Migrantes disputam suprimentos em Ceuta em meio à esperança de asilo

Espanha estima que cerca de 69.500 migrantes retornaram a Marrocos nos últimos quatro dias, superando as estimativas iniciais de cerca de 50 mil

Leonardo Benassatto e David Latona, da Reuters, em Ceuta, na Espanha
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Migrantes correram para receber água e outras bebidas em Ceuta, na Espanha, nesta segunda-feira (3), enquanto as autoridades locais lutam para lidar com as milhares de pessoas que permanecem no pequeno território após a grande onda migratória na semana passada.

Os moradores locais levaram bebidas aos migrantes, em sua maioria da África subsaariana, que montaram um acampamento na praia de El Trampolin.

Os migrantes que passam os dias na praia disseram estar com fome e sede, enquanto seguravam cartazes pedindo asilo e afirmando que não querem voltar para Marrocos.

"Já não temos muita força. Mas não vamos desistir. Mesmo que tenhamos que morrer aqui, bem, morreremos aqui. Preferimos morrer aqui do que voltar para lá", disse Ali Sangare, de 18 anos, de Bamako, Mali.

Essa foi a quinta tentativa de Sangare de chegar a Ceuta depois de ter saído do Mali em 2024, atravessando a Mauritânia, a Argélia e depois Marrocos.

A Espanha estima que cerca de 69.500 migrantes retornaram a Marrocos nos últimos quatro dias, superando as estimativas iniciais de cerca de 50 mil chegadas a Ceuta na quinta-feira.

O número oficial de mortos no lado espanhol da fronteira é de 72, com 11 mortes no lado marroquino.

Ceuta e Melilla, o outro enclave espanhol no Norte da África, estão na costa mediterrânea de Marrocos e enfrentam periodicamente tentativas de travessia por migrantes que querem chegar à Europa.

O líder de Ceuta, Juan Jesus Vivas, disse à emissora Telecinco que entre 3 mil e 5 mil migrantes permanecem no enclave, acrescentando que seus dois centros de acolhimento de migrantes – um para adultos e outro para menores – haviam "entrado em colapso".

A autoridade local Alberto Gaitan disse que a cidade estava processando 862 menores migrantes, que possuem proteção legal especial contra a deportação.

FOTOS: Migrantes entram em massa em Ceuta, na Espanha

A crise alimentou a retórica anti-imigração em toda a Europa e desencadeou tensões diplomáticas dentro da União Europeia sobre a política de fronteiras, com a Espanha acusando alguns parceiros de uma resposta contraproducente e polarizadora.

O ministro das Relações Exteriores, José Manuel Albares, afirmou, nesta segunda-feira (3), que a Espanha já havia apoiado outros países da UE durante crises migratórias e que agora espera apoio recíproco.

O bloco convocou uma reunião de emergência por videoconferência dos ministros do Interior para discutir a crise nesta terça-feira (4).

Albares criticou duramente o governo italiano, a quem acusa de contribuir para a disseminação de informações falsas.

Ele afirmou que Marrocos ofereceu apoio policial imediato e não impôs condições à sua cooperação, permitindo o rápido retorno da maioria daqueles que cruzaram a fronteira.

Mas Vivas, de Ceuta , criticou Rabat, afirmando que havia uma percepção generalizada em Ceuta de que a cidade havia permitido, ou mesmo orquestrado, a crise.

"Marrocos mostrou que não é confiável. Não há alternativa a não ser implementar todos os meios necessários para garantir que isso não volte a acontecer", disse Vivas ao jornal El País.

O Ministério do Interior de Marrocos atribuiu o aumento repentino de migrantes à desinformação nas redes sociais, às redes de tráfico humano e à má interpretação de uma decisão judicial espanhola que proíbe a devolução imediata de migrantes interceptados no mar. Essa posição está em consonância com a posição oficial de Madri.

Serviços de inteligência analisam travessia

Segundo informações do El País e da rádio Cadena SER, citando fontes familiarizadas com o assunto, os serviços de inteligência espanhóis concluíram que Marrocos não planejou a travessia em massa, mas permitiu que ela acontecesse.

Segundo relatos, os controles nas fronteiras marroquinas foram gradualmente relaxados durante o mês de julho e, supostamente, foram removidos devido à grande afluência de pessoas à passagem de Tarajal durante o feriado do Dia do Trono em Marrocos.

O Ministério do Interior de Marrocos não respondeu de imediato ao pedido de comentários.

Em comunicado divulgado no domingo, o governo marroquino afirmou estar "empenhado em fortalecer a cooperação e a coordenação internacional no combate à migração irregular e ao tráfico de seres humanos".

O ministro do Interior da Espanha, Fernando Grande-Marlaska, disse a jornalistas no sábado que a agência de inteligência estrangeira CNI, controlada pelo Ministério da Defesa, não o alertou sobre um aumento iminente de tropas.

O jornal El País afirmou na segunda-feira que isso causou tensões entre os dois ministérios.

Um porta-voz do Ministério do Interior minimizou as tensões relatadas.

A ministra da Defesa, Margarita Robles, recusou-se a dizer se o CNI tinha informações prévias sobre a travessia em massa, acrescentando que o seu trabalho era secreto e elogiando o trabalho "excepcional" dos agentes dos serviços de segurança espanhóis.