Na fronteira devastada da China, o destino de muitas pessoas é desconhecido
Autoridades ainda não divulgaram publicamente lista de desaparecidos, o que gera questionamentos sobre transparência

Uma fenda repleta de rochas é tudo o que resta do que costumava ser o Porto de Gyirong.
Esse polo de grande altitude foi completamente varrido do mapa, deixando uma paisagem lunar de pedras, cascalho e lama que equipes de emergência continuam a vasculhar — cenário testemunhado por uma equipe da CNN que obteve acesso ao local neste domingo (6), como parte de uma visita organizada pelo governo.
Os repórteres receberam capacetes e botas para enfrentar o terreno coberto de lama — ainda instável — e o risco constante de novos deslizamentos de terra.
Essa passagem de fronteira já foi um ponto de grande movimento para turistas e comerciantes que transitavam entre a China e o Nepal.
Centenas de pessoas costumavam passar pelo local diariamente, indo ou vindo do porto nepalês de Rasuwa, situado logo do outro lado do rio.
Tudo isso mudou em 26 de agosto, quando o local foi atingido por uma enorme onda de água — o primeiro ponto de impacto de um deslizamento de terra e de uma inundação repentina e violenta que, em seguida, avançou sobre o Nepal.
Imagens devastadoras de vigilância mostram pessoas fugindo para salvar a vida no momento em que a enxurrada atingiu a região.
Não foram encontrados sobreviventes no porto, local que se tornou um ponto de encontro para famílias — tanto da China quanto de outras partes do mundo — desesperadas por qualquer informação sobre seus entes queridos que, acredita-se, estavam no posto de controle quando a tragédia ocorreu.
Ao entrar na área do desastre, via-se o ar carregado de poeira e neblina. Havia inúmeros veículos de resgate no local, e autoridades orientavam o trânsito por toda parte.
A estrada, completamente destruída, foi coberta com cascalho para permitir a passagem.
Um memorial improvisado em homenagem às vítimas foi erguido, coberto por cerca de 100 flores amarelas. Fincada em um monte de escombros e tremulando ao vento impiedoso, via-se a bandeira chinesa, vermelha e dourada.
A imponente instalação de controle de fronteira de cinco andares, que se erguia sobre a área circundante no estilo grandioso das instalações do governo chinês, foi totalmente demolida. Tudo o que resta do edifício agora são os vestígios de suas fundações.
“Depois que começamos a escavar, tudo o que conseguimos ver foi a fundação que restou”, disse à CNN, no local, o socorrista Zhang Xiaojun.
“Todas as estruturas acima dela haviam sido varridas pelo deslizamento de lama. Foi realmente de partir o coração. Muitos de nossos compatriotas chineses perderam suas vidas preciosas nesta tragédia.”
A destruição foi semelhante em todo o restante do local, que antes abrigava agências de viagens, um supermercado e uma ponte que ligava a China ao Nepal. Tudo foi arrasado, soterrado pela parede de lama e água que levou tudo o que encontrou pelo caminho.
“A parte mais difícil têm sido as condições no local do resgate”, disse Yang Qiqiao, comandante da equipe de operação em solo, que trabalha no local desde 28 de agosto — dois dias após a ocorrência do desastre.
“Primeiro, há muita lama e sedimentos. Há também muitas rochas grandes, e estamos enfrentando alguns riscos secundários. A geologia da região não é muito estável.”
As informações sobre as pessoas afetadas no porto têm demorado a surgir, contrastando com a situação no Nepal, onde houve atualizações frequentes sobre o número de resgatados ou de mortes confirmadas.
Segundo a atualização mais recente da China, divulgada no domingo — a primeira em quase dois dias —, havia 43 mortes confirmadas e 519 pessoas desaparecidas do seu lado da fronteira.
Cerca de 261 estrangeiros estão entre os desaparecidos, informou a repórteres Ren Wei, vice-presidente executivo da Região Autônoma do Tibete.
As autoridades chinesas ainda não divulgaram publicamente a lista de nomes das pessoas que estavam no porto naquele momento ou que se acredita estarem desaparecidas deste lado da fronteira.
Isso gerou questionamentos sobre transparência — especialmente por parte de famílias desesperadas por notícias de seus entes queridos desaparecidos.
Pequim defendeu a divulgação de informações sobre a remota área do desastre, classificando-a como aberta e oportuna.
O convite feito a cerca de uma dúzia de repórteres de veículos de imprensa internacionais — incluindo a CNN — para uma visita à região neste domingo (6), organizada minuciosamente, faz parte de um esforço para mostrar as operações de resgate em andamento no porto.
A viagem é organizada conjuntamente pelo Ministério das Relações Exteriores da China e pelo Escritório de Informação do Conselho de Estado.
Embora a CNN esteja participando de um roteiro planejado pelas autoridades para acessar essa área restrita, a emissora mantém total controle editorial.
Mais de mil mortes foram confirmadas e milhares de pessoas continuam desaparecidas após a catástrofe, segundo autoridades de ambos os países.
A viagem até o local evidenciou o quão remota é a região — e quão difícil foi a resposta das equipes de resgate.
Chegar a essa parte da China já exige um grande esforço; as distâncias na região são enormes.
A equipe da CNN que participou da viagem percorreu de carro, no sábado (5), um trajeto de cerca de oito horas, passando por altitudes de quase quatro mil metros.
O deslocamento de Dingri — onde fica o aeroporto mais próximo — até o porto, situado em uma altitude menor, de aproximadamente mil e oitocentos metros, levou mais seis horas.
Uma estrada estreita de duas faixas que leva ao porto serpenteia por montanhas cobertas de pinheiros, com inúmeras curvas fechadas.
Essas vias só foram liberadas na quarta-feira (2) — sete dias após a tragédia —, permitindo finalmente a entrada de milhares de equipes de resgate e de maquinário pesado na área.
Antes disso, um número menor de socorristas havia chegado ao local a pé, de barco ou de aeronave.
“Chegamos à área central a pé porque a estrada havia sido destruída pela enxurrada. Tivemos que caminhar pelas montanhas e atravessá-las para chegar à região mais atingida”, disse Yang à CNN neste domingo (6).
Nos últimos 11 dias, os esforços de resgate também foram atrasados ou, por vezes, paralisados devido ao risco de desastres secundários, incluindo deslizamentos de terra e o rompimento de novos lagos de barreira — formados quando detritos e lama represaram partes de um rio próximo.
Essas condições, somadas às fortes chuvas e ao terreno montanhoso, dificultaram o acesso, inclusive por via aérea, em diversos momentos.
“Nesta fase, estamos concentrados principalmente em operações intensivas de busca e resgate”, disse Zhang, que trabalha no local desde que o acesso foi liberado.
“Nossa estratégia consiste em escavar uma camada, examiná-la e depois removê-la antes de passar para a próxima. Estamos escavando com muito cuidado, realizando buscas minuciosas e removendo os escombros camada por camada, na tentativa de localizar alguma das vítimas fatais.”
As autoridades também alertaram para o risco de novos desabamentos nas imediações da geleira do monte Langtang Lirung, no Nepal; a geleira sofreu rachaduras e se rompeu, desencadeando o deslizamento de terra e as inundações ocorridos em 26 de agosto.
O desastre do mês passado pode servir de catalisador para um monitoramento mais intensivo desses riscos, bem como para o compartilhamento de dados e a implementação de sistemas de alerta precoce entre a China e o Nepal, especialmente porque o risco de desastres naturais está aumentando e se tornando mais imprevisível devido às mudanças climáticas.
No entanto, por enquanto, o foco permanece na recuperação — e, para as famílias dos desaparecidos, em obter informações sobre o que aconteceu com seus entes queridos, incluindo aqueles que, acredita-se, estavam no Porto de Gyirong naquela manhã fatídica.



