Mulher voa para dar adeus à mãe e é surpreendida com avião vazio

Única passageira, Sheryl Pardo voou de 1ª classe e foi recepcionada de forma especial pela tripulação: 'Foi super positivo, que é o contrário do que esperava'

Sheryl Pardo encontrou cadeiras vazias e poucas pessoas no aeroporto
Sheryl Pardo encontrou cadeiras vazias e poucas pessoas no aeroporto Foto: Sheryl Pardo

Christina Zdanowicz

da CNN

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Sheryl Pardo estava preocupada com uma coisa ao embarcar no voo: essa possivelmente seria a última vez que ela veria sua mãe. Mas nem imagina como o dia seria diferente.

Para começar, Sheryl ficou surpresa ao saber que era a única passageira a embarcar, já que a pandemia do novo coronavírus mudou tudo. Mas havia outro fato inusitado naquele dia estranho: ali, ela conheceu Jessica e Dion, dois comissárias de bordo que transformaram sua viagem em algo para se lembrar de um jeito positivo.

Os comissários da American Airlines colocaram a passageira solitária na primeira classe e falaram com ela pelo alto-falante. Depois dos procedimentos iniciais do voo, Sheryl, 59 anos, passou o voo todo conversando com eles sobre a mãe e a pessoa amorosa que ela era.

“Acho que, em momentos como esse, a dor de perder sua mãe é ainda mais dura por estarmos vivendo dias tão assustadores”, disse a passageira à CNN. “A bondade de outras pessoas é o que nos fará passar por isso. Quero que eles [os comissários de bordo] saibam o quanto isso significou para mim”, afirmou. “Foi super positivo, que é o contrário do que esperava dessa viagem”.

A viagem de despedida

Sheryl Pardo e tripulação do voo
Sheryl Pardo estava preocupada com um fato quando embarcou: essa seria a última vez que veria a mãe. Uma surpresa a aguardava quando soube que era a única passageira no avião por causa da pandemia do novo coronavírus.
Foto: CNN

Sheryl embarcou no voo de Washington DC para Boston em 27 de março. A ideia era ir e voltar no mesmo dia para minimizar o risco de ficar doente. A ansiedade foi subindo a caminho do aeroporto, imaginando a exposição ao vírus, somada à tristeza do motivo da viagem em si. No entanto, ao chegar e notar que havia pouca gente no local, uma certa calma a dominou.

“No momento em que pisei no aeroporto, notei que ele era mais seguro que andar pelo supermercado. Acho que todos temos esse temor de que aviões são muito perigosos e locais de muita exposição, mas não havia ninguém lá. Quase tudo no aeroporto estava fechado, exceto por uma loja do Dunkin’ Donuts”, contou. Poucas pessoas circulavam na sala de embarque às 6h da manhã, horário da decolagem.

Um presente inesperado no ar

Passar do sossego do aeroporto à expectativa do voo foi mais fácil do que ela imaginava. A tripulação e Sheryl riram do fato de ela ser a única passageira. No meio da situação inusitada, os comissários mudaram os discursos e avisos de segurança que usam diariamente.

“E aqui temos Sheryl como nossa passageira hoje, curtindo a boa vida na primeira classe”, disse a aeromoça Jessica em um vídeo que circulou nas mídias sociais. “Todo mundo saúda a Sheryl, única passageira do voo!”

Mais tarde, o piloto apareceu no sistema de som e disse: “Sheryl, estamos agora a 10.000 pés”. Sheryl e os dois comissários de bordo tiraram até uma selfie juntos. Não se preocupe, eles estavam a quase dois metros de distância, mesmo que o ângulo faça parecer que eles estavam mais próximos.

“Os comissários foram ótimos… e foi divertido”, disse a passageira. “Eu estava muito ansiosa, com razão, por ver minha mãe pela última vez, então foi incrível o fato de conseguir apenas rir”. Ela ficou emocionada com o jeito alegre e leve com que a comissária perguntou sobre sua mãe sem deixá-la triste. Jessica contou a Sheryl a “a história de toda sua vida” e as duas sentiram uma conexão por terem personalidades parecidas e as perspectivas otimistas nesse momento.

“Não foi uma situação trágica, porque minha mãe sofria com demência e seu estado havia piorado muito nos últimos dias”, contou. “No momento, ela vivia uma fase em que não queria mais continuar, e estava recebendo cuidados paliativos. “A Jessica foi o antídoto perfeito para essa situação”, disse ela.

Mãe dedicou sua vida a ajudar os outros

Sheryl Pardo com a mãe, Sandra Wilkins
Sheryl Pardo com a mãe, Sandra Wilkins
Foto: Sheryl Pardo

Jessica perguntou a Sheryl sobre sua mãe e queria saber como ela era. Para descrever a mãe, Sandra Wilkins, Sheryl usou as seguintes palavras: pragmática, resolve tudo e amorosa.

A mãe trabalhou como enfermeira da escola e, mais velha, voltou aos estudos para fazer um mestrado em ecologia humana. Sandra passou anos ajudando famílias de refugiados nos EUA e foi voluntária no Haiti após o terremoto de 2010.

Quando a demência a atingiu, a família se uniu para ajudá-la. Os últimos dois meses foram difíceis, com frequentes visitas ao pronto-socorro, uma queda e infecções. Como o centro de reabilitação onde ela ficava foi fechado aos visitantes por causa do coronavírus, Sheryl e seu irmão ficaram sem visitá-la por um tempo.

Na semana passada, Sheryl conseguiu passar esse dia com a mãe, antes de sua partida. Sandra Wilkins, mãe, modelo de vida e maior fã de Sheryl, faleceu na manhã seguinte à viagem, em 28 de março. O filho e a nora seguravam as mãos dela. Ela tinha 83 anos.

Quando tudo estiver seguro novamente, Sheryl e sua família planejam fazer uma cerimônia em homenagem a Sandra, possivelmente em Ithaca, Nova York, onde sua mãe os criou.

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“Quando todos nós formos libertados do cativeiro, celebraremos juntos a vida de Sandra”, disse. “Parece que a realidade está suspensa agora. Sinto que isso vai me afetar de maneira diferente quando a vida voltar ao normal.”

O voo de volta foi tão surreal quanto o voo de ida – Sheryl pegou um avião para Boston às 22h30. “Foi uma experiência muito estranha de ser a única pessoa devolvendo o carro alugado, a única na van para o aeroporto”, relatou. “O pessoal da TSA ficou encantado em me ver.”

Mais uma vez, Sheryl recebeu tratamento VIP: era novamente a única passageira a bordo. “Está sendo engraçado ver as pessoas se preocupando com essa história e é ótimo elogiar os comissários de bordo, pois eles têm um trabalho muito difícil e, com certeza, também têm medo de trabalhar agora”, opinou a passageira. “Quero que eles saibam o quanto isso significou para mim”.

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