O ano de 2020 foi terrível, mas o mundo está melhor do que pensamos

Acontecimentos extraordinários podem ter sido obscurecidos por notícias ruins

Agradecimento a profissionais de saúde em Nova York em abril de 2020
Agradecimento a profissionais de saúde em Nova York em abril de 2020 Foto: Vanessa Carvalho/Shutterstock

Rob Picheta, da CNN

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Em 2020, um vírus devastador desapareceu oficialmente do continente que havia arrasado anos antes, o que significa uma conquista notável para a saúde pública após décadas de trabalho. Mas talvez isso não tenha ficado claro.

A erradicação do vírus selvagem da poliomielite da África em agosto foi saudada como um “grande dia” pela Organização Mundial de Saúde, e celebrada por autoridades de saúde pública.

Ainda assim, a opressão da pandemia de Covid-19 tirou a notícia das primeiras páginas e fez com que um golpe quase fatal sobre uma doença mortal passasse quase despercebido.

“Isso apagou a grande alegria, publicidade e reconhecimento que esse marco merece”, disse o Tunji Funsho, um dos responsáveis pela erradicação da pólio selvagem na Nigéria e, consequentemente, da África.

No entanto, o momento foi “um grande suspiro de alívio”, acrescentou Funsho, cujo trabalho como presidente do programa de erradicação da pólio do Rotary International na Nigéria lhe rendeu um lugar entre as 100 pessoas mais influentes de 2020 da revista Time.

“Tendo visto e segurado crianças paralisadas pelo vírus selvagem da poliomielite… esse tipo de imagem se tornou histórica”, disse ele à CNN, com o tamanho da conquista ainda reverberando em sua voz. “Nenhuma criança a mais vai ficar paralisada pelo vírus selvagem da poliomielite na Nigéria”.

O ano de 2020 para Funsho parece invertido: em vez de assistir a uma doença se espalhar indiscriminadamente e congelar o mundo em um estado de choque, ele pôs fim aos últimos resquícios de um vírus diferente, e liberou uma enorme quantidade de potencial humano.

Mas essa não é a única conquista a se perder em meio à vertiginosa jornada de 2020.

Mesmo antes da Covid-19 existir, os seres humanos já tinham uma tendência inconfundível e provada cientificamente de acreditar que o mundo é mais pobre, mais hostil e mais instável do que realmente é, como num desejo inconsciente de se apegar a estereótipos negativos e ignorar o tamanho do progresso que se desdobra bem à nossa frente.

É um hábito adquirido na infância e reforçado pela cobertura da mídia e por nossas peculiaridades psicológicas, acreditam muitos especialistas. Simplificando, pensamos que o mundo é um lugar ruim e que só está piorando, uma sensação que sem dúvida aumentou nos últimos 12 meses.

E qual o problema disso? Estamos errados.

“Sou um otimista nato”, disse Funsho, refletindo sobre os desafios que seu trabalho ao longo de anos encontrou: de uma insurgência do Boko Haram, que impediu crianças no norte da Nigéria de serem vacinadas contra a pólio, a terrenos traiçoeiros que fizeram sua equipe viajar usando motocicletas, burros e camelos para entregar vacinas.

“Quando o mundo se une em torno de um propósito comum, o de melhorar a vida de todos os cidadãos do mundo não importa onde vivam, podemos conseguir isso”, afirmou ele. “Eu estava bastante otimista e provei que estava certo”.

Coisas boas continuaram a acontecer em 2020, mesmo com as perdas e o isolamento se espalhando em uma escala épica.

E, de acordo com muitos cientistas e especialistas em dados, realizações como a de Funsho estão ocorrendo constantemente em um mundo em rápida evolução. Só que não estamos prestando atenção.

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‘Este é provavelmente o melhor dos tempos’

“Em um mundo com muitos problemas, estamos um pouco proibidos de falar sobre coisas boas”, lamentou Ola Rosling. Ele é coautor de um best-seller, “Factfulness”, que buscou educar as pessoas sobre as melhorias subestimadas na pobreza, saúde e bem-estar globais.

Rosling faz parte de um grupo de especialistas que faz as pessoas pensarem de forma diferente sobre nosso mundo e, em 2020, seus esforços foram particularmente pungentes.

“Mesmo em anos sem pandemias, as pessoas relutam em acreditar que o mundo está melhor do que costumava ser”, disse ele à CNN. “Podemos melhorar e muito o mundo. Os problemas são tantos”, admitiu. “Mas acho que o principal problema é nossa mentalidade”.

Mudar essa mentalidade tem sido a missão de Rosling e de seu falecido pai, Hans. Seu livro de 2018 foi saudado por Bill Gates, que pagou para qualquer aluno de universidade dos EUA poder comprá-lo de graça.

Além disso, a obra revelou uma tendência humana alarmante: quando os autores pediram a milhares de pessoas em todo o mundo para estimar as taxas de pobreza extrema, de meninas com acesso a educação, de crianças vacinadas contra o sarampo e dezenas de outras questões, os entrevistados presumiram sistematicamente que cada número era pior do que realmente é.

Na verdade, se os autores tivessem “colocado uma banana ao lado de cada uma das três (opções) e deixado chimpanzés escolherem as respostas, eles poderiam acertar uma em três perguntas, superando a maioria dos seres humanos no processo”, escreveu Hans Rosling em 2015.

“Não há divisão partidária ou política nesse equívoco”, disse Ola Rosling à CNN, que agora dirige a organização Gapminder. “Em um mundo em constante mudança, de forma sistemática à esquerda e à direita as pessoas estão igualmente desatualizadas sobre o mundo”.

Parece que não queremos abandonar essas suposições negativas. Em um estudo de 2018 citado por psicólogos, incluindo o autor canadense-americano Steven Pinker, que buscava demonstrar a ignorância das pessoas sobre as melhorias globais, os pesquisadores de Harvard pediram aos participantes que procurassem coisas diferentes, como pontos azuis, rostos ameaçadores ou atitudes antiéticas.

“Descobrimos que quando os participantes observavam uma categoria que se tornou menos comum com o tempo, eles ‘expandiam’ essa categoria para incluir mais coisas”, disse à CNN o principal autor do estudo, David Levari. “Assim, quando os pontos azuis se tornaram raros, as pessoas passaram a nomear uma gama maior de cores de azul. Quando rostos ameaçadores se tornaram incomuns, as pessoas chamaram de ameaçadoras uma gama mais ampla de expressões faciais”.

“Essas descobertas sugerem que quando as pessoas estão em alerta para algo negativo que está se tornando menos comum, em vez de celebrar sua boa sorte, elas podem começar a encontrar o aspecto negativo em mais lugares do que antes”, disse ele.

Suposições desatualizadas são transmitidas de geração em geração, ensinadas durante a infância e reforçadas pela cobertura da mídia de eventos negativos, porém excepcionais, sugeriu Rosling.

E quando as coisas ficam realmente ruins, como em 2020, a tendência humana de assumir o pior tem importância. “Em nossa visão de mundo, qualquer grande catástrofe se torna imediatamente a pior catástrofe da história”, afirmou Rosling.

“O mundo está muito mal, mas este é provavelmente o melhor de todos os tempos”, acrescentou. “E a maioria das pessoas não consegue imaginar isso, por causa de como nossos cérebros estão conectados”.

Encontrando pontos positivos em um ano difícil

A negatividade pode ser uma tendência humana, mas especialistas dizem que desafiá-la pode nos ajudar a colocar até mesmo um ano tão complicado como 2020 em um contexto adequado.

A pandemia, por exemplo, paralisou os esforços para solucionar inúmeras descobertas científicas. Mas também encobriu uma série de realizações, e garantiu que perdêssemos muito mais tempo focando em uma nova crise de saúde, em vez de celebrar o fato de que outras estão lenta, mas seguramente, chegando ao fim.

Um desses marcos foi obtido por uma equipe de médicos, incluindo o virologista Ravindra Gupta, que curou o HIV em uma pessoa pela segunda vez na história, uma conquista de 2019 que se tornou de conhecimento público em março.

“Foi uma grande notícia”, disse Gupta à CNN. “A primeira vez que isso aconteceu foi há quase 10 anos, e as pessoas não conseguiram fazer de novo, então se perguntaram se era uma realidade ou um acaso”.

“Isso reforça a esperança de que a cura para o HIV é possível”, disse Richard Jefferys, diretor de projetos científicos do Treatment Action Group, dos Estados Unidos.

Vacinação contra a Covid-19 na União Europeia começa domingo (25.dez.2020)
Vacinação contra a Covid-19 na União Europeia começa domingo
Foto: Reprodução/CNN (25.dez.2020)

A pandemia também gerou uma vacina historicamente rápida, que reescreveu todas as regras sobre a velocidade com que vacinas podem ser produzidas.

“Acho que é algo sem igual”, disse David Matthews, professor de virologia da Universidade de Bristol, sobre as múltiplas vacinas candidatas que têm a possibilidade de serem aprovadas em 2020. “É importante lembrar que, no início do ano, não tínhamos absolutamente nenhuma ideia se algum tipo de vacina era possível contra a Sars-CoV-2”.

“Estamos entrando em uma nova era de desenvolvimento de vacinas”, acrescentou Andrew Preston, da Universidade de Bath. Existe até uma esperança de que a tecnologia de RNA mensageiro (RNAm) usada pela primeira vez em algumas vacinas contra a Covid-19 possa funcionar contra uma grande variedade de outras infecções, incluindo o câncer.

A crise também deu origem a uma renovada valorização do trabalho científico, segundo Peter Hotez, reitor da Escola Nacional de Medicina Tropical do Baylor College of Medicine, em Houston. “Tanto quanto me lembro, as pessoas estão escutando os cientistas diretamente e com regularidade, e acho que as pessoas gostam do que estão ouvindo, [sobre] como pensamos a respeito de um problema, como fazemos avaliações, como reagimos a diferentes situações”, disse ele à CNN.

“Acho que é um desenvolvimento realmente importante e positivo, e que precisamos dar continuidade”.

Progresso gera progresso: como a pólio selvagem foi suprimida na África, Funsho disse à CNN que sua equipe rapidamente reaproveitou sua operação para combater a Covid-19 na região, protegendo-a do vírus de uma forma que de outra maneira seria impossível.

Além disso, a crise pode ter implicações ainda mais profundas em outros lugares. “Essa pandemia nos ajudou a enxergar todos os atores reais do que chamamos de sociedade: todas essas pessoas uniformizadas, das quais sempre se falava mal”, disse Rosling.

“Acho que isso está aguçando nossa seriedade sobre o que realmente é uma sociedade, e o tipo de solidariedade necessária para mantê-la funcionando”.

Enquanto isso, Rosling faz questão de destacar as melhorias constantes, mas vitais, que aconteceram nos bastidores.

“As tendências que realmente formam e moldam a vida das gerações futuras são coisas que nunca aparecem nas notícias”, disse ele. Rosling citou o aumento do acesso à eletricidade, o declínio da mortalidade no parto e o progresso contra doenças como a malária e a poliomielite como fontes de luz que brilharam durante todo o ano.

“Para perceber como o mundo é bom e quantas coisas estão melhorando, primeiro temos de confrontar a visão de mundo das pessoas e mostrar a elas que, na verdade, elas estão muito erradas”, resumiu.

“Estar ciente do progresso faz com que as pessoas percebam que os problemas sobre os quais ouvem hoje, elas somente ouvem falar porque vamos tentar resolvê-los”.

“Os problemas existem para serem resolvidos”, concluiu Rosling. “E, historicamente, temos conseguido resolver os maiores problemas”.

(Texto traduzido, leia o original em inglês)

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