seu código de saúde estiver verde.

Na semana passada, um trabalhador da metrópole de Shenzhen estava viajando em um trem para casa, na província de Guangxi, quando as autoridades locais de sua cidade disseram que após a sua chegada, ela deveria passar uma semana em quarentena em um hotel, e então uma semana de isolamento em casa, de acordo com a mídia estatal chinesa.

Não disposta a passar o festival isolada, ao custo de 2.100 yuans por uma quarentena em um hotel, a mulher desceu do trem e comprou uma passagem de volta para Shenzhen.

Surtos de Covid-19 na China

As restrições locais rigorosas vêm parcialmente da pressão política tremenda para que as autoridades locais impeçam aumentos nos casos de Covid – muitas vezes sob ameaças de punições severas, caso aconteça. Com o Ano Novo Lunar e as Olimpíadas de Inverno de Pequim muito próximos, a pressão só aumentou.

Nas últimas semanas, a China está lidando com alguns surtos de Covid, desde um surto da variante Delta no noroeste da cidade de Xi’an, até um surto de Ômicron na cidade portuária de Tiajin. Em dado momento, mais de 20 milhões de residentes em três cidades chinesas estavam sob lockdown completo, impedidos de sair de suas casas.

Xian, China / China Daily via REUTERS

Na segunda-feira (24), as autoridades de Xi’an anunciaram que a cidade começará a aliviar o lockdown, que confinou seus 13 milhões de residentes em casa durante um mês. As medidas severas causaram crises de abastecimento de alimentos e cuidados médicos negados a pacientes críticos, causando revolta entre os moradores.

Pequim, que deve receber a Olimpíada de Inverno de 2022 a partir de 4 de fevereiro, reportou 43 casos de Covid desde 15 de janeiro. Eles incluem seis infecções pela Ômicron – os quais as autoridades locais culparam correspondências vindas do Canadá pela transmissão – e uma concentração de casos de Delta no distrito de Fengtai, que se espalhou por duas províncias vizinhas. No domingo (23), Fengtai iniciou uma campanha de testagem em massa, mirando coletar amostrar de seus 2 milhões de residentes em um dia.

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Morador faz teste de Covid-19 em uma área residencial que está sob restrições, após recente surto de coronavírus em Xian, na província de Shaanxi, no norte da China / AFP via Getty Images

A capital chinesa aconselhou seus moradores a não viajar para casa durante o feriado, assim como fizeram outras cidades grandes como Xangai, onde uma grande parte da população vem de cidades menores ou da área rural.

Em Dongguan, um centro de manufatura ao sul, que abriga cerca de 7 milhões de trabalhadores migrantes, o governo disse que daria 500 milhões de yeans para funcionários não locais que ficassem na cidade para o Ano Novo Lunar, com cada pessoa recebendo vouchers digitais de 500 yuans, disse a mídia estatal.

Este conteúdo foi criado originalmente em inglês.

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