Ligação de Trump para secretário da Geórgia pode render processo por fraude

Presidente dos EUA pediu a autoridade que 'encontrasse' votos para virar a eleição

Anna Satie*, da CNN em São Paulo

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A ligação telefônica de Donald Trump para o secretário de Estado da Geórgia, Brad Raffensperger, nesse sábado (2) pode render um processo de fraude contra o atual presidente. Ainda não está claro se haverá investigação ou se autoridades levarão o caso adiante. 

Durante o telefonema, Trump pede que o secretário, maior autoridade eleitoral do estado, “encontre” 11.780 votos em seu favor. O presidente eleito, Joe Biden, que deve ser empossado no dia 20 deste mês, derrotou Trump na Geórgia por 11.779 votos. 

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A promotora do condado de Fulton, Fani T. Willis, publicou uma nota nesta segunda-feira (4), em que reitera que qualquer um que cometa um crime será responsabilizado. No entanto, ela ainda não recebeu nenhum pedido do gabinete do secretário de Estado. 

“Como muitos americanos, eu achei as notícias sobre o telefonema do presidente ao secretário de Estado da Geórgia perturbadoras”, escreveu.

“É do meu entendimento que um membro do Conselho Eleitoral Estadual pediu que a Divisão Eleitoral do Secretariado investigue a ligação. Após isso, o Conselho pode enviar o caso para o meu gabinete e para o Advogado-Geral do estado”. 

Uma das acusações possíveis é de “solicitação criminosa para cometer fraude eleitoral”, crime previsto pela lei estadual da Geórgia. Caso haja condenação, o infrator pode ser punido com um a três anos de prisão. 

Para o professor de Relações Internacionais da Faap (Fundação Armando Álvares Penteado) Carlos Poggio ainda é cedo para tirar conclusões.

“É um debate que está acontecendo. [Não é possível afirmar] se vão investigar se houve contravenção, se isso vai ser feito por um juiz e se alguém vai entrar com processo. É cedo para saber se isso ainda vai ter um desdobramento legal”, afirmou.

“Há um debate se o Biden e o Departamento de Justiça vão tomar algum tipo de ação contra Trump neste caso ou em outros. Será que Biden vai querer mexer nessa ferida? Mas [a ligação] abre janela para um processo por tentativa de fraude”, disse.

“Há um debate, está sendo examinado. Mas há possibilidade de ato criminoso”.  

O conselheiro legal sênior de Biden, Bob Bauer, disse, em nota, que a gravação oferece “prova irrefutável de um presidente pressionando e ameaçando uma autoridade de seu próprio partido para que rescinda a contagem de votos, legal e certificada de um estado, e fabrique outra no lugar”.

“Isso captura a história lamentável inteira do ataque de Donald Trump à democracia americana”, escreveu. 

O momento da ligação 

A divulgação do áudio ocorre às vésperas do segundo turno da eleição para o Senado na Geórgia — manter a maioria na Casa é uma das prioridades de Trump, que foi criticado no próprio partido. 

“A habilidade do presidente para exceder expectativas de quanto pode atrapalhar continua imbatível”, disse um funcionário do Partido Republicano trabalhando na eleição à CNN

O tenente-governador do estado, o também republicano Geoff Duncan, disse que a gravação o decepcionou.

“Aquela ligação não fez nada para aumentar a participação eleitoral dos republicanos aqui na Geórgia”, disse à CNN.

“Eu fiquei decepcionado e, honestamente, não consigo imaginar ninguém da equipe encorajando essa ligação ou deixando de aconselhar que ele desligasse e seguisse para o próximo assunto”. 

Para o professor de Relações Internacionais da Faap, a gravação não deve influenciar o resultado da eleição, uma vez que muitos já votaram antecipadamente.

“Mas esses são dias cruciais. Temos a eleição na Geórgia e a confirmação da eleição no Congresso, teremos uma primeira semana do ano bastante animada. Em três, quatro dias, teremos um cenário bem mais claro”, disse Carlos Poggio.

‘Muito pior que Watergate’

O áudio do telefonema de Trump ao secretário da Geórgia é “muito pior do que o Watergate“, segundo Carl Bernstein, um dos jornalistas responsáveis por revelar o escândalo político que provocou a renúncia do ex-presidente americano Richard Nixon em 1974.

“Isso não é um déjà vu, isso é algo muito pior do que Watergate”, disse Bernstein à CNN americana no domingo (3).

Ao lado do colega Bob Woodward, Carl Bernstein entrou para a história do jornalismo ao revelar o caso Watergate em reportagens no jornal The Washigton Post na década de 1970.

Os repórteres mostraram que o presidente republicano Ricahrd Nixon sabia da operação que invadiu escritórios do Partido Democrata, em um suposto assalto em 1972, para plantar escutas telefônicas com finalidade de espionagem por parte da oposição. 

Após a revelação do caso pela imprensa, Nixon, que havia sido reeleito presidente em 1972, renunciou ao cargo em 1974. 

Mais de 40 anos depois, o jornalista vê a denúncia contra Trump como mais grave do que aquela contra Nixon.

Segundo ele, os áudios de Trump são “a evidência do que este presidente está disposto a fazer para minar o sistema eleitoral e tentar instigar de forma ilegal, indevida e imoral um golpe”.

“Em qualquer outro momento concebível na história dos Estados Unidos, essa fita (com os áudios de Trump) resultaria na liderança de ambas as partes exigindo a renúncia imediata do presidente dos Estados Unidos”, disse o jornalista.

(*Com informações de Diego Freire, da CNN, em São Paulo; Devon M. Sayers, Stephen Collinson, Ryan Nobles e Arlette Saenz, da CNN Internacional)

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