Mistério financeiro envolve candidato laranja que ajudou republicana na Flórida

Candidato laranja pode ter auxiliado candidata do Partido Republicano durante as eleições nos EUA

O candidato Alex Rodriguez mentiu sobre sua identidade quando questionado por um repórter da TV de Miami
O candidato Alex Rodriguez mentiu sobre sua identidade quando questionado por um repórter da TV de Miami Foto: CNN

Scott Glover, Curt Devine, Drew Griffin e Scott Bronstein,

da CNN

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Um mês antes do dia da eleição na Flórida, uma empresa misteriosa chamada Proclivity, Inc. contribuiu com US$ 550 mil para dois comitês de ação política (PACs, na sigla em inglês) recém-formados no estado. 

Dois dias depois, o dinheiro fluiu dos PACs para uma gráfica e empresa e publicidade na região de Orlando. 

Pouco tempo depois, foi lançada uma torrente de panfletos políticos quase idênticos, aparentemente com a intenção de drenar o apoio dos candidatos democratas. Os panfletos enganaram os eleitores para que votassem em candidatos desconhecidos (ou candidatos laranja) que não tinham nenhum interesse real em serem eleitos. Nenhum desses candidatos, por exemplo, se envolveu em atividades típicas de campanha ou levantou fundos significativos. 

Em um caso, os panfletos parecem ter ajudado uma republicana, cofundadora do Latinas For Trump, a destituir o titular democrata em uma disputa para o senado estadual da Flórida. A margem da vitória foi de apenas 32 votos. 

A situação, que vem gerando manchetes na Flórida há semanas, tem todos os traços de um mistério envolvendo “dinheiro obscuro” no estado. 

Entre as principais perguntas em torno do caso são: o que exatamente é a Proclivity e qual era o propósito e efeito desejado por trás de suas contribuições generosas para os dois PACs recém-abertos? E por que esses PACs apoiaram candidatos desconhecidos sem afiliações partidárias e sem chance real de vencer?

A CNN soube que a Proclivity foi criada em Delaware em 2019. Nos documentos públicos da empresa, o nome do seu presidente aparece como Richard Alexander. As tentativas de entrar em contato com Alexander não tiveram sucesso; um número de telefone da empresa não funciona e seu endereço é uma loja da UPS em Atlanta. A equipe da loja confirmou que a Proclivity tem uma caixa postal no local, mas se recusou a fornecer qualquer informação adicional, citando a confidencialidade do cliente. 

Embora o dinheiro da Proclivity tenha pagado propaganda ostensivamente direcionada aos eleitores democratas, ele fluiu por meio de dois PACs, um dos quais tem conexões com um jovem estrategista político republicano chamado Alex Alvarado. O padrasto de Alvarado é presidente da gráfica que foi paga para imprimir os panfletos. De acordo com os documentos, a empresa funciona em uma casa na área de Orlando de propriedade da mãe e do padrasto de Alvarado.

Caso Flórida
O estrategista político republicano Alex Alvarado, ex-estagiário do Congresso, fotografado em frente à Casa Branca.
Foto: University of Central Florida

Alvarado, ex-estagiário do Congresso e empresário, não quis ser entrevistado para esta reportagem. Os registros mostram que sua empresa, a Alvarado Strategies, recebeu mais de US$ 267 mil até agora em 2020 por seu trabalho político. 

Os dois PACs da Flórida que receberam as contribuições da Proclivity foram registrados na mesma data e hora: 2 de outubro, às 11h34, de acordo com os documentos da Divisão de Eleições da Flórida. 

Um dia depois, um dos PACs, chamado Our Florida PC, recebeu US$ 370 mil da Proclivity; o outro, The Truth PC, recebeu US$ 180 mil. 

Cada um dos PACS é presidido por mulheres na casa dos 20 anos que parecem ser novatas no cenário político. Nenhuma delas respondeu a várias mensagens deixadas nos números de telefone de telefone dos PACs. As tentativas de falar com elas por vários outros meios não tiveram sucesso. 

Sierra Olive, que aparece como presidente do Our Florida PC, já viveu no mesmo endereço que Emily Leiva, a mulher com quem Alvarado atualmente possui uma casa, de acordo com registros. Olive postou uma foto dela com Leiva no Facebook em 2017 com a legenda “humano favorito”.

Caso Flórida
Sierra Olive e Emily Leiva em uma foto postada no Facebook em 2017 com a legenda “Humano favorito”
Foto: Reprodução/Facebook

Leiva não respondeu a um pedido de entrevista. 

Alguns dos panfletos pagos pelo Our Florida PC e pelo The Truth PC continham linguagem idêntica, com temas tipicamente democratas, como consertar o sistema de saúde, combater as mudanças climáticas e mostrar os verdadeiros fatos ao poder. Eles circularam em pelo menos três disputas para o senado estadual, nas quais concorria um candidato não afiliado a um partido, além de um democrata e um republicano. 

Na disputa do Sul da Flórida com a candidata do grupo Latinas for Trump, o suposto candidato laranja, Alex Rodriguez, tinha o mesmo sobrenome do democrata Jose Javier Rodriguez, que concorria à reeleição (e perdeu por 32 votos).

Caso Florida
Candidatos a uma disputa por uma vaga no senado estadual no sul da Flórida, na qual um candidato novo apareceu para ajudar a desafiante republicana Ileana Garcia a destituir o democrata Jose Javier Rodriguez.
Foto: Florida Electoral Service

Embora não tenha história conhecida na política e não tenha feito campanha ativamente, Alex Rodriguez obteve mais de 6.000 votos. Quando questionado por um repórter de uma rede TV?em Miami ?(afiliada à CNN) após a eleição, Alex Rodriguez mentiu sobre sua própria identidade. 

Rodriguez foi indiciado em duas acusações de crime grave contra o patrimônio em 2012, de acordo com os registros do tribunal. Ele se declarou culpado, embora o julgamento das acusações tenha sido retirado, de acordo com os documentos. 

Em outro caso, o advogado de Miami Juan A. Sanchez disse que Rodriguez desapareceu depois de pagar apenas uma parte do que um juiz ordenou que ele pagasse a um cliente em uma disputa envolvendo um cheque sem valor. 

“Não conseguimos localizá-lo”, contou Sanchez, lembrando que Rodriguez acabou sendo encontrado morando em Boca Raton, na Flórida. “Ele contou uma história triste de que estava falido e sem dinheiro”. 
O advogado disse que luta para acreditar que Rodriguez buscou seriamente se tornar um senador estadual. 

“Isso seria algo incrível”, disse ele.

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Alex Rodriguez não respondeu a um pedido de entrevista da CNN. Seu advogado, William Barzee, não quis comentar. 

Jose Javier Rodriguez, o senador estadual que perdeu a vaga por 32 votos, pediu uma investigação sobre a candidatura de Alex Rodriguez e quem está por trás dela. 

“A democracia exige transparência”, contou em um vídeo compartilhado com a mídia, “e para isso acredito que esta eleição exige uma investigação completa”. 

Ileana Garcia, a senadora estadual republicana recém-eleita, não respondeu às perguntas da CNN sobre seu envolvimento (se houver) na campanha de outro Rodriguez. 

“Não vou permitir que esse acesso de raiva distraia o importante trabalho que temos pela frente”, disse Garcia em um comunicado. 

Erin Isaac, que atua como porta-voz de Garcia e do Comitê de Campanha do Senado Republicano da Flórida, disse que o comitê não tinha nenhuma conexão com a candidatura de Alex Rodriguez. 

“Nós temos algo a ver com isso? Minha resposta é não”, afirmou.

Caso Florida
Ileana Garcia, cofundadora do Latinas For Trump, destituiu o atual democrata por uma margem de apenas 32 votos em uma disputa para o senado estadual no sul da Flórida.
Foto: CNN

O jornal “Miami Herald”, citando “fontes com conhecimento”, relatou na semana passada que os promotores de Miami-Dade iniciaram um inquérito sobre a candidatura de Alex Rodriguez. Um porta-voz do escritório se recusou a confirmar ou negar a existência de uma investigação à CNN

Ben Wilcox, diretor de pesquisa do grupo de vigilância apartidário Integrity Florida, disse não ter dúvidas de que alguém que conduzia uma campanha de dinheiro suspeito impactou pelo menos uma cadeira no senado estadual. 

“A Flórida é tão fracamente regulamentada quando se trata de financiamento de campanhas que provavelmente é legal, mas realmente não deveria ser”, disse Wilcox. “É um desserviço aos eleitores e põe em causa a integridade das nossas eleições.” 

Amitoj Singh, Yahya Abou-Ghazala, Cybele Mayes-Osterman e Benjamin Naughton, da CNN, contribuíram na reportagem. 

(Texto traduzido,?clique aqui?para ler o original em inglês). 

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