Incêndios florestais se espalham pelo mundo e atingem novas regiões

Florestas que raramente queimavam têm registrado grandes incêndios; para especialistas, as mudanças climáticas tornam queimadas mais frequentes e intensas

Bombeiros combatem incêndio florestal na região de Yakutia, na Rússia
Bombeiros combatem incêndio florestal na região de Yakutia, na Rússia Foto: Russia Emergencies MinistryTASS via Getty Images (21.jul.2021)

Ivana Kottasová, CNN

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Localizada na Rússia, Yakutsk é conhecida como a cidade mais fria do mundo. Em um lugar onde até mesmo um nariz exposto durante os meses de inverno pode causar uma dor aguda, as pessoas estão acostumadas a tomar precauções contra temperaturas congelantes, incluindo gastar tempo extra pela manhã para se vestir com várias camadas de agasalhos. No entanto, o clima parece estar mudando na cidade de pouco mais de 300 mil habitantes.

Nos últimos dias, Yakutsk está envolta em fumça enquanto incêndios florestais próximos devastam florestas que foram ressecadas por semanas de ondas de calor. Os incêndios são extensos e, com os ventos fortes, a fumaça tem chegado até o Alasca. Nesta segunda-feira (19), a Rússia registrou mais de 400 incêndios florestais em um só dia

Nos Estados Unidos, o incêndio florestal em Oregon também provocou uma densa fumaça que avançou cerca de 3 mil milhas de uma extremidade do continente à outra. Nesta quarta-feira (21), a cidade de Nova York amanheceu com um nascer do sol vermelho intenso, o cheiro de incêndios florestais e uma névoa marrom espessa – resultado das queimadas em Oregon. 

Os bombeiros em ambos países, assim como no Canadá, estão travando uma batalha quase impossível para sufocar as chamas com bombas d’água e mangueiras, e prevenir a propagação do fogo cavando aceiros, espécie de trincheira cavada na terra que impede o avanço das chamas. 

A fumaça provocada pelas chamas de Yakutia, na Sibéria, era tão densa nesta terça-feira (20) que o piloto de reconhecimento Svyatoslav Kolesov não conseguiu fazer seu trabalho. Não havia como pilotar o avião com segurança diante de uma visibilidade tão ruim.

Kolesov é piloto sênior de observação aérea na região de Yakutia, no extremo leste da Rússia. Esta parte da Sibéria está sujeita a incêndios florestais, com grande parte da região coberta por florestas. Mas Kolesov disse à CNN que as coisas estão diferentes neste ano.

“Novos incêndios surgiram no norte de Yakutia, em lugares onde não houve incêndios no ano passado e onde não havia queimado antes”, disse ele.

Kolesov está vendo em primeira mão o que os cientistas vêm alertando há anos. Os incêndios florestais estão se tornando maiores e mais intensos e também estão acontecendo em lugares que não estão acostumados a eles.

“A temporada de incêndios está ficando mais longa, os incêndios estão ficando maiores, estão queimando com mais intensidade do que nunca”, disse Thomas Smith, professor assistente de Geografia Ambiental na London School of Economics.

Fatores que podem provocar o aumento de incêndios florestais

Muitos fatores, como a má gestão da terra, desempenham um papel nos incêndios florestais, mas as mudanças climáticas estão tornando-os mais frequentes e intensos.

A maior parte da Europa, oeste dos EUA, sudoeste do Canadá e algumas regiões da América do Sul experimentaram condições mais secas do que a média em junho, de acordo com o Serviço de Mudança Climática Copernicus, transformando as florestas em “caixas de pólvora”.

Aumento de temperatura acima do normal provou mais de 400 incêndios florestais
Aumento de temperatura acima do normal provou mais de 400 incêndios florestais na Rússia nesta segunda-feira (19)
Foto: Reprodução/CNN Brasil (19.jul.2021)

Os incêndios florestais em Yakutia consumiram mais de 6,5 milhões de acres desde o início do ano, de acordo com dados publicados pelo Serviço de Proteção Florestal Aérea do país. São quase 5 milhões de campos de futebol.

Já no Oregon, oito incêndios queimaram quase 475 mil acres até agora, em uma temporada de incêndios que as autoridades disseram que foi diferente de tudo que eles viram antes. 

A província canadense de British Columbia declarou emergência devido aos incêndios florestais ocorridos nesta quarta-feira (21). Quase 300 incêndios florestais ativos foram relatados no local.

Os incêndios florestais são parte de um ciclo climático vicioso. Não só as mudanças climáticas estão alimentando os incêndios, mas sua queima libera ainda mais carbono na atmosfera, o que agrava a atual crise. Alguns cientistas dizem que os incêndios deste ano são particularmente graves.

“Já em meados de julho, as emissões totais estimadas são mais altas do que muitos dos totais dos anos anteriores para os períodos de verão, o que mostra que este é um problema muito persistente”, disse Mark Parrington, cientista sênior do Serviço de Monitoramento da Atmosfera Copernicus.

Ele disse que Yakutia tem experimentado incêndios de alta intensidade continuamente desde os últimos dias de junho.

“Se olharmos para a série temporal, vemos níveis equivalentes de intensidade, mas não por três semanas, eu acho que a mais longa [queimada]. Antes foi talvez algumas semanas ou 10 dias, algo assim, mais isolado”, disse ele, acrescentando que a temporada de incêndios geralmente dura até meados de agosto, então é provável que os incêndios continuem.

Vista aérea de Yakutsk, na Rússia, mostra fumaça sobre a cidade
Incêndios florestais atingem regiões que raramente queimavam; vista aérea de Yakutsk, na Rússia, mostra fumaça de queimadas sobre a cidade
Foto: Gavriil StarostinTASS via Getty Images

Mais frequente e mais intenso

Smith disse que embora partes da Sibéria e do Canadá sempre tenham sofrido incêndios florestais, a preocupação é que os incêndios agora estão se tornando muito mais frequentes.

“Era uma vez quando você tinha um incêndio a cada 100 a 150 anos em um local, o que significa que a floresta se regenera completamente e você acaba com uma floresta madura, e então o fogo vem, e então você começa de novo”, disse ele.

“O que estamos vendo em algumas partes da Sibéria Oriental é que os incêndios estão acontecendo a cada 10 a 30 anos agora, em alguns lugares, e o que isso significa é que a floresta não será capaz de amadurecer, e você acaba com uma mudança [do ecossistema] para uma espécie de terreno ou pastagem pantanosa.”

Ondas de calor e secas também estão tornando novas áreas vulneráveis a incêndios. “No Ártico Siberiano, estamos preocupados com o ecossistema ao norte da floresta, que normalmente seria muito úmido ou congelado para queimar”, disse Smith. “Nos últimos dois anos, vimos muitos incêndios neste ecossistema, o que sugere que as coisas estão mudando lá.”

Isso também tem um efeito sério e de longo prazo no clima. As cinzas de incêndios também podem acelerar o aquecimento global, escurecendo as superfícies que normalmente seriam de cor mais clara e refletiriam mais radiação solar.

As áreas afetadas por esses incêndios também incluem as turfeiras, que são alguns dos sumidouros de carbono mais eficazes do planeta, disse Parrington.

“Se eles estão queimando, então estão liberando carbono”, disse Parrington. “Está removendo um sistema de armazenamento de carbono que existe há milhares de anos e, portanto, há um impacto potencial disso.”

(Esse texto é uma tradução. Para ler o original, em inglês, clique aqui)

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