O que é Antifa, grupo que Trump culpa pela violência nos protestos dos EUA

Mesmo sem ter autoridade legal para isto, Trump disse que irá classificar a Antifa como uma organização terrorista

O presidente dos EUA Donald Trump em pronunciamento na Casa Branca
O presidente dos EUA Donald Trump em pronunciamento na Casa Branca Foto: Jonathan Ernst/Reuters (29.mai.2020)

Jessica Suerth, da CNN

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Conforme os protestos contra a morte de George Floyd – homem negro, que foi morto asfixiado por um policial durante uma abrodagem – se espalham pelos Estados Unidos, membros do governo decidiram culpar o polêmico grupo Antifa pela violência registrada em algumas manifestações.

O presidente Donald Trump disse nesse domingo (31) que os EUA iriam classificar a Antifa como uma organização terrorista, ainda que o governo federal não tenha autoridade legal para designar um grupo local da mesma forma que faz com organizações estrangeiras.

Um dia antes, Trump afirmou que a recente “violência e o vandalismo” vistos em todo o país “estão sendo liderados pela Antifa e outros grupos radicais de esquerda que estão aterrorizando inocentes, destruindo empregos, prejudicando comércios e incendiando edifícios”. O presidente não apresentou qualquer evidência para sua afirmação.

O que é a Antifa?

Antifa é a abreviação de antifascistas. O termo é utilizado para definir um amplo grupo de pessoas cujas crenças políticas são voltadas para a esquerda, às vezes, extrema esquerda, mas não se encaixam na plataforma do Partido Democrata. Eles não têm um líder oficial ou sede central, mas seus grupos, em certos estados, se reúnem frequentemente.

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As posições da Antifa podem ser difíceis de definir, mas muitos membros apoiam as populações oprimidas e protestam contra o acúmulo de riqueza por parte das corporações e das elites. Alguns empregam táticas radicais para transmitir sua mensagem.

Scott Crow, ex-coordenador da Antifa, disse que os “ideais radicais” promovidos pelo grupo estão começando a ser adotados pelos liberais. “Nunca haviam olhado [para esses ideais] antes porque os viam como inimigo, assim como os direitistas.”

A maioria dos membros da Antifa não se encaixa em um estereótipo. Contudo, desde a eleição de Donald Trump, grande parte dos novos membros do grupo são jovens eleitores.

Como surgiu a Antifa?

As origens exatas do grupo são desconhecidas, mas ele remonta à Alemanha nazista e à Ação Antifascista, um grupo militante fundado na década de 1980 no Reino Unido.

“O que eles estão fazendo agora é não só se tornar proeminentes por meio da violência nessas manifestações, mas também de pequenas reuniões e redes sociais para cultivar os progressistas marginalizados que até agora eram pacíficos”, explicou Brian Levin, diretor do Centro para o Estudo do Ódio e do Extremismo na Universidade Estatal da Califórnia, em San Bernardino.

Onde eles protestam?

Os membros da Antifa têm sido vistos em eventos da direita por todo o país. Em agosto de 2017, alguns deles protestaram em Charlottesville, Virgínia, para condenar o racismo e se opor às manifestações de centenas de nacionalistas brancos que eram contra a remoção da estátua do general Robert E. Lee. Os atos se tornaram violentos quando James Fields, que não é membro da Antifa, se lançou com seu veículo contra uma multidão de manifestantes e matou Heather Heyer.

No começo do mesmo ano, o grupo protestou contra uma palestra de Milo Yiannopoulos, um provocador de extrema direita, na Universidade da Califórnia, Berkeley. Eles também se manifestaram contra a posse de Donald Trump, em janeiro de 2017.

Ainda que seja difícil diferenciar os ativistas da Antifa de outros manifestantes, alguns deles se vestem completamente de preto e usam máscaras para esconder sua identidade da polícia.

Por que eles são polêmicos?

O grupo é conhecido por causar danos a propriedades durante as manifestações. Em Berkeley, manifestantes, vestidos de preto e com máscaras, lançaram coquetéis molotov e quebraram janelas do centro estudantil onde seria realizado o evento com Yiannopoulos.

Crow, que esteve envolvido com a Antifa por quase 30 anos, disse que os membros usam a violência como um meio de defesa própria e acreditam que a destruição da propriedade não equivale à violência.

“Há um lugar para a violência. É nesse mundo que queremos viver? Não. É esse o mundo que queremos habitar? Não. É o mundo que queremos criar? Não. Mas somos contra ele? Sim”, afirmou Crow.

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Segundo Brian Levin, os ativistas da Antifa sentem a necessidade de participar da violência porque “acreditam que as elites estão controlando o governo e os meios de comunicação. Para isso, precisam fazer uma declaração contra as pessoas que consideram racistas”.

Nacionalistas brancos e outros membros da chamada direita alternativa já denunciaram membros da Antifa, às vezes chamando-os de “esquerda alternativa”. Muitos nacionalistas brancos de Charlottesville, onde eles se reuniram para protestar contra a remoção de um monumento de Robert E. Lee em 2017, entraram em confronto com os manifestantes da Antifa, e afirmaram que foram estes os que tornaram os protestos violentos.

Peter Cvjetanovic, um nacionalista branco que acompanhou as manifestações em Charlottesville, disse acreditar que a extrema esquerda, incluindo a Antifa, é “tão perigosa, se não mais, do que a direita poderia ser”. “Estas são as pessoas que prejudicam a tolerância e o amor enquanto, ao mesmo tempo, ameaçam as pessoas com uma ideologia diferente”, disse ele

Mas Crow afirmou que a filosofia da Antifa se baseia na ideia de ação direta. “Na Antifa, a ideia é que vamos onde eles [direitistas] vão. Esse discurso de ódio não é liberdade de expressão. Se você está colocando as pessoas em risco com o que diz e as ações por trás disso, não tem o direito de fazê-lo”, destacou. “Então, vamos causar conflitos, calá-los onde quer que estejam, porque não acreditamos que nazistas ou fascistas de qualquer tipo devam ter um amplificador.”

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