Hegseth alega falsamente que Biden enviou tropas a centros de votação

Onze estados que responderam à CNN desmentiram o envio de militares a postos eleitorais, contrariando secretário de defesa

Daniel Dale, da CNN
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O secretário de Defesa Pete Hegseth fez uma afirmação falsa sobre os militares em seu depoimento à Câmara na quarta-feira (29). Em seguida, repetiu a afirmação falsa em seu depoimento ao Senado na quinta-feira.

A deputada democrata Jill Tokuda perguntou a Hegseth, em uma audiência de quarta-feira do Comitê de Serviços Armados da Câmara, se ele cumpriria uma ordem hipotética futura do presidente Donald Trump para enviar tropas a locais de votação durante as eleições de meio de mandato deste ano. Tokuda disse a ele que tal envio violaria a lei federal que proíbe o envio de tropas federais a locais de votação, a menos que isso seja “necessário para repelir inimigos armados dos Estados Unidos”.

Depois de dizer que rejeita a ideia de que Trump emitiria ordens ilegais, Hegseth afirmou momentos depois, durante a troca: “Vou observar que, em 2024, tropas foram deslo… – isso foi Joe Biden, aliás, Joe Biden – foram enviadas a locais de votação em 15 estados.” Ele repetiu: “2024 – Joe Biden – tropas enviadas a locais de votação em 15 estados. Explique isso para mim.”

Há uma explicação simples. A afirmação de Hegseth não é verdadeira.

Todas as ativações da Guarda Nacional relacionadas à eleição de 2024 foram ordenadas por governadores estaduais, não por Biden. E todos os 11 estados que responderam aos pedidos de informação da CNN na semana passada disseram que nenhuma de suas tropas foi enviada a locais de votação.

Em vez disso, os estados disseram que seus integrantes da Guarda atuaram nos bastidores, em outros locais — ajudando na cibersegurança das eleições ou servindo como contatos internos — ou que a Guarda estadual nem chegou a ser ativada para a eleição.

Iowa foi um caso típico. “Ajudamos na parte de cibersegurança em qualquer grande eleição. Mas nunca saímos do nosso centro estadual de operações de emergência”, disse a porta-voz da Guarda Nacional de Iowa, Jackie Schmillen, em entrevista, acrescentando que o pessoal da Guarda do estado fica “em um porão”. Ela enfatizou: “Nunca fomos a um local de votação como parte de uma eleição”.

Da mesma forma, “A Guarda Nacional do Arizona não enviou membros da Guarda para locais de votação em 2024”, disse por e-mail a porta-voz da Guarda estadual, Erin Hannigan. Em vez disso, ela explicou: “Nossa Força-Tarefa Conjunta de Cibersegurança ativou dois integrantes em regime de prontidão em serviço estadual. Em caso de um possível incidente cibernético, os membros da nossa Força-Tarefa estariam disponíveis para ajudar o Departamento de Segurança Interna do Arizona. Nenhuma solicitação desse tipo foi feita.”

Hegseth não especificou a quais estados estava se referindo.

O Departamento de Defesa reconheceu que havia recebido os pedidos de comentário da CNN sobre suas alegações, mas acabou não fornecendo resposta.

Assim, a CNN entrou em contato com os 15 estados que um artigo do dia da eleição de 2024, publicado pelo veículo militar Stars and Stripes, disse terem ativado tropas da Guarda naquele dia, citando a própria Guarda como fonte da informação.

Quatro dos estados (Alabama, Tennessee, Texas e Wisconsin) não responderam, mas também não foi possível encontrar evidências de que esses estados tenham enviado tropas a locais de votação em 2024.

De qualquer forma, fica claro, a partir dos 11 estados que responderam — todos afirmando que não enviaram tropas a locais de votação — que a alegação de Hegseth de que tropas “foram enviadas a locais de votação em 15 estados” está incorreta.

Hegseth foi contestado sobre sua afirmação de quarta-feira pela senadora democrata Elissa Slotkin em uma audiência do Comitê de Serviços Armados do Senado na quinta-feira (30). Ainda assim, ele reiterou durante essa troca: “A propósito, em 2024, sob a administração Biden, 15 estados enviaram tropas a locais de votação.”

Novamente, isso não é verdade.

Funções nos bastidores das eleições de 2024

Trump não disse que planeja enviar tropas a locais de votação em nenhuma eleição futura.

Houve uma eleição geral em que pelo menos alguns estados chegaram a enviar tropas da Guarda Nacional estadual a locais de votação: a eleição de 2020, durante o primeiro governo Trump.

Tropas, ao menos muitas delas sem uniforme, auxiliaram em diversas funções nos locais de votação quando alguns trabalhadores eleitorais não puderam exercer suas funções por causa da pandemia de Covid-19.

Mas a afirmação de Hegseth era sobre a eleição de 2024, durante o governo Biden. E todos os estados que responderam à CNN e disseram ter tido integrantes da Guarda Nacional trabalhando nessa eleição deixaram claro que esse trabalho ocorreu fora da vista do público.

Seus comentários foram consistentes com uma declaração feita a repórteres no dia anterior à eleição de 2024 por Ellis Hopkins, alto funcionário do National Guard Bureau.

Hopkins disse que, dos 10 estados que tinham pessoal da Guarda apoiando a eleição até aquele momento, “nenhum deles estava em modo de distúrbio civil ou resposta a distúrbios civis. Eles estavam em apoio geral ou dando suporte a redes cibernéticas”.

Veja o que os estados disseram à CNN na semana passada:

Delaware: “Delaware não teve nenhum soldado ou aviador em locais de votação”, disse Jonah Anderson, porta-voz do governador democrata Matt Meyer. Em vez disso, ele afirmou que 15 pessoas da Guarda Nacional de Delaware ajudaram no suporte de cibersegurança. Elas trabalharam remotamente ou a partir do escritório de tecnologia do estado.

Illinois: Matt Dietrich, porta-voz do conselho eleitoral de Illinois, disse que não havia tropas da Guarda em locais de votação. Ele afirmou que a Guarda não foi formalmente ativada pelo governador democrata JB Pritzker, mas um pequeno número de integrantes participou de trabalhos de cibersegurança eleitoral por meio de um acordo com o conselho eleitoral para ajudar a responder a eventuais incidentes; nenhum incidente ocorreu. “Mesmo que tivesse ocorrido algum incidente, é altamente improvável que isso resultasse na presença da Guarda em um local de votação. A fonte mais provável de um incidente desse tipo seria o escritório de um escrivão de condado ou um conselho eleitoral”, disse Dietrich em um e-mail.

Novo México: “Não havia membros da Guarda Nacional do Novo México em locais de votação em 2024; qualquer afirmação em contrário é falsa”, disse por e-mail Michael Coleman, porta-voz da governadora democrata Michelle Lujan Grisham. Coleman afirmou que a Guarda estadual ajuda o escritório eleitoral a monitorar sua rede contra intrusões cibernéticas e fornece um prédio seguro em sua sede, em Santa Fé, para que autoridades eleitorais acompanhem as operações do dia da eleição.

Carolina do Norte: “A Guarda Nacional da Carolina do Norte não teve nenhum integrante enviado a locais de votação na eleição presidencial de 2024”, informou a Guarda estadual em um e-mail.

Pensilvânia: “Nenhum membro da Guarda Nacional da Pensilvânia esteve presente em locais de votação”, disse Wayne Hall, porta-voz da Guarda Nacional do estado, em um e-mail. “A PANG forneceu oficiais de ligação à Agência de Gestão de Emergências da Pensilvânia e ao Escritório de Gestão de Emergências da Cidade da Filadélfia para ajudar na coordenação entre agências e no fluxo de informações.” O gabinete do governador democrata Josh Shapiro acrescentou em um e-mail que seis pessoas da Guarda Nacional atuaram nessas funções de ligação.

Virgínia Ocidental: “Não tivemos pessoal presente em locais de votação”, disse Ariana Shuemake, falando pela Guarda estadual, em um e-mail. Em vez disso, ela afirmou: “Nosso pessoal prestou suporte cibernético”.

Porta-vozes de outros três estados na lista do Stars and Stripes que supostamente teriam ativado pessoal da Guarda Nacional estadual para o Dia da Eleição de 2024, Havaí, Oregon e Washington, disseram que, na verdade, não chegaram a fazer isso.

Havaí: “A Guarda Nacional do Havaí não ‘desdobrou’ nem ativou apoio para as eleições de 2024”, disse Jeff Hickman, porta-voz do departamento de defesa do estado.

Oregon: “O planejamento da Guarda Nacional de Oregon ocorreu em 2024, mas não foi convocada para fornecer apoio adicional às forças de segurança”, disse Stephen Bomar, porta-voz do departamento militar do estado. Luke Harkins, porta-voz da governadora democrata Tina Kotek, observou que as eleições de Oregon são conduzidas inteiramente por voto por correio, sem locais de votação tradicionais. “A ideia de que a Guarda Nacional de Oregon foi ativada em locais de votação é simplesmente falsa. Oregon é um estado onde 100% das eleições são por voto por correspondência, e isso já acontece há mais de duas décadas”, disse Harkins. Ele acrescentou: “Qualquer planejamento que tenha ocorrido foi para estar preparado caso houvesse interrupções nos correios e/ou locais de caixas de coleta.”

Estado de Washington: “Tivemos tropas apenas em prontidão para apoiar qualquer resposta a distúrbios civis, se necessário. A eleição foi tranquila — não houve solicitações de apoio e não foi necessário colocar ninguém em serviço ativo estadual. Certamente, não enviamos pessoas para locais de votação”, disse Karina Shagren, porta-voz do departamento militar do estado.

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