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    Índia tenta transformar Dia dos Namorados em “Dia de Abraçar a Vaca”; veja por que não deu certo

    A mudança foi proposta pelo governo como forma de valorizar o patrimônio e a cultura local, mas gerou uma enxurrada de memes na internet, charges e piadas sobre a importância do consentimento

    Foto tirada em Machilipatnam, na Índia, durante o festival indiano Sankranti.
    Foto tirada em Machilipatnam, na Índia, durante o festival indiano Sankranti. Getty Images

    Rhea Mogulda CNN

    Durante séculos, as vacas são consideradas sagradas pela maioria da população hindu da Índia, um símbolo da Terra e do divino.

    Os animais são tão reverenciados que as autoridades planejaram rebatizar este Dia dos Namorados como “Dia de Abraçar a Vaca”, esperando que a mudança aumentasse a “riqueza emocional” dos cidadãos e valorizasse o patrimônio e a cultura local em uma data que é vista como uma importação da cultural ocidental.

    Mas o tiro saiu pela culatra e a ideia foi abandonada depois de uma enxurrada de memes na internet, charges e piadas de apresentadores de TV sobre a importância do consentimento.

    A declaração de 14 de fevereiro como “Dia de Abraçar a Vaca” veio em um comunicado na segunda-feira (6) do Conselho de Bem-Estar Animal da Índia, que chamou as vacas de “espinha dorsal da cultura indiana e da economia rural”.

    A vaca é “o doador de tudo, fornecendo riquezas para a humanidade” devido à sua “natureza nutritiva”, disse a agência, um órgão estatutário que assessora o Ministério de Pesca, Pecuária e Laticínios da Índia.

    O incentivo a abraçar vacas é parte de um esforço para promover as tradições “védicas” ou sagradas hindus, diz a nota, que alegou que essas tradições foram corroídas pela influência ocidental.

    “As tradições védicas estão quase à beira da extinção devido ao progresso da cultura (ocidental) ao longo do tempo”, disse o comunicado. “O deslumbramento da civilização ocidental tornou nossa cultura física e patrimônio quase esquecidos.”

    Mas, uma semana após o anúncio – após dias de zombaria e ridicularização online – a ideia parece ter sido abandonada.

    Há dias os meios de comunicação zombam do plano do governo, publicando charges satíricas mostrando vacas fugindo de homens amorosos, enquanto os internautas se deliciam em postar vídeos de encontros violentos entre o animal e o homem.

    Um âncora de um dos principais canais de notícias em inglês da Índia, NDTV, foi filmado tentando abraçar várias vacas, que pareciam repreender seus avanços.

    “O consentimento é importante”, brincou durante o segmento.

    A “ciência das vacas”

    Esta não é a primeira vez que o governo causa polêmica com uma política em relação às vacas – matar ou comer os animais é considerado um pecado por muitos hindus, que representam cerca de 80% dos 1,3 bilhão de habitantes da Índia.

    A venda e o abate do animal são proibidos em grande parte do país e muitas vezes os animais são deixados soltos nas ruas e estradas, e os motoristas devem tomar cuidado para não atropelá-los.

    Uma agência para a proteção das vacas, conhecida como Rashtriya Kamdhenu Aayog (RKA), foi criada em 2019 pelo Ministério da Pesca, Pecuária e Laticínios.

    Dois anos depois, a RKA foi forçada a adiar indefinidamente um exame nacional de “ciência das vacas” depois que o currículo gerou críticas generalizadas sobre suas afirmações não científicas sobre o animal.

    Thar Desert, Shekhawati / Getty Images

    Entre várias alegações não comprovadas, o guia de estudo para o exame, de 54 páginas, afirmou que a atividade de matadouros em larga escala leva a grandes terremotos, sugerindo que a dor emitida pelo abate em massa pode gerar estresse suficiente para desencadear uma reação sísmica.

    Sem fornecer evidências, o documento também afirmou que as vacas nativas (indianas) produzem leite de melhor qualidade, em comparação com as “vacas exóticas”.

    Um animal político

    Após a ascensão do primeiro-ministro Narendra Modi ao poder em 2014 e uma onda de nacionalismo hindu, o animal também se tornou cada vez mais politizado.

    O Partido Bharatiya Janata (BJP) de Modi está fortemente alinhado com as tradições hindus conservadoras e os críticos dizem que a adoração de vacas tem sido usada como uma ferramenta para intimidar, assediar e até matar muçulmanos, que eles acusam de desrespeitar os animais.

    De acordo com a Human Rights Watch, os crimes cometidos por vigilantes de vacas na Índia foram ignorados ou encobertos pelas autoridades desde que Modi assumiu o cargo.

    Durante a campanha eleitoral de Modi em 2014, ele prometeu acabar com a “revolução rosa” – termo que usou para descrever o abate de gado.

    Outros legisladores do BJP deram um passo adiante.

    “Prometi que quebraria as mãos e as pernas daqueles que não consideram as vacas suas mães e as matam”, disse Vikram Saini, legislador do estado de Uttar Pradesh, em um evento em março de 2017.

    As declarações geraram protestos no país, onde a violência contra mulheres e minorias é manchete frequente. Os críticos dizem que o governo não tem tratado a violência com a mesma seriedade e argumentam que o partido político não está fazendo o suficiente para proteger os grupos vulneráveis.

    Em 2017, uma série de fotos do fotógrafo e ativista Sujatro Ghosh que retrata mulheres indianas usando máscaras de vaca se tornou viral nas redes sociais. A série de imagens pretendia retratar uma sociedade em que as vacas são mais valorizadas do que as mulheres.

    Falando aos repórteres sobre o “Dia de Abraçar a Vaca” na quinta-feira (9) – antes dele ser cancelado – o legislador do BJP Giriraj Singh disse que “uma decisão muito boa foi tomada” pelo governo.

    “As vacas devem ser abraçadas”, disse ele. “Devemos amar e abraçar as vacas.”

    Este conteúdo foi criado originalmente em inglês.

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