Júri conclui julgamento de ex-policial que matou George Floyd nos EUA

Resultado deve ser divulgado ainda hoje

George Floyd e Derek Chauvin
George Floyd e Derek Chauvin Foto: Reprodução

Luana Franzão*,

da CNN, em São Paulo

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Após três semanas de julgamento, um júri chegou a um veredito a respeito do ex-policial Derek Chauvin nesta terça-feira (20), acusado pela morte de George Floyd. Segundo o tribunal do condado de Hannepin, em Minnesota, o resultado será lido nas próximas horas.

A deliberação dos jurados começou na segunda-feira, quando discutiram o caso por quatro horas. Eles voltaram a se reunir na terça e o tribunal não detalhou quando eles encerraram os trabalhos hoje.

George Floyd foi morto na cidade americana de Minneapolis (no estado de Minnesota) no dia 25 de maio de 2020, após uma abordagem policial registrada por quem passava pelo local. Ele foi acusado de tentar utilizar uma nota falsa para pagar uma conta em um mercado.

Ao ser detido, Floyd foi morto pelo policial branco Derek Chauvin ao ter seu pescoço pressionado pelo oficial durante 9 minutos e 29 segundos. No vídeo, ele afirma por diversas vezes que não conseguia respirar e a frase “I can’t breathe”, dita por Floyd, tornou-se um símbolo do movimento contra o racismo.

O policial Derek Chauvin foi dispensado pela polícia do estado de Minnesota após o ocorrido. “A maneira como Chauvin rendeu Floyd não está de acordo com o treinamento e certamente não é parte da nossa ética e nossos valores”, disse, à época, o chefe da polícia de Minneapolis, Medaria Arradondo.

A morte de Floyd foi o estopim de uma onda de protestos nos Estados Unidos e em diversos outros países — Brasil, França, Alemanha, Inglaterra e Candá estão entre eles — do movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam, em português), contra o racismo e violência policial contra negros.

Em 12 de março de 2021, a cidade de Minneapolis concordou em pagar US$ 27 milhões (cerca de R$ 150 milhões) à família de Floyd para que fosse encerrado um processo contra a cidade. Segundo o advogado da família Floyd, Jacob Frey, foi o maior acordo pré-julgamento de um processo por homicídio culposo na história do país. 

Homenagens no local onde Floyd foi morto
Homenagens no local onde Floyd foi morto
Foto: Matthew Hatcher/SOPA Images/LightRocket via Getty Images

O julgamento

Após três semanas de exposição do caso no tribunal, o júri começou a deliberar na segunda-feira (19) seu veredito. O corpo de jurados é composto por 12 pessoas, das quais sete são mulheres e cinco são homens. Entre elas, seis são brancas e seis foram definidas como “multirraciais”, incluindo pessoas negras.

O ex-policial é acusado de homicídio culposo (sem intenção de matar) de segundo grau, e assassinato em segundo e terceiro grau. A sentença poderia somar até 40 anos de reclusão pela lei americana, entretanto, a Comissão de Diretrizes de Penas de Minnesota sinaliza que a dosimetria para réus sem condenações anteriores fique entre 10 a 15 anos — mas a palavra final cabe ao juiz, que pode calcular o tempo de prisão conforme achar necessário. O júri tinha a opção de absolvê-lo por todas as acusações, nenhuma ou algumas — em qualquer hipótese, a decisão deveria ser unânime.

Manifestantes em Mineápolis pedem a condenação de Derek Chauvin
Manifestantes em Mineápolis pedem a condenação de Derek Chauvin
Foto: Jason Armond / Los Angeles Times via Getty Images

A promotoria defendeu a tese de que, a partir dos vídeos que foram divulgados, Floyd não reagiu à detenção e, portanto, o emprego da imobilização não seria justificado. Também argumentou que Chauvin assumiu o risco de matar ao colocar o joelho sobre seu pescoço. Além disso, a acusação reforçou que o ex-policial manteve o sufocamento mesmo após os avisos de que o homem não conseguia respirar e por mais tempo do que se orienta no treinamento, caracterizando o homícidio.

“As palavras finais de George Floyd em 25 de maio de 2020 foram ‘Por favor, eu não consigo respirar’, e ele disse essas palavras a Derek Chauvin. Tudo o que lhe foi pedido era um pouco de compaixão, e nenhuma foi demonstrada naquele dia”, disse o promotor do gabinete do procurador-geral de Minnesota, Steve Schleicher. “Se você está fazendo algo que machuca alguém, e você sabe disso, então está fazendo de propósito”.

“Este não é um julgamento anti-polícia, e sim pró-polícia, pois não há nada mais danoso à polícia do que um mau policial”, acrescentou.

O ex-policial Derek Chauvin em seu julgamento
O ex-policial Derek Chauvin em seu julgamento sob a acusação de homicídio contra George Floyd
Foto: Court TV

A defesa de Derek Chauvin seguiu como principal linha a justificativa de que a morte de Floyd não teria sido causada por asfixia devido à ação do policial, mas por causas paralelas. Foram levadas duas testemunhas para defender Chauvin, sendo uma delas um médico pneumologista. De acordo com o profissional, o laudo da autópsia é “inconclusivo” e problemas cardíacos prévios de Floyd teriam sido a causa última de sua morte. Outros médicos que depuseram no mesmo tribunal apontaram que a causa da morte detectada foi a asfixia.

Além disso, a defesa do policial argumentou que o uso da força foi apropriado, pois Floyd teria reagido à detenção, e que “Chauvin foi distraído pela multidão hostil que presenciava o momento”. O advogado do ex-oficial, Eric Nelson, também sustenta a afirmação de que Floyd estava sob a influência de drogas ilícitas, como o fentanil e a metanfetamina, e que isso, além dos problemas citados anteriormente e o gás carbônico liberado pelo escapamento da viatura, teria matado George Floyd.

“Analisar apenas os 9 minutos e 29 segundos não é apropriado pois ignora os 16 minutos e 59 segundos anteriores”, disse o advogado. “O comportamento humano é imprevisível, e ninguém sabe melhor disso do que um policial”.

Derek Chauvin não quis depor em seu julgamento. “Solicitarei meu privilégio da Quinta Emenda”, afirmou, em referência ao dispositivo que autoriza o réu a permanecer calado e o direito de não produzir provas contra si.

Policial em manifestação em Mineápolis
Policial em manifestação em Mineápolis, durante o julgamento do caso George Floyd
Foto: Christopher Mark Juhn/Anadolu Agency via Getty Images

Cidades de todo o país se prepararam para qualquer que fosse o resultado do julgamento. Nova York, Filadélfia, Washington, Los Angeles, Atlanta e São Francisco são algumas das cidades que anunciaram o reforço do policiamento nas ruas em vista da possibilidade de protestos em massa.

Os arredores da sala de tribunal foram cercados por arame farpado e a Guarda Nacional está presente em Minneapolis, na expectativa de novos protestos.

“Eles têm o direito de protestar. É claro que queremos um protesto pacífico. Não queremos que nenhum outro americano seja ferido, ninguém. Mas protestar é uma maneira de sermos ouvidos”, disse Paris Stevens, prima de George Floyd.

Black Lives Matter

O movimento Black Lives Matter nasceu nos Estados Unidos durante protestos contra o racismo após a morte do adolescente Trayvon Martin, de 17 anos, em 2012, assassinado a tiros por um vigilante voluntário, George Zimmerman, um homem branco.

A partir de então, diversos protestos foram organizados com o objetivo de lutar contra o preconceito racial e questionar a atuação violenta de membros das forças de segurança contra jovens negros. O movimento ganhou força em 2013, após o assassinato de Michael Brown, morto a tiros em Ferguson, e Eric Garner, estrangulado em Nova York, por policiais.

Homenagem George Floyd
Muro no Harlem, no boulevard Malcolm X — que leva o nome de uma das maiores lideranças negras dos EUA — virou ponto de homenagens para George Floyd
Foto: Luiza Duarte/CNN (09.jun.2020)

A morte de George Floyd em 2020 foi um dos principais estopins de manifestações do movimento, que também protestou pela morte de outras vítimas negras, como Breonna Taylor, morta a tiros em Nova York.

Durante o mês de abril de 2021, dois outros jovens foram mortos e provocaram novas respostas nas ruas: Adam Toledo, de 13 anos, baleado em uma abordagem policial, e Daunte Wright, de 20 anos, baleado a 20 quilômetros de distância do local da morte de George Floyd.

ERRATA: Esta reportagem afirmava, erroneamente, que o estado de Minnesota limita a pena de acusados por assassinato a 15 anos de prisão a réus sem condenações anteriores. O que há é uma indicação, que pode não ser seguida pelo juiz. O texto foi corrigido.

*Sob supervisão de Leonardo Lellis

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