Gaza terá festival de cinema em meio ao cessar-fogo: "Desafiamos a morte"

Festival Internacional de Cinema de Mulheres de Gaza, que acontece de 26 a 31 de outubro, exibirá filme premiado com Leão de Prata em Veneza na abertura; organizadores relatam desafios à CNN

Léo Lopes, da CNN, em São Paulo
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"Com esse festival, com os filmes que vamos exibir, nós desafiamos a morte com vida. Nós queremos viver e queremos criar. Com esses filmes e iniciativas como essa, desafiamos a morte."

De Khan Younis, no sul da Faixa de Gaza, Dr. Ezzaldeen Shalh relata à CNN Brasil a preparação para um evento que deve marcar a retomada dos eventos culturais em meio ao cessar-fogo no território palestino.

Entre os dias 26 e 31 de outubro, vai acontecer a primeira edição do Festival Internacional de Cinema de Mulheres de Gaza. A expectativa é de que sejam exibidos 79 filmes de 28 países. Os organizadores esperam receber cerca de 300 pessoas por dia.

"Para as pessoas em Gaza, o cinema significa não apenas a vitória sobre a guerra, mas a vida em si", acrescenta o presidente e fundador do festival.

A sessão de abertura contará com a exibição do filme "A Voz de Hind Rajab", da diretora tunisiana Kaouther Ben Hania.

O filme conta a história da menina de 5 anos morta com seus parentes em um carro que foi alvo das forças israelenses em Gaza. Rajab inicialmente sobreviveu ao ataque e chegou a contatar o Crescente Vermelho, mas o veículo foi encontrado posteriormente com ela e os agentes humanitários que foram socorrê-la mortos.

A obra venceu o Leão de Prata do Grande Prêmio do Júri no Festival de Veneza e quebrou o recorde de tempo de aplauso.

“Estou realmente comovida que meu filme ‘A Voz de Hind Rajab’ tenha sido escolhido para abrir a primeira edição do Festival Internacional de Cinema de Mulheres de Gaza”, disse Ben Hania nas redes sociais.

“Ao sediar este festival em uma cidade ainda marcada pela devastação, os organizadores afirmam que o cinema pode ser uma forma de sobrevivência, uma maneira de documentar a dor e um meio de resgatar a narrativa”, completou.

O festival de cinema está sendo organizado há cerca de um ano por um grupo de mais de 50 pessoas – majoritariamente mulheres, de dentro e fora de Gaza.

"Em Gaza, temos cinco pessoas que organizam o festival e assumem responsabilidade por cada detalhe da organização. E temos também 25 voluntários. Fora de Gaza, somos um grande grupo de diretores, roteiristas, assistentes e tantas outras pessoas que trabalham com cinema e engajaram nessa iniciativa", diz Shalh, que também preside o Festival Internacional de Cinema de Jerusalém.

"Na organização, somos três homens. Só estou aqui porque tive a ideia", brinca.

A presidente honorária do festival é a cineasta Monica Maurer, diretora e ativista da causa palestina há décadas. Para a avaliação dos filmes, há um júri de documentários e outro de "filmes narrativos".

O júri de documentários é presidido pela diretora palestina Annemarie Jacir, cujo filme "Palestina 36" foi selecionado para representar a Palestina no Oscar de 2026. Também compõem o júri o produtor do Bahrein Bassim Al Thawadi, a produtora italiana Graziella Bildesheim, o diretor do Kuwait Abdulaziz Al-Sayegh e a editora cubana Maricet Sancristobal.

Já o júri de "filmes narrativos" é presidido pela diretora francesa Céline Sciamma. Também compõem o júri o diretor marroquino Mohamed El Younsi, a atriz italiana Jasmine Trinca, o escritor e diretor palestino Fajr Yacoub e a atriz e diretora teatral argelina Moni Boualam.

"Os filmes selecionados para serem exibidos nessa edição não falam somente sobre as mulheres de Gaza ou sobre a mulher palestina. São 79 filmes que contam as histórias de mulheres do mundo todo", diz à CNN Mohammad Sahli, que também colabora na organização.

"Nossos equipamentos foram destruídos"

Os organizadores discutiram a possibilidade de realizar o evento de forma virtual, mas o cessar-fogo – em vigor desde o dia 10 de outubro – possibilitou a concretização do festival em Gaza.

O plano do Dr. Ezzaldeen era levar o evento para o centro cultural Rashad Al Shawwa – um local proeminente da cultura palestina, na Cidade de Gaza, que acabou destruído pelos bombardeios israelenses.

"Pensamos em fazer nos escombros do centro, mas não temos certeza se há alguma bomba que não explodiu. E quando fomos visitar o local, já havia se transformado em um ponto de refúgio", explicou.

Por fim, os organizadores decidiram realizar o festival em um campo de refugiados na cidade de Deir al-Balah, a cerca de 15 quilômetros da Cidade de Gaza.

Apesar das dificuldades impostas pela situação humanitária no território, os organizadores se desdobraram para garantir a estrutura necessária.

"O projetor que tínhamos antes da guerra e todos nossos equipamentos foram bombardeados e perdemos literalmente tudo", relatou o Dr. Ezzaldeen.

"A única opção que temos hoje é uma TV de 55 polegadas. Não encontramos nada maior. Quando você pergunta para outras pessoas e organizações, eles também perderam tudo. Vai ser pequeno, mas não temos outra solução", acrescentou, explicando que eles conseguiram também caixas de som para garantir que todos escutem os filmes.

O presidente do festival disse que a principal dificuldade é o acesso a eletricidade, já que o sistema elétrico de Gaza foi destruído pelos ataques israelenses.

"Tivemos que alugar um gerador, que é caro porque não há energia solar. E vai precisar de combustível, que também não tínhamos. Tentamos resolver todos esse problemas para as pessoas que estão esperando o festival", completou.

O evento também conta com apoio do Ministério da Cultura palestino – sediado na Cisjordânia, ligado à AP (Autoridade Palestina). "Eles prometeram dar apoio financeiro. Não esperamos que eles vão pagar muito, mas qualquer quantia é muito importante", disse o Dr. Ezzaldeen.

Com o estabelecimento do festival, os organizadores esperam poder oferecer cursos de cinema para mulheres de Gaza a partir de janeiro – uma ideia que só não saiu do papel ainda pela falta de verba.

"Uma das metas mais importantes do festival é organizar esse programa de treinamento. A ideia é organizar cursos de seis meses para 20 mulheres e o resultado seria a produção de cinco curtas, que seriam exibidos no festival. Se organizarmos cursos assim todos os anos, em algum tempo vamos ter um grupo forte de mulheres cineastas em Gaza", declarou o fundador do festival.