Guerra entre Rússia e Ucrânia é marcada por assimetria militar entre os países

Gastos ucranianos com defesa em 2021 equivalem a 10% do total de investimentos russos na área

Anne BarbosaGiovanna Bronzeda CNN

em São Paulo

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Depois de mais de duas semanas da invasão russa na Ucrânia, ambos os países seguem um na mira do outro. Com o passar do tempo, o conflito baseado em estratégias, força bélica e narrativas ganha elementos cada vez mais complexos – como o alerta feito pela Casa Branca de que a Rússia pode usar armas químicas, denúncias sobre o emprego de bombas proibidas e até ataques contra hospitais.

De um lado, o país liderado por Vladimir Putin enfrenta a resistência dos ucranianos, mesmo com uma larga vantagem bélica. Do outro, os cidadãos da Ucrânia, movidos a defender suas cidades com pouco ou quase nenhum treinamento.

Para entender melhor o que está em jogo, a equipe da CNN conversou com especialistas em tática militar e foi ver de perto alguns dos equipamentos similares aos utilizados na guerra, segundo o exército brasileiro.

Poderio militar

A diferença entre os dois lados do conflito é brutal. Apenas uma olhada na quantidade de recursos que as duas nações investem em defesa já indicam a assimetria militar.

Em 2021, a Rússia gastou quase US$ 45,8 bilhões (cerca de R$ 229,5 bilhões). Já a Ucrânia gastou praticamente 10% disso, com US$ 4,7 bilhões (que corresponde a R$ 23,5 bilhões).

Os dados são do The Military Balance 2022, feito pelo Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (IISS, da sigla de International Institute for Strategic Studies, em inglês).

Os números russos são maiores também entre os militares da ativa, que é quase cinco vezes maior que o da Ucrânia, militares da reserva, tanques e aeronaves. Destaque para os helicópteros, quantidade 17 vezes maior, e para os submarinos, que apenas a nação russa possui. No entanto, nem toda a força militar russa está empenhada na missão militar.

Para o professor de Relações Internacionais da Fecap, Alcides Peron, a estratégia da Rússia já tem se mostrado evidente depois dessas duas semanas.

“Ela não busca uma estratégia de ocupação total do território, mas a tomada de pontos estratégicos. Toda a estratégia e poderio russo têm sido utilizados para derrubar aeronaves e para produzir descoordenação”, disse.

Já em relação ao poder nuclear, por exemplo, a situação é completamente desproporcional. Segundo o Instituto Nacional da Paz, a Rússia possui mais de 6 mil ogivas nucleares, a maior quantidade dentre os países listados pelo órgão. Já a Ucrânia, após a queda da União Soviética em 1994, assinou o Memorando de Budapeste e aceitou desnuclearizar o país.

Kiev

Para o instrutor da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército Sandro Teixeira Moita, a capital da Ucrânia, Kiev, continua sendo peça-chave nesse conflito, mas “a demora” da tomada pelos russos, na verdade, pode fazer parte dos planos de Putin.

“A verdade é que se a gente comparar com muitos outros conflitos do século 21, os americanos levaram 25 dias para chegar em Bagdá, com estradas muito melhores que as ucranianas”, afirma.

O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, acabou ganhando ainda mais destaque por não ter deixado a capital, mesmo após o cerco russo a Kiev.

Isso provocou o aumento da atenção dos países ocidentais, integrantes da Otan, que têm ajudado a Ucrânia com o envio de munições, material, combustível e armas. Só que ,para os ucranianos, isso ainda é muito pouco.

Improviso

O Tenente-Coronel Ruy, comandante do 28º Batalhão de Infantaria Motorizado, explica que antes de um soldado ser enviado para uma missão, ele costuma passar por um longo e rigoroso treinamento em lugares chamados de “áreas de instrução".

"O treinamento desenvolvido dá segurança para o militar e segurança à população, porque o conflito moderno é contra o oponente, não contra a população civil", afirma.

Só que diante da ofensiva russa, muitos civis ucranianos foram encorajados a defender suas cidades com pouco ou quase nenhum preparo militar.

E do outro lado da batalha, mesmo com a vantagem numérica, a Rússia também se viu enviando para o combate soldados sem treinamento, segundo o próprio Ministério de Defesa do país.

Estratégia

Segundo especialistas, outro ponto preocupante é a Rússia ter abandonado os ataques cirúrgicos, que visam destruir pontos de infraestrutura do país, e investido naqueles que acabam matando civis.

A Rússia, inclusive, está sendo acusada de usar bombas do tipo cluster, de fragmentação, que causam um maior número de vítimas. E há o alerta de que o país possa usar armas químicas, o que agravaria ainda mais o nível dos ataques.

Segundo o Estatuto de Roma, acordo internacional e que instituiu o Tribunal Penal Internacional, o uso desses tipos de armas - caso comprovado - é considerado crime de guerra.

Denúncias da ONG Human Rights Watch indicam o uso de armas de fragmentação em diversos locais da Ucrânia. Já a Organização Mundial da Saúde (OMS) relatou ataques russos contra hospitais.

Essas ações se enquadram em crimes de guerra e a Rússia pode ser julgada criminalmente caso o tribunal identifique a intencionalidade nesses ataques.

Próximos passos

Há ainda uma outra batalha: a da informação. As tentativas de controlar a narrativa dos fatos partem dos dois lados do conflito, o que contribui para um cenário incompleto. Por isso, os próximos passos seguem incertos.

"Eu não me arriscaria a dizer que a Rússia vencerá essa guerra, ou a Ucrânia vencerá essa guerra. Dependerá da evolução dos acontecimentos e cabe a nós continuarmos acompanhando e ver o que sairá disso", afirma o professor Sandro Teixeira Moita.

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