Índia aplica 1 bilhão de doses de vacinas contra a Covid-19, mas está longe do fim

Em uma nação de 1,3 bilhões, milhões de indianos ainda não receberam nenhuma dose enquanto país se prepara para retomar exportação em massa

Rhea MogulEsha Mitrada CNN

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A Índia aplicou mais de 1 bilhão de doses de vacinas contra a Covid-19, um feito notável apenas meses após uma segunda onda de infecção ter matado milhares de pessoas em todo o país.

Mas, enquanto o país comemorava a passagem do marco na quinta-feira, alguns especialistas advertiram que a ameaça pandêmica não havia terminado. Em uma nação de 1,3 bilhões, milhões de pessoas ainda não receberam nenhuma dose.

Até agora, a Índia vacinou completamente apenas 30% de sua população adulta e aplicou uma dose em 74% deste público, informou o Ministério da Saúde da Índia em 16 de outubro. Essas estatísticas não incluem crianças menores de 18 anos, que constituem 41% da população da Índia e ainda não estão elegíveis para a vacina.

Mesmo enquanto a Índia corre para vacinar totalmente sua população adulta, o país está se abrindo e exportando milhões de doses de vacinas.

Na sexta-feira, os primeiros turistas estrangeiros chegaram ao país após uma pausa de quase 18 meses, e, dentro do país, milhões viajam para celebrar vários festivais, um movimento que deverá aumentar em novembro durante o Diwali, o festival hindu das luzes.

Os especialistas temem que as viagens interestaduais e a possibilidade de novas variantes possam levar a um terceiro surto de infecção, deixando as pessoas não vacinadas e as crianças em maior risco.

“É difícil prever, porque a experiência global mostra que as coisas podem azedar a qualquer momento”, disse o dr. Anant Bhan, um especialista global em saúde e política da cidade central de Bhopal, na Índia.

“Mas a tendência na Índia neste momento é muito encorajadora. O número de vacinas administradas é alto e não há um aumento nos casos”, completou.

Cerca de 8 milhões de doses estão sendo administradas em um dia típico, mas a Associação Médica Indiana (IMA) está pedindo que o governo cesse as exportações de doses até que mais pessoas sejam vacinadas no país.

Vacinas vs. segunda onda

A Índia teve duas ondas de Covid-19 – uma no ano passado, antes que as vacinas estivessem disponíveis, e a segunda, que começou apenas algumas semanas antes do ambicioso programa de vacinação do país no início deste ano.

As primeiras doses começaram a ser distribuídas em janeiro para cidadãos vulneráveis e trabalhadores da linha de frente, parte de um grupo prioritário de 300 milhões de pessoas – quase tantas pessoas quanto toda a população dos Estados Unidos.

Ao mesmo tempo, milhões de doses da Covishield – a vacina da AstraZeneca produzida na Índia – estavam sendo exportadas para outros países e para o consórcio global de compartilhamento de vacinas, o Covax.

O primeiro-ministro, Narendra Modi, afirmou que a Índia estava salvando “toda a humanidade” da tragédia. Mas em casa, o maior programa de vacinas do mundo estava lutando.

“Nós enfrentamos muitos percalços”, disse o dr. J. A. Jayalal, presidente da Associação Médica Indiana à CNN. “Não fomos capazes de atender nossa enorme demanda e houve muita hesitação, especialmente entre nossa população rural”.

As taxas de vacinação ainda eram muito baixas, pois a segunda onda da Covid atingiu o país no início de março e, no final do mês, o governo havia parado as exportações de vacinas para dar prioridade aos indianos.

O surto nos casos de Covid-19 trouxe pânico e desespero enquanto milhões tentavam acessar o sistema de saúde em colapso do país. Alguns pediram ajudas nas mídias sociais na esperança de conseguir um leito hospitalar ou oxigênio médico.

Em abril, semanas antes dos casos atingirem o pico de mais de 400.000 por dia, o fornecimento de vacina secou, com pelo menos cinco dos 29 estados da Índia relatando grave escassez.

Vários distritos no estado ocidental de Maharashtra tiveram que suspender temporariamente as campanhas de vacinação, incluindo mais de 70 centros na capital financeira Mumbai, de acordo com o ministro da Saúde do estado, Rajesh Tope.

O governo enfrentou críticas generalizadas pela forma como lidou com a crise. Para muitos, Modi subestimou a gravidade da pandemia.

Primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, no Parlamento em Nova Delhi
Primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, no Parlamento em Nova Delhi / Foto: Adnan Abidi/Reuters (29.jan.2021)

As autoridades aumentaram tardiamente o programa de vacinação, e em agosto mais centros de vacinação foram abertos e campanhas de educação foram lançadas nas áreas rurais.

Em 17 de setembro, aniversário de Modi, a Índia estabeleceu um recorde de vacinação de um único dia ao administrar mais de 25 milhões de doses. Naquela semana, o país atravessou um marco importante ao administrar pelo menos uma dose a mais de 60% de sua população adulta elegível.

Mas, como muitos países, as taxas de vacinação da Índia não estão distribuídas de maneira uniforme.

Nas áreas rurais, mais de 64% das pessoas receberam pelo menos uma dose de uma vacina. Na Índia urbana, onde as pessoas vivem em cidades e vilas mais povoadas, este número é próximo de 35%, de acordo com dados do Ministério da Saúde.

O desafio da Índia é melhorar as taxas em todo o país – e, o mais importante, vacinar suas crianças.

Crianças na fila

Desde o início da pandemia, menos de 1% das mortes por Covid-19 eram de jovens e crianças abaixo dos 15 anos, segundo o ministério da Saúde do país.

Mas vários estados estão tomando precauções extras e se preparando para um pior cenário, caso uma terceira onda atinja o país.

Os hospitais estão estocando oxigênio médico e alguns estados, incluindo Maharashtra, Tamil Nadu e Karnataka, estão construindo centros de tratamento da Covid-19, especialmente para crianças.

“Não sabemos como o vírus se comportará, mas não podemos nos dar ao luxo de estar despreparados desta vez”, disse Suhas Prabhu, chefe da Força Tarefa Pediátrica no estado ocidental de Maharashtra, segundo a Reuters.

“Nenhuma mãe deveria ter que correr em busca de uma cama de hospital quando seu filho está doente”.

A primeira vacina disponível para crianças indianas acima de 12 anos, a ZyCov-D, desenvolvida pela Cadila Healthcare Ltd, sediada em Gujarat, recebeu a Autorização de Uso de Emergência (EUA) em agosto.

Cerca de 10 milhões de doses da vacina estariam disponíveis por mês, disse o chefe da Força Tarefa da Covid-19 da Índia, V.K. Paul, à CNN-News18 na quarta-feira, acrescentando que o governo havia pedido ao Grupo Consultivo Técnico Nacional de Imunização da Índia orientações sobre como alocar a vacina.

“Nossa prioridade neste momento é continuar a explorar opções para crianças e adolescentes, com certeza, mas nosso objetivo é cobrir a população adulta para a qual não há mais falta de vacinas”, disse ele.

Outra vacina, a nacional Covaxin, desenvolvida pela Bharat Biotech e pelo Conselho Indiano de Pesquisa Médica, deverá ser administrada em breve de forma emergencial para crianças entre 2 e 18 anos.

Entretanto, a Organização Mundial de Saúde (OMS) ainda não a aprovou para adultos ou crianças.

Espera-se também que as vacinas desenvolvidas pela Johnson & Johnson e Moderna nos EUA sejam aplicadas na Índia este ano, embora a linha do tempo da aprovação não seja conhecida e nenhuma tenha sido aprovada para uso em crianças na Índia.

Preocupação com as exportações

A entrega de 1 bilhão de doses de vacina Covid é um marco para a Índia, mas especialistas dizem que o país tem que fazer muito mais para atingir sua meta de imunizar toda sua população adulta até o final do ano.

Jayalal, da IMA, diz que o objetivo do país deveria ser vacinar pelo menos 10 milhões de pessoas por dia.

Também há a questão dos suprimentos. A IMA teme que, ao retomar as exportações de vacinas, a Índia possa se encontrar em uma posição semelhante a do ano passado, quando a demanda superou amplamente a oferta.

“Pessoalmente, não estamos apoiando as exportações”, disse Jayalal. “Estamos enfatizando que toda nossa população deveria receber a primeira dose pelo menos antes de retomar as exportações”.

Cerca de 1 milhão de doses de Covaxin foram enviadas para o Irã na semana passada, a embaixada da Índia em Teerã confirmou no Twitter. Nepal, Bangladesh e Mianmar também receberam vacinas feitas pela Índia em outubro, de acordo com autoridades indianas.

Espera-se que as exportações aumentem significativamente nos próximos meses à medida em que os estoques domésticos aumentam e a maior parte da população da Índia é inoculada com a primeira dose, disseram as autoridades em 14 de outubro.

Dr. Bhan, especialista global em saúde e políticas, disse que, enquanto a Índia desempenha um papel importante no fornecimento mundial de vacinas, um equilíbrio deve ser alcançado.

“Devemos, é claro, oferecer parte desse estoque para outros países, especialmente aqueles onde houve apenas uma gota de suprimento”, disse ele.

“Nós aumentamos a produção e a cobertura vacinal local está aumentando. Mas talvez este seja o momento para melhorarmos a fabricação de uma forma que suporte as necessidades locais e de exportação”.

Um porta-voz da Bharat Biotech, que fabrica a Covaxin, disse que a empresa não está enfrentando nenhum desafio na fabricação da vacina, e está trabalhando para fabricar 1 bilhão de doses na Índia este ano, expandindo sua capacidade de produção em várias instalações no país.

A SII, que fabrica a Covishield, produzirá 200 milhões de doses em outubro contra 160 milhões em setembro, segundo a empresa, após melhorar o acesso às matérias-primas necessárias para fabricar as vacinas.

A CNN acionou o Ministério da Saúde, mas não recebeu uma resposta.

K. Srinath Reddy, presidente da Fundação de Saúde Pública da Índia, disse que o país pode não conseguir a vacinação completa até o final do ano, mas acrescentou que as autoridades estão “tirando conforto” das pesquisas de anticorpos, que mostram altas taxas em todo o país, o que significa que há alguma proteção contra o vírus.

“Isto está sendo tomado como um indicador da imunidade protetora adquirida durante a segunda onda impulsionada pelo Delta, ou através da vacinação, mesmo a partir de uma única dose”, disse ele.

As autoridades indianas estarão esperando, mesmo sem ambas as doses, que a imunidade ofereça alguma segurança à medida que a longa temporada de festas se aproxima.

O governo não anunciou proibição a reuniões religiosas e movimentos interestaduais, mas tem pedido ao público para permanecer vigilante e evitar viagens não essenciais.

“Estamos começando a nos reerguer novamente, mas não podemos nos dar ao luxo de ser complacentes”, disse Jayalal, o presidente da IMA.

“Estamos solicitando ao governo que não permita reuniões de massa. É definitivamente uma possibilidade de que uma terceira onda venha, e precisamos estar prontos para isso”.

(Esta matéria foi traduzida. Leia a original, em inglês)

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