Lula e Trump discursam nesta terça na abertura da Assembleia Geral da ONU

Tradicionalmente, o presidente do Brasil é o primeiro chefe de Estado a discursar; republicano deve falar logo em seguida

Da CNN Brasil
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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) discursa nesta terça-feira (22) na abertura da 81ª Assembleia Geral da ONU (Organização das Nações Unidas), em Nova York.

Tradicionalmente, o presidente brasileiro é o primeiro chefe de Estado a falar no debate geral. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, discursa logo depois.

Antes da cerimônia, Lula se reúne com o secretário-geral da ONU, António Guterres, às 8h40 no horário local (9h40 em Brasília). Na sequência, às 9h (10h de Brasília), o presidente brasileiro sobe ao púlpito da Assembleia Geral.

A previsão é que Lula deixe Nova York às 13h50 no horário local (14h50 de Brasília), após o discurso. A chegada a Brasília está prevista para 23h40, no horário de Brasília.

O que Lula deve dizer

A defesa da soberania nacional deve ser um dos principais eixos do discurso de Lula. Em briefing à imprensa, o Itamaraty afirmou que o presidente deve abordar o tema, e Lula já declarou que pretende pedir aos Estados Unidos que não interfiram nas eleições brasileiras.

Apesar das críticas recentes ao governo Trump, Lula não deve citar nominalmente o presidente norte-americano. O Brasil acusa os Estados Unidos de violação à soberania nacional desde o primeiro tarifaço aplicado pela Casa Branca aos produtos brasileiros no ano passado.

A diplomacia brasileira nega que Lula vá utilizar o discurso em tom eleitoral e afirma que o presidente apresentará iniciativas do país e sua visão sobre o cenário internacional, sem fazer um balanço da gestão.

Segundo apuração de Priscila Yazbek, diplomatas avaliam que, a menos de duas semanas das eleições brasileiras, a fala deverá ganhar um tom eleitoral. Segundo uma das fontes, o foco de Lula estará nos eleitores brasileiros e na obtenção de dividendos para a campanha.

O discurso deve abordar ainda o cenário internacional, com críticas ao crescimento dos conflitos globais e defesa de negociações de paz. Lula deve falar sobre as guerras e seus efeitos na economia mundial, incluindo a produção e o preço dos alimentos.

O presidente também pretende alertar para o avanço da corrida armamentista e para a disputa internacional pelo controle de recursos naturais estratégicos.

Na agenda ambiental, Lula deve citar a COP30 e apresentar o Brasil como defensor de um modelo de desenvolvimento que combine crescimento econômico e preservação.

A regulação das plataformas digitais também deve aparecer na fala, com referências ao ECA Digital, à proteção de crianças e mulheres e aos desafios impostos pela inteligência artificial.

Outros temas previstos são o combate à fome e à insegurança alimentar, a luta contra a desigualdade e a defesa do multilateralismo.

Lula e Trump podem se encontrar

A organização da cerimônia pode favorecer um contato informal entre os presidentes. Lula deixa a área reservada depois de fazer o primeiro discurso, enquanto Trump se prepara para entrar no plenário.

No ano passado, em situação semelhante, os dois presidentes se encontraram na antessala do plenário, se abraçaram e conversaram por cerca de um minuto. Depois, Trump mencionou Lula em seu discurso e afirmou que os dois tiveram uma “excelente química”.

A conversa abriu um canal de diálogo que posteriormente levou a outros encontros, na Malásia e na Casa Branca, além de telefonemas.

A relação entre os presidentes, segundo auxiliares brasileiros, permanece preservada, apesar das dificuldades nas conversas entre integrantes dos dois governos.

Agenda de Lula em Nova York

Antes do discurso, Lula terá o encontro com Guterres. A reunião ocorre após uma segunda-feira de compromissos bilaterais em Nova York.

Lula se reuniu por 50 minutos com o presidente do Uruguai, Yamandú Orsi. Segundo o presidente brasileiro, os dois conversaram sobre integração latino-americana e caribenha, “ameaças do extremismo político e da desinformação na região e no mundo”, infraestrutura e comércio agrícola.

Também trataram da autorização concedida ao Brasil para uso do excedente da cota uruguaia de exportação de carne bovina para a China. Lula disse ainda ter demonstrado interesse na legislação uruguaia sobre regulamentação de apostas online.

Os dois presidentes devem voltar a se reunir para discutir a construção da ponte binacional sobre o rio Jaguarão.

Lula também recebeu o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani. O encontro foi solicitado pelo prefeito e ocorreu na residência do representante do Brasil na ONU, o embaixador Sérgio Danese.

Durante a reunião, Lula afirmou que aconselhou Mamdani a não se distanciar do discurso com o qual venceu a eleição.

"Eu disse pra ele que, nesse momento histórico da minha vida, a minha luta é para ver se a gente consegue se indignar com o desprezo e esquecimento que as lideranças politicas ao redor do mundo têm pelos pobres", afirmou Lula.

"O mundo está gastando trilhões em armamento. A Europa voltou a se armar, o Japão voltou a se armar, todos os países estão investindo em armas e quase nada na educação, quase nada para combater a fome, quase nada para ajudar os pobres a enfrentar as dificuldades que enfrentam", completou o presidente.

Mamdani respondeu que o principal desafio de Nova York é o custo de vida e afirmou que Lula é uma inspiração para a luta dos trabalhadores.

"Obrigado, presidente, pela inspiração e por seu trabalho. É uma honra poder te dizer isso pessoalmente", afirmou o prefeito.

Os dois ainda trocaram camisas de futebol. Lula entregou uma camisa do Corinthians a Mamdani e recebeu uma camisa comemorativa da cidade de Nova York feita para a Copa do Mundo.

Encontro com Bernie Sanders

Lula também se reuniu nesta segunda-feira com o senador americano Bernie Sanders. Segundo apuração de Priscila Yazbek, Sanders perguntou ao presidente brasileiro se ele temia algum tipo de interferência dos Estados Unidos nas eleições.

O presidente respondeu que não há, neste momento, indícios de interferência, mas não descartou que isso possa ocorrer. O presidente afirmou que o Brasil segue vigilante, principalmente em relação às redes sociais.

A declaração ocorreu algumas horas depois de Lula conceder entrevista à âncora da CNN, Christiane Amanpour, quando afirmou que havia "indícios de interferência [dos EUA], inclusive envolvendo inteligência artificial".

No encontro, que durou cerca de 40 minutos, Lula e Sanders também manifestaram preocupação com o avanço da extrema direita no mundo e defenderam uma governança multilateral para lidar com os riscos apresentados pela inteligência artificial.

Os dois discutiram ainda a necessidade de reformas no Conselho de Segurança da ONU e defenderam maior participação de jovens e mulheres na política.

Assembleia ocorre em momento de transição na ONU

A abertura da Assembleia Geral ocorre às vésperas da saída de Guterres do cargo, no fim deste ano. O processo para escolher o próximo secretário-geral ainda está em andamento.

Uma votação informal do Conselho de Segurança realizada na sexta-feira (18) colocou a ex-vice-presidente da Costa Rica Rebeca Grynspan na liderança por uma margem estreita.

A Assembleia deste ano também tem como tema "Restaurar a confiança, gerir a transformação: Uma ONU que entrega para todos."

Segundo Guterres, a inteligência artificial será um dos assuntos centrais de suas discussões com líderes mundiais durante a Semana de Alto Nível.

A própria sucessão do secretário-geral está entre os temas que devem acompanhar os trabalhos da Assembleia, que reúne centenas de diplomatas e líderes mundiais em Nova York.

Retorno ao Brasil

Após o discurso, Lula deverá deixar Nova York. O embarque está previsto para 13h50 no horário local (14h50 de Brasília).

A previsão é que o presidente chegue a Brasília às 23h40, no horário de Brasília, encerrando uma passagem curta pelos Estados Unidos para participar da Assembleia Geral da ONU.

(Com informações de Priscila Yazbek, Janaína Camelo, Danilo Moliterno, Tainá Falcão e Débora Bergamasco, da CNN Brasil)