Joias roubadas do Louvre simbolizam casamentos estratégicos da realeza

Relíquias foram feitas ou presenteadas para marcar união entre famílias reais europeias

Diego Pavão, da CNN Brasil
Compartilhar matéria

As joias roubadas do Museu do Louvre têm enorme significado para a história da França e simbolizam uma tendência muito difundida na realeza europeia do século XIX: o casamento entre membros de famílias reais de diferentes países.

Ao todo, nove peças foram levadas do museu no domingo (19) por ladrões. Apenas uma foi encontrada.

As relíquias foram criadas ou presenteadas para celebrar ou marcar a união entre nobres, algo que poderia ser entendido como estratégico à época.

O casamento arranjado entre membros de diferentes famílias reais era considerado praticamente uma regra. Era uma forma de reforçar a ideia de que nobres só poderiam se casar entre eles e, desta forma, produzir herdeiros totalmente legítimos para assumir o trono, o que garantia a continuação da dinastia.

Mas essas uniões também tinham uma outra função importante: a diplomática. Unir famílias reais poderia garantir que inimigos (ou potenciais inimigos) se tornassem parentes, reduzindo tensões, gerando estabilidade e até a paz entre países.

As uniões também garantiam o acesso a apoio militar, financeiro entre as nações e a transferência de muitas riquezas.

Retrato de Napoleão I (1769-1821) e Maria Luísa com seu filho, o Rei de Roma, Napoleão II, Duque de Reichstadt, nos Jardins das Tulherias. Pintura anônima. Século XIX. • Leemage/Corbis via Getty Images
Retrato de Napoleão I (1769-1821) e Maria Luísa com seu filho, o Rei de Roma, Napoleão II, Duque de Reichstadt, nos Jardins das Tulherias. Pintura anônima. Século XIX. • Leemage/Corbis via Getty Images

União entre Maria Luísa e Napoleão Bonaparte

Todas as joias roubadas do Louvre têm ligações com casamentos estratégicos entre membros da nobreza europeia, mas o mais representativo dessa tendência é o conjunto de esmeraldas e diamantes da imperatriz Maria Luísa.

As relíquias foram um presente de Napoleão Bonaparte à Maria Luísa, que pertencia à Casa austríaca de Habsburgo, uma das dinastias mais antigas e tradicionais da Europa.

Ela foi a segunda esposa de Napoleão, que se divorciou da primeira, Josefina, após ela não conseguir gerar filhos no casamento.

O segundo casamento em 1810 foi uma estratégia do imperador francês para garantir um herdeiro e, assim, continuar a dinastia. Um ano depois da união, Maria Luísa deu à luz um filho dele, Napoleão II.

Napoleão também tinha o objetivo de ganhar legitimidade na Europa, uma vez que foi visto inicialmente como um “general revolucionário”. Ele queria o famoso “sangue azul” da nobreza.

Com isso, o casamento com a integrante de uma família real austríaca prestigiosa garantia o reconhecimento que ele tanto almejava.

Por último, o casamento entre os dois foi uma forma de selar a paz com a Áustria, país que estava em guerra com a França um ano antes, em 1809.

Desta forma, Napoleão esperava formar uma aliança militar estável e, assim, se concentrar em outras ameaças em outras partes da Europa, sem se preocupar com a Áustria.

As joias, presenteadas no casamento, se tornaram uma espécie de troféu de guerra diplomático. Eram peças que atestavam a legitimidade do Império Francês daquela época por meio da união entre Napoleão Bonaparte e Maria Luísa.

Colar de esmeraldas do conjunto Maria Luísa de Áustria • Divulgação/Museu do Louvre
Colar de esmeraldas do conjunto Maria Luísa de Áustria • Divulgação/Museu do Louvre