Irã anuncia nova zona restrita no Golfo em meio a ataques a navios

Teerã vai intensificar esforços para enfrentar problemas provocados pelas sanções americanas, que estão prejudicando sua economia

Lincoln Feast, da Reuters
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O Irã anunciou que divulgará nos próximos dias uma nova zona restrita no Golfo, além de mapas de um novo corredor marítimo pelo Estreito de Ormuz. A medida ocorre após uma troca de ataques contra embarcações no fim de semana, que fez os preços do petróleo subirem nesta segunda-feira (7).

A nova zona restrita começará a partir do ponto em que tem início o bloqueio americano ao Irã e avançará para áreas do Golfo, afirmou no domingo (6) Mohsen Rezaei, secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã, em entrevista à televisão estatal.

Poucos detalhes foram divulgados sobre o plano, mas Rezaei afirmou que qualquer navio que entrar na nova zona será incluído em uma lista de sanções.

Além disso, mapas com as rotas de passagem pelo Estreito de Ormuz, importante rota para o transporte de energia que está em grande parte fechado ao tráfego de petroleiros, também devem ser aprovados em breve.

“Os mapas de um novo corredor internacional, que fica em águas iranianas e omanenses e será administrado pelo Irã, foram acordados e devem ser assinados nos próximos dias”, disse Rezaei.

“Só nos comprometeremos com a abertura do Estreito de Ormuz quando eles [os americanos] interromperem a sabotagem, as ameaças e os ataques contra o Irã”, acrescentou.

Seis meses depois que ataques dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã deram início à guerra, o conflito parece estar em um impasse. Um acordo preliminar de cessar-fogo alcançado em junho fracassou, e houve pouco avanço nas negociações diplomáticas para retomar o processo de paz.

Após uma pausa nas ações militares durante grande parte de agosto, os ataques entre os dois lados foram retomados. As forças americanas atingiram três petroleiros iranianos no sábado (5), segundo o Comando Central dos EUA, incluindo um perto da Ilha de Kharg, principal centro de exportação de petróleo do Irã. O ataque ocorreu após ofensivas da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã contra navios de guerra americanos na região.

Teerã demonstrou manter a capacidade de atacar interesses americanos em países vizinhos e interromper o fluxo de petróleo pelo Estreito de Ormuz, por onde passava cerca de um quinto do petróleo mundial antes do conflito.

Uma média de 10 navios de carga atravessou o estreito por dia nos últimos 10 dias, o menor nível desde maio, segundo dados de navegação divulgados nesta segunda-feira (7). O cenário ajudou a prolongar a alta do petróleo registrada na semana passada. O Brent subia 0,8%, acima de US$ 97 por barril.

Sanções e bloqueio do petróleo

O Irã afirmou que vai intensificar os esforços para enfrentar os problemas provocados pelas sanções americanas, que estão prejudicando sua economia.

No entanto, a campanha dos Estados Unidos para pressionar a economia iraniana, por meio do bloqueio das exportações de petróleo e do combate à evasão de sanções, está cada vez mais difícil de suportar, segundo três fontes iranianas de alto escalão.

O presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Baqer Qalibaf, afirmou no domingo (6) que os Estados Unidos deveriam entender que as regras do jogo mudaram “antes que seja tarde demais”.

“De agora em diante, qualquer ataque contra os interesses e a segurança do Irã receberá uma resposta mais rápida, mais pesada e mais dolorosa”, disse em discurso publicado em seu canal no Telegram.

Qalibaf afirmou que, além da frente militar, a principal batalha do Irã agora envolve a produção e o sustento da população.

Ele citou fortes oscilações cambiais, inflação, desemprego e gestão do mercado como grandes desafios. Segundo ele, os iranianos conseguem suportar dificuldades, mas não má gestão ou inação, e esperam uma reação rápida do governo.

O ministro da Economia do Irã, Ali Madanizadeh, afirmou que Teerã planeja responder à pressão econômica dos Estados Unidos com reformas e rejeitou a ideia de que as sanções fariam o país mudar de rumo, segundo a mídia estatal no domingo.

“Eles falam em pressão econômica e isolamento, em romper vínculos financeiros, e acham que, ao pressionar a economia de um país, podem mudar as decisões de seu povo”, disse Madanizadeh.

“Preciso esclarecer um ponto: a responsabilidade por reformar a economia do Irã é do governo e do povo iranianos, não do Tesouro dos Estados Unidos.”

Ataque a ilha

O Irã é o terceiro maior produtor da Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) e, antes da guerra, exportava 90% de seu petróleo bruto por meio da Ilha de Kharg, principal centro de exportação do país. O fluxo foi interrompido desde o início do bloqueio americano às exportações de petróleo iraniano, em meados de abril.

O Comando Central dos EUA afirmou no X que, até domingo (6), havia redirecionado 92 embarcações comerciais, desabilitado três e abordado duas para garantir o cumprimento do bloqueio.

Em 31 de agosto, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, publicou nas redes sociais uma mensagem acompanhada de um vídeo gerado por inteligência artificial que mostrava a Ilha de Kharg sendo “explodida em pedaços”. Autoridades iranianas prometeram uma resposta forte caso a ilha seja atacada.

Em entrevista exibida pela televisão estatal no domingo, o ministro do Petróleo do Irã, Mohsen Paknejad, afirmou que a ilha havia sido atingida cerca de 550 vezes nos meses anteriores, mas continuava funcionando.

O bloqueio iraniano do Estreito de Ormuz elevou os preços dos combustíveis e afetou a popularidade de Trump, enquanto seu Partido Republicano se prepara para as eleições de novembro, que definirão o controle do Congresso.

O secretário de Energia dos EUA, Chris Wright, afirmou, porém, que o petróleo continua passando pelo estreito.

“Nossos trânsitos pelo estreito estão em média acima de 9 milhões de barris por dia e, com os oleodutos que contornam o estreito, provavelmente estamos em dois terços ou mais dos fluxos anteriores ao conflito. Portanto, os iranianos continuam causando problemas, mas a Marinha dos Estados Unidos está vencendo essa batalha”, disse à CNN.