O que sabemos sobre as forças da Coreia do Norte na guerra contra a Ucrânia

Tropas, munições e mísseis aproximam Pyongyang de Moscou e ampliam o envolvimento norte-coreano no conflito

Joyce Lee e Josh Smith, da Reuters, João Scavacin, da CNN Brasil
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A participação da Coreia do Norte na guerra da Rússia contra a Ucrânia ganhou novas dimensões. Além do envio de soldados e do fornecimento de grandes volumes de munição, Pyongyang agora teria deslocado uma unidade de mísseis para o território russo, segundo um oficial da inteligência militar ucraniana.

O movimento representa o envolvimento mais significativo da Coreia do Norte em um conflito desde a década de 1950.

De acordo com o oficial da agência de inteligência militar da Ucrânia, conhecida como GUR, uma unidade norte-coreana começou a se deslocar para o oeste da Rússia e pode contar com até 120 mísseis balísticos e seis lançadores. Cerca de 90 militares fariam parte da unidade, que deve ser instalada na região de Voronezh.

A informação surge depois de o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, afirmar, em julho, que a Rússia pretendia receber mais 30 mil soldados norte-coreanos e preparava instalações em Voronezh para acomodar esse contingente. As alegações, no entanto, não foram verificadas de forma independente pela Reuters.

O possível deslocamento de uma unidade de mísseis ocorre em meio à ampliação gradual da presença militar norte-coreana na guerra. As primeiras avaliações feitas por Ucrânia, Estados Unidos e Coreia do Sul apontavam para o envio de entre 10 mil e 12 mil soldados ao fim de 2024.

Em janeiro de 2025, o vice-embaixador dos Estados Unidos na Organização das Nações Unidas declarou que mais de 12 mil militares norte-coreanos estavam na Rússia. Estimativas posteriores da Ucrânia e da Coreia do Sul indicaram que entre 14 mil e 15 mil soldados estavam concentrados na região russa de Kursk.

Mais recentemente, o oficial ucraniano afirmou que aproximadamente 9.500 militares norte-coreanos permaneciam em Kursk. Segundo ele, naquele momento, esse contingente não participava diretamente de operações contra a Ucrânia.

A presença de tropas norte-coreanas no campo de batalha foi posteriormente reconhecida pelos próprios governos envolvidos. Em abril de 2025, Rússia e Coreia do Norte confirmaram que militares de Pyongyang haviam combatido forças ucranianas em Kursk.

Após a Rússia relatar que havia retomado territórios na região, o principal comandante militar russo elogiou a atuação das tropas norte-coreanas. Pyongyang, por sua vez, compartilhou que o envio havia sido determinado por Kim Jong Un.

Outros profissionais também foram enviados?

A cooperação não se limitou aos militares envolvidos diretamente nos combates. Em junho de 2025, o secretário do Conselho de Segurança da Rússia, Sergei Shoigu, comentou que a Coreia do Norte enviaria 1.000 especialistas em desminagem e 5.000 trabalhadores da construção militar para Kursk.

A missão anunciada seria voltada à retirada de minas e à reconstrução de estruturas danificadas pelos combates.

Naquele mesmo mês, parlamentares da Coreia do Sul, citando um relatório do Serviço Nacional de Inteligência do país, disseram que a Coreia do Norte parecia ter iniciado o recrutamento de pessoal para um novo envio à Rússia. Paralelamente, Pyongyang continuava fornecendo munições de artilharia e mísseis em troca de cooperação econômica e assistência técnica.

Ainda não está claro, porém, quantos engenheiros, especialistas em desminagem ou novos soldados chegaram à Rússia. Também não há confirmação sobre a utilização desse pessoal em funções de combate.

O que a Coreia do Norte forneceu à Rússia?

A atuação norte-coreana também envolve o fornecimento de armamentos. Avaliações ucranianas e independentes apontam que Pyongyang entregou à Rússia milhões de projéteis de artilharia e morteiros, além de mísseis balísticos, peças de artilharia de longo alcance e sistemas de lançamento múltiplo de foguetes.

Uma análise da Reuters, realizada em parceria com o Open Source Centre, do Reino Unido, identificou movimentações regulares entre os dois países. Quatro navios de carga com bandeira russa fizeram 64 viagens ao porto norte-coreano de Rajin entre setembro de 2023 e março de 2025. Nesse período, transportaram quase 16 mil contêineres de munições para portos russos.

Autoridades ucranianas pontuaram que a Coreia do Norte estaria fornecendo aproximadamente metade das munições necessárias pela Rússia nas linhas de frente.

Segundo a GUR, Pyongyang entregou 4 milhões de projéteis de artilharia desde meados de 2023, sem contabilizar munições de morteiro. A agência também afirma que 148 mísseis balísticos KN-23 e KN-24 foram fornecidos até o início de 2025.

Por que Pyongyang apoia Moscou?

A aproximação militar entre Rússia e Coreia do Norte foi formalizada em junho de 2024, quando Vladimir Putin e Kim Jong Un assinaram um tratado de parceria estratégica abrangente durante a visita do presidente russo a Pyongyang.

O acordo prevê assistência mútua caso qualquer um dos dois países seja alvo de agressão externa.

A Coreia do Norte passou a apresentar o envio de tropas como uma forma de apoio a um país parceiro do tratado. Em maio de 2025, Kim Jong Un destacou que a participação norte-coreana na guerra era justificada como um exercício dos direitos soberanos do país na defesa de uma “nação irmã”.

Além da justificativa oficial, analistas apontam possíveis ganhos para Pyongyang com a aproximação. Entre eles estão recursos financeiros, petróleo e outras formas de apoio econômico, além do acesso à tecnologia militar russa e à experiência adquirida por suas tropas em um conflito de grande escala.

A guerra também oferece aos militares norte-coreanos contato direto com métodos empregados no campo de batalha contemporâneo. Soldados do país ganharam experiência com drones, guerra eletrônica, coordenação de artilharia e táticas modernas. Ao mesmo tempo, fabricantes norte-coreanos de mísseis e munições puderam avaliar seus equipamentos em condições reais de combate.

Como a comunidade internacional reagiu?

Os Estados Unidos e seus aliados afirmam que o envio de tropas e as transferências de armamentos entre Coreia do Norte e Rússia violam resoluções do Conselho de Segurança das Nações Unidas.

A Coreia do Norte está submetida a sanções da ONU desde 2006 por causa de seus programas nuclear e de mísseis balísticos. Entre as restrições impostas está a proibição de que países recebam treinadores, conselheiros ou outros funcionários norte-coreanos para treinamento militar, paramilitar ou policial.

Washington também ampliou as medidas contra a cooperação entre Moscou e Pyongyang. Em dezembro de 2024, os Estados Unidos impuseram novas sanções a entidades norte-coreanas e russas relacionadas ao apoio militar e financeiro da Coreia do Norte à Rússia.

A Coreia do Sul adotou medidas semelhantes e incluiu em sua lista de sanções indivíduos e organizações envolvidos no que considera uma cooperação militar ilegal entre os dois países.

Para a Otan, a aproximação entre Rússia, Coreia do Norte, China e Irã ultrapassa os limites do conflito europeu. A aliança enfatiza que o crescimento desses vínculos militares e econômicos representa uma ameaça que alcança também a região do Indo-Pacífico e a América do Norte.

O que começou com o fornecimento de munições e evoluiu para o envio de tropas agora inclui, segundo autoridades ucranianas, uma unidade de mísseis em território russo. A dimensão exata desse envolvimento ainda depende de confirmações independentes, mas os dados disponíveis apontam para uma participação norte-coreana cada vez mais ampla no esforço de guerra de Moscou.