Governo dos EUA investiga sumiço de uísque japonês de R$ 30 mil dado a Pompeo

Autoridades americanas são proibidas de aceitar presentes pessoais de governos estrangeiros e podem ser punidas; ex-secretário alega nunca ter visto o presente

O ex-secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo
O ex-secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo Foto: Ashley Landis - 23.jul.2020/Pool via REUTERS

Kylie Atwood e Veronica Stracqualursi, CNN

Ouvir notícia

O Departamento de Estado dos EUA está investigando o paradeiro de uma garrafa de uísque japonês de US$ 5.800 (equivalente a R$ 30 mil) que foi dada como presente ao ex-secretário de Estado Mike Pompeo, de acordo com os arquivos do governo dos Estados Unidos no registro federal.

O governo do Japão deu o uísque para Pompeo em 2019, segundo o documento. Mas não está claro se o próprio Pompeo recebeu o uísque ou se algum funcionário o aceitou.

Pompeo disse nesta quinta-feira (5) que nunca recebeu a garrafa de uísque e que “não tinha ideia” de que ela habia sumido, nem o que aconteceu com o presente.

“Suponho que nunca foi tocado. Nunca chegou até mim. Não tenho ideia de como o Departamento de Estado perdeu essa coisa, embora tenha visto uma enorme incompetência no Departamento de Estado durante meu tempo lá”, disse o ex-secretário de Estado durante entrevista na Fox News

O advogado de Pompeo, William Burck, disse ao The Wall Street Journal que o ex-secretário de Estado “não se lembra de ter recebido a garrafa de uísque e não tem nenhum conhecimento do que aconteceu com ela”.

A CNN solicitou comentários do porta-voz de Pompeo e de um porta-voz do Departamento de Estado. “O Departamento está investigando o assunto e tem um inquérito em andamento”, diz o documento.

‘Conversa maluca’, diz Pompeo

Na Fox News, Pompeo chamou o caso de “conversa maluca” e disse que o Departamento de Estado deveria entrar em contato com ele: “Fico feliz em tentar ajudá-los a encontrar”. O presente perdido pode levantar preocupações éticas para Pompeo, que deu fortes indícios de que poderá ser candidato à presidência em 2024.

As autoridades americanas estão proibidas de aceitar presentes pessoais de governos estrangeiros. Mas “a não aceitação causaria constrangimento ao doador e ao governo dos EUA”, disse o Departamento de Estado no documento, então os presentes são entregues aos arquivos do governo.

As autoridades americanas estão legalmente autorizadas a guardar presentes que custam menos de US$ 390 (cerca de R$ 2 mil). Se houver presentes acima desse preço, os funcionários são legalmente obrigados a pagar pelo custo estimado.

O secretário de estado dos EUA, Mike Pompeo
Mike Pompeo
Foto: Erin Scott – 14.set.2020 / Reuters

O especialista em ética de governo, Walter Shaub, disse à CNN por e-mail que “a omissão deliberada e intencional de divulgar um presente” pode resultar em uma pena civil de US$ 50.000 (equivalente a R$ 150 mil), ou até mesmo ser preso, se processado de acordo com o estatuto de declarações falsas.

“A questão de um oficial de gabinete receber presentes de governos estrangeiros é séria”, escreveu Shaub, que foi diretor do Escritório de Ética do Governo e agora trabalha para o grupo de vigilância Project on Government Oversight

“Se for descoberto que o secretário Pompeo levou esta garrafa de US$ 5.800, ele deveria ter divulgado isso como um presente em seu relatório de divulgação financeira.”

Shaub observou que, no passado, o governo dos EUA já processou falhas na divulgação de presentes em relatórios de divulgação financeira.

O caro uísque foi incluído em uma lista de presentes preparada pelo Escritório de Protocolo do Departamento de Estado, que relaciona todos os presentes a altos funcionários da administração.

No início deste ano, o Departamento de Estado descobriu que Pompeo e sua esposa Susan Pompeo violaram as regras de ética federais ao fazer mais de 100 solicitações pessoais e não relacionadas ao trabalho aos funcionários do departamento – desde pedidos de presentes até agendamento de consultas em salão de beleza e cuidados com o cachorro da família.

Michael Conte, da CNN, contribuiu para esta reportagem.

(Este texto é uma tradução. Para ler o original, em inglês, clique aqui)

Mais Recentes da CNN