Finlândia mantém título de "país mais feliz do mundo" em meio à crise

País nórdico ficou no topo da lista pelo oitavo ano consecutivo, apesar de dificuldades econômicas

Anne Kauranen, da Reuters
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Dificuldades econômicas estão gerando um clima de apreensão no país mais feliz do mundo. Mas mesmo depois de quase três anos desempregada, Juho-Pekka Palomaa, de 33 anos, ainda não se deixou abater pelos problemas da Finlândia.

O país enfrenta estagnação econômica, aumento do desemprego e finanças públicas fragilizadas, mas mesmo assim conseguiu garantir o título de país mais feliz do mundo pelo oitavo ano consecutivo, conforme o Relatório Mundial da Felicidade de 2025.

Segundo especialistas, o sucesso se deve em grande parte a um generoso Estado de bem-estar social. Os benefícios, no entanto, estão sendo reduzidos à medida que o governo enfrenta os custos do envelhecimento populacional.

"Sou grato por a Finlândia ter uma rede de segurança e previdência social que me apoiou financeiramente... Então, talvez eu não esteja mais infeliz do que antes", disse Palomaa, que marcou os 1.000 dias de desemprego com uma ação nas escadarias do parlamento, distribuindo comida às pessoas.

"Mas não sinto que haja muito que eu possa fazer para mudar minha situação", disse o ex-produtor de vídeo, que já se candidatou para inúmeros empregos e participou de 11 entrevistas, sem sucesso.

Embora os auxílios-desemprego tenham sido reduzidos, o governo preservou as pensões "quase sagradas", afirmou ele.

Crise econômica

A economia finlandesa, dependente das exportações, tem enfrentado dificuldades desde o colapso da Nokia. A empresa de telefonia, que já foi a companhia mais valiosa da Europa, em 2014, fracassou na transição para smartphones.

As sanções contra a Rússia, devido à guerra na Ucrânia, também afetaram as exportações e o turismo, assim como a incerteza em relação às tarifas e ao comércio global.

O Banco da Finlândia prevê um crescimento econômico de 0,3% este ano, abaixo dos 0,4% previstos para 2024. O desemprego está entre os piores da União Europeia e atingiu o nível mais alto em pelo menos 15 anos, chegando a 10,3% em outubro, segundo dados divulgados nesta terça-feira (25) pelo Instituto Nacional de Estatística da Finlândia. A taxa foi mais que o dobro entre os jovens de 15 a 24 anos, de 22,4%.

A Comissão Europeia deve decidir nesta terça-feira se vai propor a inclusão da Finlândia no "Procedimento de Déficit Excessivo", após prever que o país terá um déficit no orçamento acima do limite de 3% da União Europeia nos próximos três anos.

A precariedade das finanças públicas já levou o governo a começar a cortar benefícios do Estado de bem-estar social, incluindo o seguro-desemprego, o auxílio-moradia e algumas instalações médicas.

"Estou sinceramente apavorada pelos mais jovens", disse Hanna Taimio, de 54 anos, outra finlandesa desempregada que teme nunca mais conseguir um trabalho. "Todos esses cortes e reduções... é realmente assustador."

O governo de coligação de direita, no poder desde 2023, pretende "reforçar as finanças públicas e controlar a crescente dívida", disse o ministro do Emprego, Matias Marttinen, à Reuters.

O ministro classificou a alta taxa de desemprego como "uma situação terrível", mas defendeu a decisão do governo de facilitar as demissões para reduzir os riscos de contratação para as empresas. O objetivo seria, em última análise, impulsionar o emprego.

Alguns críticos argumentam, no entanto, que as medidas de austeridade exacerbaram os desafios econômicos e o pessimismo do consumidor.

Lauri Holappa, diretor do Centro Finlandês de Nova Análise Econômica, apontou que os dados sugerem que as medidas de consolidação fiscal poderiam até ter levado a um aumento da dívida pública.

Nível de felicidade segue estável

Mas a felicidade vai muito além da economia.

As avaliações medidas na pesquisa de felicidade são determinadas mais por fatores como resiliência e capacidade de "lidar de forma colaborativa e construtiva em tempos difíceis", do que pelas condições econômicas nacionais, disse o editor do relatório, o professor emérito John Helliwell.

"É claro que a Finlândia tem um nível de resiliência muito alto", afirmou.

Dados de uma pesquisa realizada pela empresa de análise Gallup e consultados pela Reuters, referentes ao próximo ano, não mostram flutuações significativas nos níveis de felicidade relatados pelos finlandeses. A pesquisa também leva em consideração indicadores-chave como PIB per capita, apoio social e expectativa de vida saudável.

Abalado pelo impacto financeiro de seu longo período de desemprego, Palomaa buscou apoio em uma sauna comunitária gratuita, administrada e financiada por voluntários, às margens do Mar Báltico, em Helsinque.

"A sauna é um lugar onde todos são iguais... Você não pode dizer, com base na aparência de alguém, o que essa pessoa faz da vida ou quem ela é", disse.

Quando perguntou aos seus seguidores nas redes sociais o que fazer no seu milésimo dia de desemprego, ele obteve um milhão de visualizações e uma enxurrada de sugestões -- incluindo a comemoração em que cada um trazia sua própria comida, que ele organizou nos degraus do parlamento.

"Obviamente, estou aqui para celebrar algo que nunca quis celebrar", disse ele, enquanto distribuía doces caseiros sob a garoa fina.

Mas "decidi que este é o meu momento", acrescentou. "Tenho que aproveitar o momento e fazer algo a respeito."